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Das ruas, dos palácios e da rede

Escrevi isso no calor das manifestações de junho. Queria dar a minha opinião. Mas não consegui dar a forma (e talvez nem o conteúdo) que queria.

Já tinha escrito que o motivo das movimentações das multidões ao redor do mundo era por conta da crise econômica, após um grande ciclo neoliberal que criou uma grande exclusão. As manifestações de junho no Brasil desmentem essa análise.

Enfim, vamos ao texto (iniciado em 22 de junho):

As ruas foram tomadas nesse últimos dias. Foi o preço da passagem, a centelha que faltava. Havia um sentimento, adormecido de que era preciso sair às ruas para dizer o que pensamos. E lá se foi a população brasileira, ou parte dela, para as ruas.

Ao contrário do que vive a Europa, com sua crise econômica, ou os países do mundo árabe, com suas ditaduras, a América Latina vive um período de expansão econômica. O que não justificaria uma luta por direitos. Não igual àquela luta dos excluídos do maravilhoso mundo do consumo. Não. Aqui, mais e mais pessoas foram incluídas nesse mundo. Então, por que foram às ruas protestar? Como fizeram isso, e como fizeram tão rápido?

A luta, que começa com manifestações por conta do aumento da passagem em SP, rapidamente começou a ser disputada por várias correntes, linhas e organizações de todo o espectro político nacional. Ganhou as manchetes e alguns bons minutos na TV aberta  e pronto. Virou um movimento, em parte, apoiado pela velha mídia. Ela via nisso uma oportunidade de desgaste (ou até mais) do governo.

Em 1968 as pessoas resolveram sonhar que era possível mudar o mundo por fora das rígidas estruturas partidárias da época. Se não mudaram o mundo, nem as estruturas partidárias da época, lançaram sementes que floresceram anos mais tarde. Não mudaram o mundo, mas mudaram tudo.

O PT é um bom exemplo disso. A partir de outras lutas, contra a ditadura, conseguiu-se montar um partido, que pudesse organizar a classe trabalhadora, mas com uma nova forma de organização. O PT era organizado, e foi construído, a partir de núcleos de base. Rompia então com a extrema verticalização dos partido comunistas e trazia para o centro do debate novos temas como a igualdade entre gêneros, racial, respeito a diversidade sexual etc., que já vinham sendo debatidos no período anterior a sua construção.

Assim, agregando novos valores à velhas utopias o partido cresceu. Com tropeços, conquistou parcelas da população que antes não o ouvia. Perdeu outras por não ouvir e não se fazer ouvir. Não havia mais diálogo entre as partes, pois essa relação só é mediada pela velha mídia.

Claro que nosso velho inimigo (o capital, com o seu velho aparato ideológico) não podia deixar barato. Alimentou o ódio entre as partes o quanto pode. Se deu certo por um lado, por outro a velha mídia, principalmente a globo, paga seu preço. Caro, e talvez  fatal.

É fácil perceber, em qualquer lugar, a capacidade da velha mídia em pautar o debate. Debate esse que ela nem sempre ganha, não mais consegue impor as suas opiniões, mas ainda diz sobre o que é preciso ter opinião. É só ver as votações do congresso nacional logo após a onda de manifestações.

Então se não é mais uma disputa entre as velhas organizações de esquerda e a velha mídia pelos corações e mentes da população, qual é a disputa?

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23/08/2013 · 16:32

Multidões em marcha

“Os donos do mundo piraram
Já são carrascos e vítimas
Do próprio mecanismo que criaram”
R. Seixas

protestos em londres

A Europa vive o pesadelo das multidões, com ou sem rumo, em marcha. O medo das elites, que construiram esse mundo desigual em que vivemos nas últimas décadas, se explica pela exclusão dos diferentes. Esses diferentes, excluídos, viraram indignados. São excluídos da maravilhosa vida propagada e construída por uma nova ordem mundial, baseada no consumo, mas só dos poucos incluídos. Aos que não pertencem a esse seleto grupo: ao gueto. Continuar lendo

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Marcha Mundial de Mulheres

Marcha Mundial de MulheresO dia internacional da mulher passou e eu nada escrevi sobre isso nesse espaço.  Não achei, na época, nada que representasse a admiração que eu tenho por essas companheiras que tem nessa árdua luta o seu dia-adia. Fiquei matutando muitas coisas para colocar aqui. Bom, o que é melhor do que elas próprias para falarem da sua luta, das suas posições na sociedade, da sua luta difícil na tentativa de construir um mundo mais igual…

Então entrem em http://www.sof.org.br/acao2010/ e acompanhem o dia-a-dia da belíssima ação que essa companheiras estão fazendo, caminhando de Campinhas a São Paulo. Caminhando, lutando, se formando, informando, fazendo história…

veja também: fotorreportagem do Brasil de Fato.

