Nise, o coração da esperança

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O filme Nise, o coração da loucura traz a humanidade de volta para o debate, por ser exatamente essa a luta de figura tão importante para o país. Essa personagem fantástica da nossa história já merecia uma homenagem assim, principalmente por levar a humanidade para onde mais se precisava dela. Num lugar onde os pacientes não eram mais considerados humanos, ela trouxe carinho. Tratou-os com afeto e descobriu dentro de cada uma e cada um, não o artista que todas e todos trazemos dentro do nosso “engenho de dentro”, mas as pessoas, as almas que ainda estavam escondidas dentro daqueles corpos abandonados naquele depósito orgânico.
Encarou o poder constituído naquele espaço, enfrentou paradigmas e preconceitos enraizados naqueles médicos, para quem a cura significa o adestramento, o enquadramento a uma sociedade que oprime e não liberta. Nise trouxe a liberdade.
O momento em que o filme ilumina as telas, contando essa bela história, talvez seja o momento em que estejamos mais precisando de humanidade. E isso veio, não por acaso, justamente de uma mulher, que mostrou toda a sua força para combater os piores poderes dentro daquela instituição, comandadas por homens brancos. Nise trouxe toda a compreensão de que a vida é muito mais do que resultado. Em certo momento, acredito que da história dela, real, e não só do filme, ela discute com um dos diretores do hospital em relação à cura dos pacientes. Ela, nesse momento, se coloca como capaz de resgatar a vida daqueles corpos que haviam sido abandonados pela medicina, que buscava apenas anulá-los, para que não atrapalhassem a vida dos outros. Ela os trouxe de volta.
E como ver esse filme e não lembrar das pessoas que mantém esse sonho vivo? Do belo trabalho do museu do inconsciente que dá continuidade ao sonho de Nise. Pelo pouco que convivi com esse trabalho, posso dizer que seu sonho está muito vivo naquele espaço.
A arte é também expressão do inconsciente, ou daquilo que também se chama alma. O mundo precisa de novas Nises.
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Adeus, Democracia

IMG_8037Eu era pequeno quando vc chegou no país. Lembro de acompanhar, via rádio, no nosso antigo carro, a caminho da natação ou das aulinhas de futebol, o noticiário sobre os trâmites da diretas. Isso era muito importante para você chegar. Lembro também de meus pais batendo panelas na janela. Naquela época se batia panela por você, não contra. Lembro de camisetas da Mafalda e lembro também de um passeio na Candelária, onde do alto de um dos edifícios pudemos ver se aglomerarem na rua milhões de pessoas que queria ser donas de seus futuros. O país queria muito você por perto. E até quem não queria muito não podia mostrar que não queria.
Cresci convivendo bem com você. Aprendi a te admirar muito. E hoje te considero fundamental para que o mundo não acabe se destruindo, embora ainda ache que a cada dia caminhamos um passo nessa direção. Tivemos muitos bons momentos juntos. Principalmente quando aprendemos alguns segredos que você escondia, e ainda esconde, da maioria das pessoas, como a forma que você funciona em coletivos pequenos, em espaços mais reservados. Como você se faz importante em cada momento da vida e as formas de você se apresentar. Como a relação com você pode ser proveitosa para o crescimento de um país.
Foi na rua que tivemos nossa relação mais íntima. E foi assim, no meio de muita gente, como estamos vendo agora nas ruas do país. Mas não foi só na rua que tivemos intimidade. Pois você é onipresente, ou deveria ser. Pude viver cada momento junto ao seu lado de forma intensa. Essa convivência foi muito importante para o que eu sou hoje.
Por sua conta, podemos ver chegar ao cargo mais alto do país, um operário que saiu da extrema pobreza do sertão nordestino para o centro do capital brasileiro para ser um operário. A sua construção também se misturou muito com a construção do partido que esse cara ajudou a criar.
Demorou, mas, depois de algumas tentativas, esse cara conseguiu chegar ao governo, junto com o partido que ele ajudou a criar para começar a de fato fazer valer o seu nome. Afinal, de que adianta estarmos ao seu lado se não for para ser pleno. E só a plenitude da sua companhia pode fazer com que realmente vivamos num mundo melhor. Só o acesso aos elementos básicos da vida pode ser digno de carregar seu nome.
Com você, conseguimos acabar com a fome, tiramos milhões da miséria e incluímos outros tantos milhões no mercado de consumo. Tá bom, poderíamos sonhar com outro tipo de inclusão, que eu até acho que seria melhor, poderia ser mais duradoura e humana, mas não podemos desprezar esse feito. Principalmente num mundo que a cada dia exclui dos elementos mais básicos da vida um contingente incontável de vidas.
Também conseguimos melhorar a vida de muita gente que precisava muito: o ingresso no ensino superior para uma parcela da população que estava fora desse sistema, o respeito às minorias, ao pessoal GLBT, às mulheres, às negras e negros, são alguns exemplos.
Claro que se nossa convivência fosse ainda mais intensa, acredito que poderíamos ter feito mais. Isso, claro, não tira a beleza dos momentos em que convivemos e aprendemos com você.
Agora, nesse triste momento em que você parece se afastar de nós, não só sentiremos a sua falta, como estaremos aqui a lutar pela sua pronta recuperação para voltarmos a caminharmos lado a lado. Sua falta pode nos levar também a Esperança. Sem ela será muito difícil viver nos tempos que se apontam para as nossas vidas.
Espero, sinceramente, que esse adeus se converta rapidamente num até logo.

