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Não soubemos ver você

Galeano – imagem “roubartilhada” do Facebook da Secretaria Geral da Presidência da República

No ano de 2009, no atrio do convento de Mani de Iucatã, quarenta e dois frades fransciscanos cumpriram uma cerimônia de desagravo à cultura indígena:

Pedimos perdão ao povo maia, por não haver entendido sua cosmovisão, sua religião, por negar suas divindades; por não ter respeitado sua cultura, por haver imposto durante muitos séculos uma religião que não entendiam, por haver satanizado suas práticas religiosas, e por haver dito e escrito que eram obra do Demônio e que seus ídolos eram o próprio Satanás materializado.

Quatro séculos e meio antes, naquele mesmo lugar, outro frade fransciscano, Diego de Landa, havia queimado os livros maias, que guardavam oito séculos de memória coletiva.

Eduardo Galeano, Os Filhos dos dias, p 127 (dia 13 de abril)

E nesse dia, em 2015, se foi Galeano. Se foi sua figura, sua pessoa. Sua obra fica. Fica como memória coletiva, artisticamente gravada na história da nossa tão amada América Latina. Fica como lição de que o certo, de que a luta, de que a vida pode ser doce como seus textos, mesmo que dura e amarga, como é a luta e vida em certos momentos.

Fica a obra daquele que trouxe o respeito, a reparação, a beleza da criança que brinca, da poesia em forma de vida. Trouxe o sonho, em forma de prosa, e trouxe a sensibilidade à visão do mundo. Galeano ousou sonhar um mundo diferente, coletivamente, expresso em um texto na biblioteca de alternativas do Fórum Social Mundial. Aquele que é a memória coletiva das lutas do século que, ainda, se inicia.

Reproduzo, então, o texto que colocou em contato mais próximo desse autor que tanto apreciamos e que tanto nos apreciou.

Sim, soubemos ver você, Galeano, assim como soubestes ver a beleza da vida nos dias cinzas em que vivemos.

Um convite ao vôo

Que tal começarmos a exercer o jamais proclamado direito de sonhar?

Que tal delirarmos um pouquinho? Vamos fixar o olhar num ponto além da infâmia para adivinhar outro mundo possível

Eduardo Galeano*

Milênio vai, milênio vem, a ocasião é propícia para que os oradores de inflamado verbo discursem sobre os destinos da humanidade e para que os porta-vozes da ira de Deus anunciem o fim do mundo e o aniquilamento geral, enquanto o tempo, de boca fechada, continua sua caminhada ao longo da eternidade e do mistério.

Verdade seja dita, não há quem resista: numa data assim, por mais arbitrária que seja, qualquer um sente a tentação de perguntar-se como será o tempo que será. E vá-se lá saber como será. Temos uma única certeza: no século vinte e um, se ainda estivermos aqui, todos nós seremos gente do século passado e, pior ainda, do milênio passado.

Embora não possamos adivinhar o tempo que será, temos, sim, o direito de imaginar o que queremos que seja. Em 1948 e em 1976, as Nações Unidas proclamaram extensas listas de direitos humanos, mas a imensa maioria da humanidade só tem o direito de ver, ouvir e calar. Que tal começarmos a exercer o jamais proclamado direito de sonhar? Que tal delirarmos um pouquinho? Vamos fixar o olhar num ponto além da infâmia para adivinhar outro mundo possível:

o ar estará livre do veneno que não vier dos medos humanos e das humanas paixões;

nas ruas, os automóveis serão esmagados pelos cães;

as pessoas não serão dirigidas pelos automóveis, nem programadas pelo computador, nem compradas pelo supermercado e nem olhadas pelo televisor;

o televisor deixará de ser o membro mais importante da família e será tratado como o ferro de passar e a máquina de lavar roupa;

as pessoas trabalharão para viver, ao invés de viver para trabalhar;

será incorporado aos códigos penais o delito da estupidez, cometido por aqueles que vivem para ter e para ganhar, ao invés de viver apenas por viver, como canta o pássaro sem saber que canta e brinca a criança sem saber que brinca;

em nenhum país serão presos os jovens que se negarem a prestar o serviço militar, mas irão para a cadeia os que desejarem prestá-lo;

os economistas não chamarão nível de vida ao nível de consumo, nem chamarão qualidade de vida à qualidade de coisas;

os cozinheiros não acreditarão que as lagostas gostam de ser fervidas vivas;

