Arquivo da tag: Socialismo

hasta siempre, comandante

img_20161126_104728Tomados pelo mais puro sentimento de consternação pela notícia da morte do comandante em chefe da mais bela experiência que a humanidade produziu por essas bandas, lamentamos o seu desaparecimento.
Pode ser que nada mude na nossa vida aqui, ou mesmo para as milhões de pessoas que dependem do estado cubano, mas a esquerda mundial perde um dos seus principais símbolos. O último grande personagem e líder do século XX.
Fidel representa aqueles que conseguiram impôr derrotas ao maior e mais poderoso império da história da humanidade. Impôs derrotas consideráveis à gerações de norte americanos (leio agora que foram 10 presidente e todos, ou quase todos, tentaram elimina-lo), mantendo viva a chama da esperança de que o mundo não precisa ser uma competição entre iguais pelos elementos mais básicos da vida como comida, moradia, vestimenta, diversão…
Cuba nos mostrou, e continua nos mostrando, que o mundo pode ser melhor. Os recursos, escassos no caso daquele país, são melhor distribuídos, garantindo a todos e todas uma existência digna diante de um mundo que mói sonhos e trucida vidas.
Cuba é a revolução possível. Não é a utopia realizada, o céu na terra ou o paraíso. Convive com problemas como qualquer outra comunidade, mas soube dar humanidade a esses problemas. Soube tratar com alegria sua dificuldades e nunca esmoreceu diante das enormes dificuldades que a história lhe imputou. Cuba resistirá, da sua forma, pois sua força está no seu povo aguerrido e batalhador, mesmo que a perda do seu principal líder lhe impute uma derrota, um abalo.
Fidel fará muita falta às gerações vindouras que não terão esse símbolo contra as diversas simbologias do mercado que nos resumem dioturnamente a consumidores.
A história já o absolveu, companheiro.
Hasta siempre, comandante
Anúncios

Deixe um comentário

Arquivado em Política internacional, Sem-categoria

Cuba, do século XX para o futuro

Cuba, hoje, parece um terra de oportunidades. Está se integrando ao mundo do século XXI sem ter passado pelos turbulentos anos 2000.

foto de carros antigos reformados em Cuba

Coches Viejos para pessoas Rosas

A impressão que temos de Cuba, mesmo que já seja uma imagem batida,  é que ela está parada no tempo. Talvez nos anos 1950 pré revolução, se, por exemplo, olharmos a frota de automóveis, que já viraram um símbolo da simpática ilha.  Esses automóveis são também um símbolo da Cuba contemporânea e expressam uma certa desigualdade do país. Vemos alguns deles reformados, como novos, impecáveis, brilhantes, coloridos, em grande parte conversíveis, voltados exclusivamente para o turismo de “alto consumo”. Normalmente europeus de meia idade ou norte americanos. As pessoas rosadas com chapéus panamá recém adquiridos nas novíssimas “tiendas” de Habana Vieja.

taxi com luz azul no interior

taxi com luz azul no interior

Há também, outros coches viejos, reformados, mas não tão brilhantes como os primeiros, que circulam  pelas ruas servindo de táxi  a turistas não tão abastados, não tão rosas e, talvez, sem chapéu. São, também, belas peças que traduzem a capacidade de superar dificuldades da população cu’ana (os cubanos falam como se tivessem um ovo na boca e engolem o “b” às vezes. Além disso falam rápido pra c…).

E há, por último, os carro que são velhos mesmo. Acabados, com a lataria amassada, com remendos aparentes, que servem de táxis coletivos para os cubanos e, na maioria das vezes, são pagos em pesos, ou moneda nacional não em CUCs. Porém, funcionam e cumprem sua função.

Os Coches são, assim, a personificação (?!) da Ilha. Divisões, há. Pero no mucho. É tudo velho, mas com alguma reforma. Assim como o segundo e o terceiro tipos de carros, os cu’anos são craques em se reinventar. Se inventam peças para os automóveis, também inventam formas de viver no aperto no mundo contemporâneo.

A própria existência e circulação de duas moedas, Pesos (moneda nacional) e Pesos Convertíveis (CUC), demonstra uma tentativa de equilibrar a crescente desigualdade gerada pelo turismo, ao mesmo tempo uma reinvenção do seu próprio dinheiro, em contraposição à circulação ilegais de dólares no país.

Bloqueo: el genocidio mas largo de la história

Bloqueo: el genocidio mas largo de la história

Foi assim que sobreviveu ao bloqueio que condenou a Ilha ao século XX, de onde ela tenta, agora, se reerguer.

E tenta se reerguer a partir da criatividade do seu povo.