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O tamanho do desafio

Sou de uma família de militantes políticos. Há gerações, lutamos contra a injustiça no mundo. Dos dois lados da minha árvore genealógica há exemplos de pessoas que deram a vida para construir um mundo melhor, não só aqui no Brasil, mas lutando contra o nazismo/fascismo na Europa, por exemplo.

Eu nasci no final da ditadura militar e sou um pouco mais velho do que o partido que viria a ser o principal instrumento de mudança social das últimas décadas no país: o PT. Se olharmos só o PT de hoje, envelhecido pela luta, pelas disputas, pela falta de projeto político das esquerdas no mundo todo, talvez não tenhamos noção do tamanho histórico que essa defeituosa ferramenta da classe trabalhadora tem de verdade.

Porém, um olhar mais longe pode nos dar a noção do seu tamanho, assim como de seus feitos.

Vivemos num mundo de profundas desigualdades. Nunca a desigualdade foi tamanha. Dados apontam para o fato de que 1% da população mundial tem nada menos do que a mesma riqueza de toda a metade mais pobre. E a tendência global é que esses dados piorem.

Vivemos num mundo que exclui o diferente, que pratica limpeza étnica, que não aceita que você acredite em outra coisa que não no SEU Deus.

Vivemos num mundo que destrói seu próprio ambiente para dar vazão aos anseios de vontades que são construídas pelos próprios produtores dos objetos de desejo dos consumidores.

Vivemos num mundo em que é mais importante parecer que se tem alguma coisa do que realmente ter.

E foi nesse mundo, caduco, após o fim de uma alternativa, que no fim não trouxe alternativa na forma de viver, que foi criada e cresceu essa experiência brasileira. Ela foi criada exatamente na crítica a essa alternativa global que não alterou o essencial, mas que, pelo menos, trouxe uma perspectiva menos comercial para a vida daqueles que viviam sob seu arco. Porém esse rumo acabou. O muro caiu. E o outro lado tomou conta da nossa direção nos fazendo ser cada vez mais mercadorias a ser comercializadas para que os donos do mundo tenham cada vez mais as custas de muitas almas.

Não se podia esperar que nascesse da falta de rumo, um prumo para o país e para o mundo. Nesse contexto, só foi possível a arrumadinha , o jeitinho no sistema imperfeito e capenga que foi a síntese possível após a noite longa, que é a democracia brasileira.

