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Adeus, Democracia

IMG_8037Eu era pequeno quando vc chegou no país. Lembro de acompanhar, via rádio, no nosso antigo carro, a caminho da natação ou das aulinhas de futebol, o noticiário sobre os trâmites da diretas. Isso era muito importante para você chegar. Lembro também de meus pais batendo panelas na janela. Naquela época se batia panela por você, não contra. Lembro de camisetas da Mafalda e lembro também de um passeio na Candelária, onde do alto de um dos edifícios pudemos ver se aglomerarem na rua milhões de pessoas que queria ser donas de seus futuros. O país queria muito você por perto. E até quem não queria muito não podia mostrar que não queria.
Cresci convivendo bem com você. Aprendi a te admirar muito. E hoje te considero fundamental para que o mundo não acabe se destruindo, embora ainda ache que a cada dia caminhamos um passo nessa direção. Tivemos muitos bons momentos juntos. Principalmente quando aprendemos alguns segredos que você escondia, e ainda esconde, da maioria das pessoas, como a forma que você funciona em coletivos pequenos, em espaços mais reservados. Como você se faz importante em cada momento da vida e as formas de você se apresentar. Como a relação com você pode ser proveitosa para o crescimento de um país.
Foi na rua que tivemos nossa relação mais íntima. E foi assim, no meio de muita gente, como estamos vendo agora nas ruas do país. Mas não foi só na rua que tivemos intimidade. Pois você é onipresente, ou deveria ser. Pude viver cada momento junto ao seu lado de forma intensa. Essa convivência foi muito importante para o que eu sou hoje.
Por sua conta, podemos ver chegar ao cargo mais alto do país, um operário que saiu da extrema pobreza do sertão nordestino para o centro do capital brasileiro para ser um operário. A sua construção também se misturou muito com a construção do partido que esse cara ajudou a criar.
Demorou, mas, depois de algumas tentativas, esse cara conseguiu chegar ao governo, junto com o partido que ele ajudou a criar para começar a de fato fazer valer o seu nome. Afinal, de que adianta estarmos ao seu lado se não for para ser pleno. E só a plenitude da sua companhia pode fazer com que realmente vivamos num mundo melhor. Só o acesso aos elementos básicos da vida pode ser digno de carregar seu nome.
Com você, conseguimos acabar com a fome, tiramos milhões da miséria e incluímos outros tantos milhões no mercado de consumo. Tá bom, poderíamos sonhar com outro tipo de inclusão, que eu até acho que seria melhor, poderia ser mais duradoura e humana, mas não podemos desprezar esse feito. Principalmente num mundo que a cada dia exclui dos elementos mais básicos da vida um contingente incontável de vidas.
Também conseguimos melhorar a vida de muita gente que precisava muito: o ingresso no ensino superior para uma parcela da população que estava fora desse sistema, o respeito às minorias, ao pessoal GLBT, às mulheres, às negras e negros, são alguns exemplos.
Claro que se nossa convivência fosse ainda mais intensa, acredito que poderíamos ter feito mais. Isso, claro, não tira a beleza dos momentos em que convivemos e aprendemos com você.
Agora, nesse triste momento em que você parece se afastar de nós, não só sentiremos a sua falta, como estaremos aqui a lutar pela sua pronta recuperação para voltarmos a caminharmos lado a lado. Sua falta pode nos levar também a Esperança. Sem ela será muito difícil viver nos tempos que se apontam para as nossas vidas.
Espero, sinceramente, que esse adeus se converta rapidamente num até logo.

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