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O tamanho do desafio

Sou de uma família de militantes políticos. Há gerações, lutamos contra a injustiça no mundo. Dos dois lados da minha árvore genealógica há exemplos de pessoas que deram a vida para construir um mundo melhor, não só aqui no Brasil, mas lutando contra o nazismo/fascismo na Europa, por exemplo.

Eu nasci no final da ditadura militar e sou um pouco mais velho do que o partido que viria a ser o principal instrumento de mudança social das últimas décadas no país: o PT. Se olharmos só o PT de hoje, envelhecido pela luta, pelas disputas, pela falta de projeto político das esquerdas no mundo todo, talvez não tenhamos noção do tamanho histórico que essa defeituosa ferramenta da classe trabalhadora tem de verdade.

Porém, um olhar mais longe pode nos dar a noção do seu tamanho, assim como de seus feitos.

Vivemos num mundo de profundas desigualdades. Nunca a desigualdade foi tamanha. Dados apontam para o fato de que 1% da população mundial tem nada menos do que a mesma riqueza de toda a metade mais pobre. E a tendência global é que esses dados piorem.

Vivemos num mundo que exclui o diferente, que pratica limpeza étnica, que não aceita que você acredite em outra coisa que não no SEU Deus.

Vivemos num mundo que destrói seu próprio ambiente para dar vazão aos anseios de vontades que são construídas pelos próprios produtores dos objetos de desejo dos consumidores.

Vivemos num mundo em que é mais importante parecer que se tem alguma coisa do que realmente ter.

E foi nesse mundo, caduco, após o fim de uma alternativa, que no fim não trouxe alternativa na forma de viver, que foi criada e cresceu essa experiência brasileira. Ela foi criada exatamente na crítica a essa alternativa global que não alterou o essencial, mas que, pelo menos, trouxe uma perspectiva menos comercial para a vida daqueles que viviam sob seu arco. Porém esse rumo acabou. O muro caiu. E o outro lado tomou conta da nossa direção nos fazendo ser cada vez mais mercadorias a ser comercializadas para que os donos do mundo tenham cada vez mais as custas de muitas almas.

Não se podia esperar que nascesse da falta de rumo, um prumo para o país e para o mundo. Nesse contexto, só foi possível a arrumadinha , o jeitinho no sistema imperfeito e capenga que foi a síntese possível após a noite longa, que é a democracia brasileira.

Esse jeitinho, esse aceitar de coisas inaceitáveis, esse ceder de coisas que não deveria,  esse jeito de adiar coisas importantes, no entanto, foi suficiente para mudar milhões de vidas. Poderíamos até mesmo dizer que essas vidas foram criadas, pois, em muitos caso eram só organismos sem nenhuma noção de que viviam numa sociedade complexa como a do mundo do séc XXI. Não tinham luz, não tinham água e nenhum assistência de um Estado, que só conheciam pela força bruta que os expulsava de qualquer noção de cidadania.

Para outra parcela, o jeitinho, trouxe uma melhora significativa na sofrida luta do dia-a-dia, materializada no aumento do salário mínimo, da distribuição de moradias dignas, do emprego formal.

Todas essas mudanças foram possíveis através de ações governamentais, condicionadas ao acordo de governabilidade com aqueles que não mais toleram que se mexa na estrutura do país em nome de um desenvolvimento. Para as forças conservadoras nacionais é melhor viver num país periférico, extrativista, excludente, com heranças escravocratas do que pode fazer parte dos países chamados desenvolvidos, onde os elementos dessas forças teriam que dividir a mesa com pessoas de segunda classe.

Por pior que tenha sido a postura do partido nesse momento histórico, não apagam o enorme êxito de ter tirado milhões da miséria, acabado com a fome. O governo e o partido foram se juntando ao inimigos na crença de que era possível promover as tão urgentes mudanças na estrutura socioeconômica brasileira sem conflito, ao contrário do que se pregou durante tanto tempo no século passado. Não deu. O conflito veio do lado de lá, que não mais aceitou que não se tenha mais margem para manobrar vidas em busca do lucro, o conforto e o luxo fácil.