os historiadores não acreditarão que os países gostam de ser invadidos;

os políticos não acreditarão que os pobres gostam de comer promessas;

ninguém acreditará que a solenidade é uma virtude e ninguém levará a sério aquele que não for capaz de deixar de ser sério;

a morte e o dinheiro perderão seus mágicos poderes e nem por falecimento nem por fortuna o canalha será formado em virtuoso cavaleiro;

ninguém será considerado herói ou pascácio por fazer o que acha justo em lugar de fazer o que mais lhe convém;

o mundo já não estará em guerra contra os pobres, mas contra a pobreza, e a indústria militar não terá outro remédio senão declarar-se em falência;

a comida não será uma mercadoria e nem a comunicação um negócio, porque a comida e a comunicação são direitos humanos;

ninguém morrerá de fome, porque ninguém morrerá de indigestão;

os meninos de rua não serão tratados como lixo, porque não haverá meninos de rua;

os meninos ricos não serão tratados como se fossem dinheiro, porque não haverá meninos ricos;

a educação não será um privilégio de quem possa pagá-la;

a polícia não será o terror de quem não possa comprá-la;

a justiça e a liberdade, irmãs siamesas condenadas a viver separadas, tornarão a se unir, bem juntinhas, ombro contra ombro;

uma mulher, negra, será presidente do Brasil, e outra mulher, negra, será presidente dos Estados Unidos da América; e uma mulher índia governará a Guatemala e outra o Peru;

na Argentina, as loucas da Praça de Maio serão um exemplo de saúde mental, porque se negaram a esquecer nos tempos da amnésia obrigatória;

a Santa Madre Igreja corrigirá os erros das tábuas de Moisés e o sexto mandamento ordenará que se festeje o corpo;

a Igreja também ditará outro mandamento, do qual Deus se esqueceu: “Amarás a natureza, da qual fazes parte” .

serão reflorestados os desertos do mundo e os desertos da alma;

os desesperados serão esperados e os perdidos serão encontrados, porque eles são os que se desesperam de tanto esperar e os que se perderam de tanto procurar;

seremos compatriotas e contemporâneos de todos os que tenham aspiração de justiça e aspiração de beleza, tenham nascido onde tenham nascido e tenham vivido quando tenham vivido, sem que importem nem um pouco as fronteiras do mapa ou do tempo;

a perfeição continuará sendo um aborrecido privilégio dos deuses; mas neste mundo confuso e fastidioso, cada noite será vivida como se fosse a última e cada dia como se fosse o primeiro.

* Eduardo Galeano é jornalista e escritor, entre outros, de O Século do Vento, As Caras e as Máscaras, Os Nascimentos, O Futebol ao sol e à sombra, O Livro dos Abraços, Dias e noites de amor e de guerra e As Veias abertas da América Latina.

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Arquivado em Cotidiano, poesia, Política internacional

A nova política é diferente

É impressionante que, em pleno século XXI, a gente ainda faça uma discussão política pré-eleitoral baseada em slogans e palavras de ordem vazias. A eleição parece uma competição para quem lança a palavra de ordem mais original, quem passa a imagem de ser melhor preparado e jogar melhor o jogo da marquetagem.

É impressionante também o tamanho da discussão em torno da religião. Gente, essa coisa de divisão da igreja e do Estado é antiga pacas, para usar uma expressão quase tão antiga.

Sei que há muito de emocional no voto, mas, dada a conjuntura internacional, não podemos mais nos dar esse direito. Digo isso, porque vivemos um período de extrema concentração de recursos no mundo todo. Não sou eu quem diz isso, é a ONU, aqui. Então num mundo que acabou (será?) de viver sob a hegemonia dos EUA a partir do que ficou conhecido por Consenso de Washington, parece, agora, apresentar alguma mudança a partir do início do século.

Por isso podemos afirmar que o que há de mais novo no cenário internacional não é o capitalismo verde, nem a terceira via européia, nem o movimento antiglobalização, ou a sua versão mais moderna, ou as primaveras, os Black blocs, os coletivos anarquistas etc. onde o indivíduo toma uma espaço gigante na construção de narrativas.

O que tem de mais novo na conjuntura internacional, e que é capaz de atormentar o centro do poder mundial é o que vemos hoje na América Latina, principalmente no Brasil. Não pensem que fazer o que se tem feito nessa região é fácil. Vai na contramão do status quo e mira a principal mazela do mundo globalizado: a exclusão de milhões de pessoas da vida quotidiana, desde a produção até o consumo, não só de supérfluos, mas do essencial à vida. Essa exclusão é necessária ao sistema para que se garanta os ganhos de quem manda.