Se não tem acesso à internet de qualidade ou aos meios pelos quais circulam os produtos comerciais da informação/comunicação/cultura dão um jeito de acessá-los. Conhecemos uma cubana de Santiago, que estava no congresso. Ela, professora da Faculdade de Comunicação da Universidade do Oriente (Santiago), nos explicou que paga 5 pesos, moeda nacional,  no paquete de 4Gb de informaciones duas vezes por semana. Assim, levando o seu próprio pendrive, que depois ela pluga direto na TV, tem acesso aos seriados norteamericanos, filmes de Hollywood e, claro, novela brasileira. Tudo já dublado para o castelhano.

A propriedade intelectual parece não valer muito por lá. Fato curioso aconteceu quando fui levar os slides da apresentação no congresso. Levei o pendrive com a apresentação para a secretaria e, por acaso, era o pendrive que estava no som do meu carro (aqui no Brasil) e, portanto, continha músicas, brasileiras, claro. O sujeito que recebia a apresentação não se fez de rogado. Com a lista de arquivos na tela do windows XP, perguntou logo quais delas eram Samba. Apontei logo um disco da Beth Carvalho e outro do Paulinho da Viola, que foram imediatamente copiados para a área de trabalho e já devem estar incorporados a algum paquete de informação (foi mal Warner, Sony, Globo ou qualquer outra proprietária dos direitos intelectuais desses e outros artistas, rsrs).

Mas somente o acesso aos bens de consumo cognitivos não faz país nenhum entrar no século XXI e Cuba tenta reinventar a sua própria economia. O aluguel de quartos para turistas, antes tolerados, agora são legalizados. É super comum, pelo menos em Havana, turistas ficarem em quartos “particulares”.  Já é possível ter alguns negócios, para além dos paladares (restaurantes familiares que foram os primeiros negócios legalizados na Ilha, ainda na década de 1990), e se isso representa algumas oportunidades, é também fator de desigualdade social.

Prédios reformados em Havana Velha

Prédios reformados em Havana Velha

Em outro momento, uma outra professora, esta de Havana mesmo, sentou ao nosso lado na mesa do almoço. Descobrimos depois que se tratava da responsável acadêmica do congresso. Ela, que depois estaria na mesa de encerramento do congresso, assim como os demais palestrantes, almoçavam junto com todos os participantes em pé de igualdade. Mais uma lição de Cuba: sem VIPs. Ela nos contou que existem hoje pessoas milionárias em Cuba, que possuem extensões (não sei precisar o tamanho) de terra, produzem alimentos, como carne de porco, por exemplo, e com isso conseguem acumular bastante riqueza.

Outros negócios prosperam também. Esses novos negócios, ligados ou não ao turismo, poderiam ser organizados de forma a se criar uma nova economia, baseada no bem comum, na socialização de recursos, na construção coletiva de alternativas. Mas isso não parece acontecer.

Preparação de mojitos em La B del M

Preparação de mojitos em La B del M

A resistência aos modelos de acumulação parecem vir mesmo do governo. Dessa forma, para tentar frear essa onda de desigualdade, onde as pessoas que trabalham com turismo tem a possibilidade de ganhar muito mais dinheiro que os demais trabalhadores,  o governo criou um empresa que participa dos principais empreendimentos comerciais voltados ao turismo como forma de garantir uma melhor distribuição da renda que entra por essa atividade comercial, que é a principal na Ilha. Pelo menos foi isso que entendemos da explicação que nos deu um garçom em um dos restaurantes que possuía o selo  Habaguanex  (Se algum dos meus 6 leitores tiver mais informações sobre isso, pode me corrigir em um comentário que faço as alterações no texto.).

Essa impressão, sobre a distribuição da renda do turismo que entra na Ilha agora, também tivemos em conversa com pesquisadores da área da saúde, já conhecidos de longa data e com passagem por diversos países. Eles tiveram o salário dobrado nos últimos anos, passando, agora, a 100 dólares/mês. Muito pouco e ainda não suficiente para uma vida próspera. Tanto é que seus dois filhos, médicos, saíram do país em busca de melhores condições. Do casal, enquanto ele parecia ter uma visão mais otimista do processo de abertura, ela nos pareceu mais pessimista. Talvez por ter os dois filhos longe.

 

Velhos cubanos dando um jeitinho na antena

Velhos cubanos dando um jeitinho na antena

Por essas e por outras que Cuba parece uma terra de oportunidades. Terra onde se pode construir um acesso à internet que não seja comercial, mas cidadão a partir de ferramentas coletivas, construídas não a partir da apropriação do conhecimento, mas a partir de um conhecimento coletivo gerando novos valores. Ao invés de usar ferramentas proprietárias para o acesso à internet, Cuba poderia desenvolver e distribuir ferramentas livres. Essa seria uma boa maneira de integrar seus jovens, ávidos por adentrarem no maravilhoso mundo digital, sem dá-los de bandeja aos comedores de mentes do Google, do Facebook ou da Apple.