Cresci ouvindo histórias da ditadura. Entre cômicas e trágicas, essas histórias são parte da minha formação humana. Me ajudaram a enxergar mais do que os olhos dos telejornais nos mostram. Hoje, então, eu posso dizer: nossos pais não lutaram em vão para construir essa frágil democracia. Não lutaram para construir esperança para agora, os mesmo de sempre, mancomunados com as forças internacionais de sempre, pisarem em nossos canteiros.

Bem vindos à luta de classes e vai ter luta.

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Arquivado em golpismo, PT

A História que estamos construindo

lapaA eleição nos mostrou que o PT não só cabe nas ruas, mas é de lá que ele vem. Somos frutos dos nosso passos, da nossas decisões e da nossa história. Nossa história é a história daqueles que lutam por uma vida melhor. Sempre foi, por mais tortos que sejam os nossos caminhos.

Nesse segundo turno a esquerda se uniu em torno da eleição da Dilma. São muito bem vindas(os) as(os) companheiras(os) de todas as organizações de esquerda, que fizeram ainda mais bonita a nossa vitória. Vieram também para trazer a rua de volta ao seio do Partido dos Trabalhadores. Estava em falta o suor, a risada, a bandeira hasteada. O vermelho.

Essa junção, essa energia, agora não pode ser desperdiçada. Esse período serviu para definir bem de que lado estão certas figuras da política nacional.

Agora, mais do que brigarmos entre nós mesmos, como sempre fizemos, é preciso mostrar a maturidade que soubemos exercer enfrentando os barões da mídia, as falcatruas, o jogo sujo. Não quer dizer que não jogamos o jogo também. Jogamos sabendo das regras, mas agora é preciso mudá-las.

Não é mais possível continuar impondo a mudança, caótica, desorganizada, mas mudança concreta na vida de milhões de pessoas, com essas regras, com esses aliados. É preciso novas regras para um novo jogo a ser jogado a partir da agora. É preciso saber quem está ao nosso lado.

O período promete.

E para enfrentar a promessa do próximo período, é preciso que nossos instrumentos, nossas armas estejam a postos. Nossos partidos não podem ser os mesmos partidos de ontem. Nossas palavras já não são as mesmas e precisam ser mais altas, mais claras e mais distantes.

Nossas vidas não cabem mais no senso comum. É preciso reinterpretá-las à luz dos novos atores, dos novos ares. Só nós podemos ser escritores de nossa própria história. Façamo-la juntos dos que sonham, dos que fazem arte, dos que desejam uma vida fora das amarras do mercado, que aprisiona mentes.

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A nossa história

Ato Dilma RioEstamos fazendo história. Melhor, estamos fazendo a história. Estamos construindo uma alternativa, mambembe, caótica, desorganizada, sem saber muito bem onde quer chegar, mas uma alternativa.

Enquanto outras histórias são feitas, costuradas nesse tecido, fomos capazes, talvez sem aquela ousadia que tanto sonhamos, sem o encantamento que queríamos, mas fomos capazes de fazer diferente. De encarar o monstro de frente e tentar fazer um país diferente dos demais.

Ousamos incluir pessoas que não existiam, num mundo que cada vez mais exclui pessoas das necessidades básicas. Ousamos tirar o país do mapa da fome, dar comida a quem sequer tinha condições de ficar de pé.

Ousamos dar educação, não aquela que sonhamos que poderíamos dar, a pessoas que não teriam nunca educação nenhuma. Ousamos permitir que o filho do pedreiro possa ser doutor.

Ousamos dizer que as riquezas dessa terra, desse mar, debaixo desse mar, são nossas. Ousamos dizer não aos poderosos de sempre, mesmo que alguns deles posem ao nosso lado nas fotografias. Sabemos que os rumos dos nossos sonhos estão em nossas mãos, embora muitas pedras hajam no caminho.

Ousamos sonhar com uma campanha militante, na rua, junto ao povo. Ousamos colocar no cargo mais alto da nação uma mulher. Uma mulher que, se não encarna os trejeitos dos grandes líderes, soube aos poucos se impor. Aprendeu a passar a simpatia, mesmo dura, séria.

Ousamos construir uma alternativa. E estamos construindo. Independentemente do resultado de logo mais, algumas coisas já ganhamos. O chão da rua, tão afastados de nós, é de novo nosso companheiro. As ruas foram pintadas de vermelho, na esperança de continuarmos avançando no nosso sonho de uma vida mais igual, plural, colorida e alegre. Avante, companheiros.