Por mais que pareça pouco, eu realmente não quero retroceder nessas conquistas e muito me preocupa o próximo período.

Quero encarar o difícil desafio da mudança, com seus atropelos e avanços.  Não dá para ficar somente afirmando e reafirmando belas posições e belas palavras de ordem. Os desafios do nosso tempo são gigantes, assim como sempre foi a luta dos trabalhadores contra a exploração. Quero tê-los em meu horizonte e, principalmente, tê-los no milhões de quilômetros já percorridos dessa luta.

 

PS: o Azenha, com muito mais competência traça o panorama internacional e o papel da América do Sul nele a que me refiro, aqui

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Arquivado em Eleição, Política internacional

Em tempo – nova edição no ar

Democracia Socialista

Democracia Socialista

Acesse o conteúdo da 24ª edição do jornal Democracia Socialista/Em Tempo!
25/11/2009. Você já pode acessar os textos da 24ª edição do jornal Democracia Socialista/Em Tempo! Em breve, a versão para impressão será disponibilizada neste sítio. A impressão e circulação do jornal é de responsabilidade das coordenações estaduais da DS.Nosso jornal está em fase experimental, por isso, comentários, opiniões e sugestões são muito bem-vindos. Boa leitura!

Editorial
Notas
Memórias da Liberdade
Às vésperas do PED
Luizianne presidirá o PT no Ceará
Sintomas de um período pós-neoliberal
O Uruguai volta às urnas
A ecologia do desenvolvimento

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Arquivado em Democracia Socialista, Ecologia, politica Nacional

10 anos de Seattle

manifestação em Seattle

Não lembro qual foi o dia exato da extraordinária manifestação que parou a reunião da OMC em Seattle em 1999. Não importa. Já são 10 anos que o mundo vem dizendo que o sistema que vinha sendo gerado a partir das reorganização da ordem mundial do pós-guerra, freada um pouco pela guerra-fria, não serve para a humanidade.

Em 1972, a primeira experiência real, Chile. Golpe militar afastando um governo de esquerda legalmente eleito. Um campo para experimentar o novo conceito. Aquela receita que conhecemos bem: privatização, Estado mínimo, farra financeira etc. A partir daí, essa prática se espalha pelo mundo ocidental, ampliada pelos governos Reagan e Thatcher, na década seguinte. Após a queda do muro de Berlim, que separava o mundo em 2 (talves 3 ou mais, mas não importa agora), caminho livre para as práticas do mercado. O sedutor jogo das apostas financistas estava ganho. A história acabou.

Adentramos a década de 1990 consensuados por Washington. O mundo deveria aprender a remar em uma só direção, com uma só cabeça pensante, mandante. Mas, uma década de crises repetidas, de países quebrando uns atrás dos outros, levou ao testemperos suas populações.

E, no coração do império, vimos a primeira grande manifestação contra as novas formas de poder, os organismos multilaterais, capachos do consenso, que impuseram o seu modelo à custa de muitas vidas. Seattle não foi o primeiro grito daqueles que sofriam na pele as intempéries do sistema. Os Zapatistas, no méxico, já havia gritado ao mundo, através da internet. Os Sem-Terras, no Brasil, atráves de suas marchas, suas ocupações. Eram os excluídos de um sistema acostumado às gritaria das bolsas de valores, em prédios fechados, acarpetados, com ar-condicionado.

De lá pra cá muita coisa mudou. A partir das seguidas manifestações foi possível construir espaços mais privilegiados de articulações políticas como o Fórum Social Mundial e suas consequentes manifestações, até 2003 contra a guerra do Iraque, a maior manifestação já organizada que se tem notícia.

Certamente esse processo contribuiu em muito para o momento que vivemos. A luta organizada foi importante para a institucionalização da resistencia que culmina nos governos de esquerda eleitos na América Latina e a melhora de vida de suas populações, comprovadas pela popularidade de seus dirigentes.

É, como disse Emir Sader, “Podemos dizer que o novo cenário latinoamericano é herdeiro das lutas de resistência da década de 1990 e, em particular, das espetaculares manifestações de Seattle, que marcaram o fim da lua-de-mel neoliberal e o começo da construção do “outro mundo possível”, do pós neoliberalismo latinoamericano.”

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