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Vai ter luta

 

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Das formas de se construir a beleza no mundo
Escolhemos a luta
Escolhemos a construção de coletividades
Nossa arte é a rua cheia, multi colorida, multi tudo
Nossa vida é o caminhar eterno da esperança
Caminhamos por onde muito sangue já escorreu
Muitas vidas ficaram, entregues integralmente à luta,
derrubadas nessas pedras
Para que outras vidas pudessem florescer
regadas no nosso sangue, que é vermelho

E nossa indignação é total
Caminhamos em mundo cinza e queremos colori-lo
Vestimos nossas camisas e trazemos nossas bandeiras
E não vamos admitir que os donos de sempre do mundo
venham nos desfazer da esperança
Somos muitos e somos fortes
Não há mais como voltar atrás
Vai ter luta.

Agora, num rastilho de pólvora
que ira explodir um país
somos os que se desfazem dos medos e diferenças
somos irmãos abraçados nas calçadas
chorando nossos mortos e apontando para o céu
onde mais um anjo sobe no lento soluçar das asas de uma borboleta.

Os atores ainda são os mesmos, mas os caminhos são outros
somos os mesmos que derrubaram prédios e tomaram palácios
mas não temos mais palácios a tomar
temos histórias para contar
e a História para construir

O sangue dos nossos antepassados regou a semente
e os de sempre querem pisotear o broto da democracia
não. Não passarão sobre nossas flores.
Caminharemos unidos.

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Dinossauros de metal

Enquanto dinossauros de metal comem mercadorias que viajam em tartarugas gigantes que nadam de costas, hemácias humanas viajam sobre artérias ferroviárias para levar seu próprio sangue pra alimentar as células do sistema.

Mal sabem elas que estão alimentando os próprios carrascos que irão lhe arrancar a pele. Reproduzindo um mundo que já não mais lhes pertence.

Andamos na lama, fechamos escolas, destruímos a nossa casa, atiramos uns nos outros. Sequer sabemos os nossos nomes. Tiramos tudo daqueles que não tem nada.

Derramamos em vão nosso sangue que já não irá alimentar nada. Nem asfalto nem petróleo.

De dentro da caixa de vidro, os donos não escutam nossos gritos, nossa dor. Seu mármore, branco, não está sujos de sangue, ainda. Mas um dia ele poderá apertar a mão do filho morto numa guerra que ele mesmo criou.

Aí já será tarde. Já não haverá mais volta no mundo que ele mesmo criou.

Não haverá mais rio nem dança. Café nem cerveja. Não haverão mais crianças fazendo rodas. Ou jogando bola. E nem mãos que apertar.

Pois, assim caminha a humanidade.

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O mundo, esse triste estar

O poeta canta o mundo
como a criança brinca,
e o pássaro voa.

Hoje o pássaro voou,
mas a criança não brincou,
e o mundo anda tão caduco
que o poeta não canta mais,
não se encanta,
mas chora.
Derrama suas lágrimas
de triste cantador, nas areias do mundo.
soluça palavras que não tem leveza.

Uma criança morta, estendida sobre a areia
nó na garganta e vidas destruídas,
em longas caminhadas em busca de paz
fogem da guerra e,
formigas nas fronteiras,
atacam as toalhas quadriculadas dos senhores do mundo.

No alto dos edifícios, decidem, os homens,
que as formigas continuarão morrendo na borda
para que os picnics sejam cada vez melhores,
e cada vez para menos gente

Mais e mais formigas irão se amontoar
e buscarão, em vão, as migalhas das cestas
o açúcar que derramou.

Menos homens irão decidir sobre mais lugares
e sobre mais vidas.
Não cuidam delas.
Elas não valem.
Valem menos que a mancha negra que incendeia corações e almas
em busca da vã felicidade do possuir,
ou do parecer, tanto faz.

Não são mais humanos esses homens,
pois não se parecem mais com aqueles seres,
agora mulheres, homens e crianças, sobre cuja vida têm controle
não são mais a mesma espécie e não vivem mais no mesmo planeta.
os mundos não são os mesmos.

Mesmo que o nó na garganta não sare, a vida passa.
O tempo é senhor da vida.
Irá apaziguar a dor e esmaecer a esperança.
Aí, quando somente a cicatriz desse nó existir,
outros nós, em muitas outras gargantas
irão aparecer.

Nossa vida será de cicatrizes. Feridas abertas e cicatrizadas.
Pois é preciso cicatrizar as feridas da vida para que possamos caminhar.
E caminhando fazemos a vida.
construímos pontes e igrejas,
carros e bicicletas.

A mesma humanidade, capaz de construir vidas, de fazer escolas e chafarizes
é capaz de destruí-las.
É capaz de deixar a vida acabar, tão jovem
numa praia
ou numa quebrada, ali na esquina.
Ou na rua mesmo.
o Mal não tem pudor.

A vida, felizmente, não é bem ou mal, é vida.
é cicatriz e ferida
amor e ódio
violência e paz
petróleo e sangue.

Mas não é a economia dos engravatados
que deveria decidir sobre vidas e territórios,
a vida e os territórios que deveriam fazê-lo.
Decidir se comeremos maçãs ou bananas
se a terra nos dará comida ou óleo
as frutas são a poesia da natureza
o óleo, seu dejeto

O poeta vê o mundo e ri
ri do que canta sobre o mundo e se espanta.
o mundo não deveria ser, mas é.
Outras crianças irão brincar e outras, muitas outras, irão ver o mundo por baixo
junto ao solo
sentido o gosto, amargo, do chão que todos pisam.
O pássaro irá voar
e o poeta não terá mais onde, nem como, descansar.

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E se?

E se as fronteiras fossem abertas?

E se as catracas fossem libres?

Os muros derrubados, tantos os físicos quanto os psicológicos?

Se abrissemos as janelas?

Exergassemos o outro?

Nos abraçassmemos na rua?

Se o outro fosse, não apenas o outro, mas um irmão, um espelho?

Se fossemos todos iguais?

Seria um mundo melhor?

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A flor e a náusea

Preso à minha classe e a algumas roupas,
vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias espreitam-me.
Devo seguir até o enjôo?
Posso, sem armas, revoltar-me?
Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.
Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.
Uma flor nasceu na rua!
Vomitar esse tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam para casa.
Estão menos livres mas levam jornais
E soletram o mundo, sabendo que o perdem.
Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal.
Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvo
e dou a poucos uma esperança mínima.
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.
Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.
Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.

Carlos Drummond de Andrade
(1902-1987)

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