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O mal-estar com o voto universal

O texto de Maria Cristina Fernandes | VALOR que acabo de ler no Blog do Frave é uma das melhores análises às reações desmeditas que vimos pós eleições. A falsa ideia de que a Dilma só ganha as eleições com o voto do Nordeste se espalhou ao vento pelo twitter. Maria Cristina desvenda essa ideia e coloca boas questões para pensarmos. Não apenas nós, do campo petista, mas para a própria oposição.

Vale a leitura.

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Agora é a hora

A principal lembrança que eu tenho da eleição de 1989, logo depois do segundo turno é da desilusão do meu pai. Sentado na varanda afogando, num copo de whisky, o que tinha sobrado de esperança de uma vida de luta depositada na eleição de um metalúrgico retirante no final da década de 1980. Meus pais, como meus tios e parte considerável da minha família, passou boa parte das suas vidas lutando por um país mais justo.

Fico imaginando o que passava na cabeça deles naquele momento. “Será que nunca vamos poder ver essa tal revolução pela qual tanto lutamos?” Pois, após alguns anos de desilusão do neoliberalismo adentrando corações e mentes mundo afora, podemos enfim eleger nosso metalúrgico, no início do século XXI. Não mais portador das teses das revoluções do Sec. XX, mas dono da grande esperança de tempos melhores.

Após a eleição do Lula, o PT passou por mudanças, aprendeu a controlar a máquina estatal, conseguiu, através dela, reformas na economia e no estado que tiraram da miséria milhões de pessoas. Fico imaginando o que passaria na cabeça deles agora. Não mais com a mesma carga ideológica, mas com algumas mudanças significativas no capitalismo brasileiro, fomos capazes de tirar milhões da miséria. De fazer o país mais desigual do mundo um pouco menos desigual. Enfim, o torneiro mecânico foi, com certeza, o melhor presidente que o Brasil já teve. Com certeza meu pai estaria feliz com o governo Lula.

Agora é a hora de fazer a primeira mulher presidente da república. Agora é a hora dessa mulher ser uma mulher de esquerda. Do principal partido de esquerda do Brasil e quiçá, do mundo. A hora de fazer o Brasil entender qual é o seu caminho.

Agora é a hora de dizer que não queremos o retrocesso do governo passado. Queremos continuar avançando na construção de uma sociedade menos desigual, com oportunidade para todos. Que no fim é o que nós sempre desejamos para esse país cheio de possibilidades.

A vitória de Dilma é muito mais do que um joguinho de poder. É a possibilidade concreta do jogo democrático ser decidido por questões politicas. Por que ela é o melhor quadro para ser presidente? Porque foi ela que reorganizou o governo. Ela é a responsável pelas principais ações do governo Lula a partir de 2005. As políticas que melhores deram resultados, mudaram a vida de milhões de pessoas. Simples assim.

A hora é essa.

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Nesse domingo somos todos mulheres

Mulheres com DilmaNesse domingo somos todos mulheres, somos todo mulher. Nós, homens, que pouco ou quase nada entendemos do universo feminino, somos mulheres nesse domingo para eleger a primeira mulher presidenta desse país.

Somos mulheres cansadas de ver nossos corpos expostos, discutidos, interferidos, feridos. Somos mulheres contra a grosseria dos brutos, daqueles que não entendem que precisamos ter uma alma cada vez mais feminina para mudar o mundo. Somos mulheres, com instinto maternal de criar e educar crianças que serão o país amanhã.

Somos mulheres pois somos sensíveis, mas não somos frágeis. Somos mulheres pois temos que ser mais do que sempre somos na vida. Somos profissionais, mães, mulheres. Sempre melhores que nós mesmas, sem poder querer ser melhor.

* dedicado a Marisa, que me ensina todo dia um pouco do Universo feminino.

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Contra a brutalidade, poesia

Copio* o sempre excelente blog da Maria Fro, que por sua vez copiou do também excelente RS Urgente, para dar a devida resposta feminina a toda a grosseira do Mr. Burns.

Quando os brutos vão dar o braço a torcer e deixar nosso jardim florescer?

* no nosso mundo dos blogs progressistas, ao qual me inclui sem ser chamado, rsrs, a informação é livre e deve ser tratada assim. Os créditos dela, mais do que tudo é uma questão de educação, respeito e solidariedade com o trabalho alheio.

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