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Kafka no Quinta D’Or

Acordei de manhã, nessa quarta, dia 3 de agosto de 2016, passando um pouco mal, mesmo assim tomei café, banho e me preparei para ir trabalhar. Mas antes, como me sentia mal, resolvi medir a pressão: 16×10. Para tudo liga pras referências no assunto (minha irmã e minha companheira são médicas).  Ruma para o hospital. Quinta d’Or. Chega lá e entra no mundo da burocracia.

Entrego a carteira do plano e o documento perguntando pela emergência cardíaca: aguarde para ser atendido. Véi, hipertenso chega passando mal no hospital e não passa direto por uma avaliação? O que é isso? Isso é mesmo uma emergência? Escândalo feito (não por mim, dessa vez) e problema resolvido.

Ruma para fazer o eletro. Quem opera essas coisas dentro de um hospital é um técnico de enfermagem, incapaz ou desautorizado a dar qualquer informação. Fica sem saber se tá tudo bem ou não. Mesmo assim, com uma cópia daquelas cobrinhas desenhadas no papel, que diz muito pouco ou quase nada para nós, leigos, podendo ser o seu coração ou o terremoto que rolou no Equador, espera para ser chamado pelo médico.

O que não demora. Procedimento normal com o médico, eletro normal, pressão idem. Fui bem atendido por esse médico que conversou comigo, me examinou. Tudo certo. Explico a minha história, cheia de antepassados com problemas cardíacos. Ele, então, por conta disso me manda fazer o exame de sangue para verificar a tal da enzima cardíaca, para se certificar de que está realmente tudo bem.

Sangue colhido, toma um AAS protocolar e vai para a sala de espera. 40 minutos vendo a Fátima Bernardes na TV depois, com o saco cheio da sala de espera, resolvo esperar do lado de fora, onde minha mãe me aguardava.

Não pode.

Volta para a sala, dessa vez, pelo menos com o tablet em mãos para ler alguma coisa enquanto espero. Na TV, a globo mostra a olimpíada, dentro de seus 352 programas com gente branca, magra e bem vestida. A leitura estava boa, quando o celular, já quase sem bateria, toca. Do outro lado da linha, minha mãe quer saber porque está demorando tanto, pois já se passara mais uma hora desde que eu voltei.

Então já eram 1h40, pelo menos, de espera pelo resultado do exame.

Fala com a atendente, reclama, você é o próximo. Mais 40min e nada de ser o próximo.

Pronto, pra mim chega: vou embora dessa merda. Saio gritando e encontro com a minha mãe do lado de fora, que prontamente  tenta, e consegue, acalmar a situação e negociar e, 2h e tanto depois, sou finalmente atendido.

Então, o Dr. explica: não fui atendido antes, ele acha, porque meu exame estava muitíssimo alterado e eles não sabiam como proceder e foram chamar um médico mais experiente, disse ele apontando para os cabelos brancos.

Como?!

2h e tanto esperando e o cara me diz isso? Ótimo começo pra atender um hipertenso. PQP não to infartando, mas tenho algo muuuuuito grave. Se não vou morrer agora, talvez daqui a uns meses, ou semanas… Nesse momento é possível que minha pressão, que já tinha baixado, tenha voltado ao patamar anterior que me levou aquele conto do Kafka. Para não dizer o mesmo da minha mãe, que assistia a cena.

O Dr., mais uma vez, explica: o INR estava absurdamente alto. Descobri então que esse índice mede a taxa de coagulação do sangue, tendo sua faixa de normalidade ente 0,qq coisa e 1, enquanto o meu estava em 20! Embora esse índice, mais uma vez nas palavras dele, seja incompatível com a vida e isso provavelmente fosse um erro da coleta,  vamos fazer mais alguns exames para tirar qualquer dúvida de qualquer doença que possa estar associada a alteração nessa coisa de INR aí.

Essa parte, pelo menos, foi mais normal e tudo correu dentro dos tempos aceitáveis em “instituições desse tipo”.  Raio-x, novo exame de sangue, espera resultado, novamente atendido pelo médico e liberado, com tudo em dia e com a saúde como antes, ao final de 6h dentro do que é considerado um dos melhores hospitais do Rio.

Resultado: pico de pressão resolvido e um stress causado pelo atendimento que poderia, tranquilamente, ter sido resolvido com o mínimo de atenção ao paciente, uma conversa e, de repente uma repetição do exame.

OK, stress mil, mas nada que um ansiolítico não resolva.

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Arquivado em Cotidiano