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De quem é o POVO?

Já faz um tempo que estou pra escrever sobre esse excelente artigo de Luiz Carlos Azenha no seu Blog. Ele fala do artigo do Cesar Benjamin na Folha (essa que todo mundo deve cancelar a assinatura). O papel que cumpre o ex-militante de esquerda é muito mais do que acusar o presidente de estuprador. Lula, como a nova esquerda, que ” no extremo, estupra o idealismo do jovem militante com o seu pragmatismo”, quando dirige os metalurgicos do ABC  se lança como alternativa à esquerda tradicional, como uma alternativa real, viável de um plano de poder popular no país.

Mas Cesar benjamin quer passar a imagem de um Lula pragmático, que não é de esquerda, que serve à direita do País. Mas César se junta a direita naquilo que ele e o Otavio Frias não conseguem engolir: Lula é do povo. Ele fala diretamente com o Povo, sem intermediários. Por fora da grande imprensa ou dos pseudos intelectuais da esquerda tradicional. Ou seja, sem passar pelas marrons páginas da Folha nem pela arrogância dos intelectuais da antiga esquerda travestida de novo.

Aqui cabe o link com algumas outras coisas que tenho lido em outros blogs. Sobre as mudanças que estamos assistindo no complexo político-midiático. Há uma pressão maior da sociedade no momento em que temos mais pessoas emitindo opiniões. Mudança proporcionada pela internet. São blogs, microblogs, redes sociais das mais variadas. aqui e aqui.

Podemos dizer que há de fato uma mudança em curso. Os números estão mudando. A audiência da TV está caíndo. Há muito menos televisões ligadas e muito mais gente conectada na internet. aqui.  O próprio trafego da internet também está mudando. A informação está sendo mais participativa. O trafego das redes sociais crescem ao mesmo tempo que caem a audiência de grandes portais. aqui.

Essa mudança se dá no momento em que a sociedade se organiza para discutir a comunicação do País. A confecon está aí. Talvez seja a possibilidade de responder a pergunta do título do post. Ou de mudá-la para o que o povo quer falar?  aqui um artigo sobre a confecon. Afinal de contas é para o povo que todo mundo quer falar.

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10 anos de Seattle

manifestação em Seattle

Não lembro qual foi o dia exato da extraordinária manifestação que parou a reunião da OMC em Seattle em 1999. Não importa. Já são 10 anos que o mundo vem dizendo que o sistema que vinha sendo gerado a partir das reorganização da ordem mundial do pós-guerra, freada um pouco pela guerra-fria, não serve para a humanidade.

Em 1972, a primeira experiência real, Chile. Golpe militar afastando um governo de esquerda legalmente eleito. Um campo para experimentar o novo conceito. Aquela receita que conhecemos bem: privatização, Estado mínimo, farra financeira etc. A partir daí, essa prática se espalha pelo mundo ocidental, ampliada pelos governos Reagan e Thatcher, na década seguinte. Após a queda do muro de Berlim, que separava o mundo em 2 (talves 3 ou mais, mas não importa agora), caminho livre para as práticas do mercado. O sedutor jogo das apostas financistas estava ganho. A história acabou.

Adentramos a década de 1990 consensuados por Washington. O mundo deveria aprender a remar em uma só direção, com uma só cabeça pensante, mandante. Mas, uma década de crises repetidas, de países quebrando uns atrás dos outros, levou ao testemperos suas populações.

E, no coração do império, vimos a primeira grande manifestação contra as novas formas de poder, os organismos multilaterais, capachos do consenso, que impuseram o seu modelo à custa de muitas vidas. Seattle não foi o primeiro grito daqueles que sofriam na pele as intempéries do sistema. Os Zapatistas, no méxico, já havia gritado ao mundo, através da internet. Os Sem-Terras, no Brasil, atráves de suas marchas, suas ocupações. Eram os excluídos de um sistema acostumado às gritaria das bolsas de valores, em prédios fechados, acarpetados, com ar-condicionado.

De lá pra cá muita coisa mudou. A partir das seguidas manifestações foi possível construir espaços mais privilegiados de articulações políticas como o Fórum Social Mundial e suas consequentes manifestações, até 2003 contra a guerra do Iraque, a maior manifestação já organizada que se tem notícia.

Certamente esse processo contribuiu em muito para o momento que vivemos. A luta organizada foi importante para a institucionalização da resistencia que culmina nos governos de esquerda eleitos na América Latina e a melhora de vida de suas populações, comprovadas pela popularidade de seus dirigentes.

É, como disse Emir Sader, “Podemos dizer que o novo cenário latinoamericano é herdeiro das lutas de resistência da década de 1990 e, em particular, das espetaculares manifestações de Seattle, que marcaram o fim da lua-de-mel neoliberal e o começo da construção do “outro mundo possível”, do pós neoliberalismo latinoamericano.”

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