Essa pirataria, a qual Cuba esteve presa ao longo desses anos, aos poucos está transformando os modelos de negócios de forma que o consumidor tenha acesso aos bens cognitivos, mas não precisa mais desembolsar grandes quantias de dinheiro. É o tal do streaming, que explora ainda mais o trabalho de artistas se apropriando do valor gerado por suas produções.

O que vemos nas ruas, em determinados pontos, é uma grande quantidade de pessoas portando aparelhos (smartphones, tablets, computadores) buscando a precária e cara rede wifi da companhia telefônica. Esses aparelhos são, na maior parte das vezes, proprietários e os acessos, em geral, são ao Facebook, Twitter e Imo.

Como, ao contrário dos outros países, Cuba não estava integrada à rede no período de desenvolvimento dessas ferramentas, podemos dizer que não está contaminada pela produção mercadológica dos bens cognitivos. Nós, ao contrários, vimos essas empresas serem criadas e fomos absorvidos aos poucos. Cuba ainda pode se integrar, sem passar por essa disputa. Acredito.

Meninos jogam futebol em praça de Havana

Meninos jogam futebol em praça de Havana

As marcas, o imaginário, o pertencimento e a subjetividade do capital já parece fazer parte do país. Não a toa afloram camisas de times de futebol europeus, principalmente o Barcelona, que parece contaminar a todos no mundo inteiro. O futebol parece ter chegado firme, inclusive. Em todas as praças podemos ver garotos improvisando gols para uma boa pelada. Até fiquei com vontade de participar, mas a correria de poucos dias na cidade não me permitiu arriscar.

Assim vemos Cuba ingressar no século XXI gerando preocupações de esperanças. Preocupações de que as conquistas de um povo massacrado pelo mais longo bloqueio da história, baseadas na solidariedade e na criatividade, sejam absorvidas pelo modo de vida padronizado do consumismo capitalista. Porém, pelo seu histórico, Cuba pode nos surpreender e apresentar uma forma ainda solidária e comum de ingressar no maravilhoso mundo novo da informação e tecnologia em que vivemos. A ver os próximos capítulos.

 

Mais fotos em https://goo.gl/photos/zHMAj3tepCWdQ3Un9

 

 

Deixe um comentário

Arquivado em Política internacional, Sem-categoria

A nossa história

Ato Dilma RioEstamos fazendo história. Melhor, estamos fazendo a história. Estamos construindo uma alternativa, mambembe, caótica, desorganizada, sem saber muito bem onde quer chegar, mas uma alternativa.

Enquanto outras histórias são feitas, costuradas nesse tecido, fomos capazes, talvez sem aquela ousadia que tanto sonhamos, sem o encantamento que queríamos, mas fomos capazes de fazer diferente. De encarar o monstro de frente e tentar fazer um país diferente dos demais.

Ousamos incluir pessoas que não existiam, num mundo que cada vez mais exclui pessoas das necessidades básicas. Ousamos tirar o país do mapa da fome, dar comida a quem sequer tinha condições de ficar de pé.

Ousamos dar educação, não aquela que sonhamos que poderíamos dar, a pessoas que não teriam nunca educação nenhuma. Ousamos permitir que o filho do pedreiro possa ser doutor.

Ousamos dizer que as riquezas dessa terra, desse mar, debaixo desse mar, são nossas. Ousamos dizer não aos poderosos de sempre, mesmo que alguns deles posem ao nosso lado nas fotografias. Sabemos que os rumos dos nossos sonhos estão em nossas mãos, embora muitas pedras hajam no caminho.

Ousamos sonhar com uma campanha militante, na rua, junto ao povo. Ousamos colocar no cargo mais alto da nação uma mulher. Uma mulher que, se não encarna os trejeitos dos grandes líderes, soube aos poucos se impor. Aprendeu a passar a simpatia, mesmo dura, séria.

Ousamos construir uma alternativa. E estamos construindo. Independentemente do resultado de logo mais, algumas coisas já ganhamos. O chão da rua, tão afastados de nós, é de novo nosso companheiro. As ruas foram pintadas de vermelho, na esperança de continuarmos avançando no nosso sonho de uma vida mais igual, plural, colorida e alegre. Avante, companheiros.

Deixe um comentário

Arquivado em Eleição, PT