Esse jeitinho, esse aceitar de coisas inaceitáveis, esse ceder de coisas que não deveria,  esse jeito de adiar coisas importantes, no entanto, foi suficiente para mudar milhões de vidas. Poderíamos até mesmo dizer que essas vidas foram criadas, pois, em muitos caso eram só organismos sem nenhuma noção de que viviam numa sociedade complexa como a do mundo do séc XXI. Não tinham luz, não tinham água e nenhum assistência de um Estado, que só conheciam pela força bruta que os expulsava de qualquer noção de cidadania.

Para outra parcela, o jeitinho, trouxe uma melhora significativa na sofrida luta do dia-a-dia, materializada no aumento do salário mínimo, da distribuição de moradias dignas, do emprego formal.

Todas essas mudanças foram possíveis através de ações governamentais, condicionadas ao acordo de governabilidade com aqueles que não mais toleram que se mexa na estrutura do país em nome de um desenvolvimento. Para as forças conservadoras nacionais é melhor viver num país periférico, extrativista, excludente, com heranças escravocratas do que pode fazer parte dos países chamados desenvolvidos, onde os elementos dessas forças teriam que dividir a mesa com pessoas de segunda classe.

Por pior que tenha sido a postura do partido nesse momento histórico, não apagam o enorme êxito de ter tirado milhões da miséria, acabado com a fome. O governo e o partido foram se juntando ao inimigos na crença de que era possível promover as tão urgentes mudanças na estrutura socioeconômica brasileira sem conflito, ao contrário do que se pregou durante tanto tempo no século passado. Não deu. O conflito veio do lado de lá, que não mais aceitou que não se tenha mais margem para manobrar vidas em busca do lucro, o conforto e o luxo fácil.

Cresci ouvindo histórias da ditadura. Entre cômicas e trágicas, essas histórias são parte da minha formação humana. Me ajudaram a enxergar mais do que os olhos dos telejornais nos mostram. Hoje, então, eu posso dizer: nossos pais não lutaram em vão para construir essa frágil democracia. Não lutaram para construir esperança para agora, os mesmo de sempre, mancomunados com as forças internacionais de sempre, pisarem em nossos canteiros.

Bem vindos à luta de classes e vai ter luta.

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Vai ter luta

 

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Das formas de se construir a beleza no mundo
Escolhemos a luta
Escolhemos a construção de coletividades
Nossa arte é a rua cheia, multi colorida, multi tudo
Nossa vida é o caminhar eterno da esperança
Caminhamos por onde muito sangue já escorreu
Muitas vidas ficaram, entregues integralmente à luta,
derrubadas nessas pedras
Para que outras vidas pudessem florescer
regadas no nosso sangue, que é vermelho

E nossa indignação é total
Caminhamos em mundo cinza e queremos colori-lo
Vestimos nossas camisas e trazemos nossas bandeiras
E não vamos admitir que os donos de sempre do mundo
venham nos desfazer da esperança
Somos muitos e somos fortes
Não há mais como voltar atrás
Vai ter luta.

Agora, num rastilho de pólvora
que ira explodir um país
somos os que se desfazem dos medos e diferenças
somos irmãos abraçados nas calçadas
chorando nossos mortos e apontando para o céu
onde mais um anjo sobe no lento soluçar das asas de uma borboleta.

Os atores ainda são os mesmos, mas os caminhos são outros
somos os mesmos que derrubaram prédios e tomaram palácios
mas não temos mais palácios a tomar
temos histórias para contar
e a História para construir

O sangue dos nossos antepassados regou a semente
e os de sempre querem pisotear o broto da democracia
não. Não passarão sobre nossas flores.
Caminharemos unidos.

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O fim do Estado de direito

As regras democráticas são resultado de amplas lutas afim de construir protocolos de convivência comum entre interesses e visão de mundo diferentes dentro da sociedade. Sem isso, vale a lei do mais forte. Essas regras são transformadas em lei, não antes de passar pelo jogo de forças e interesses envolvidos nas lutas, no congresso nacional, onde são finalizadas. São, portanto, a síntese possível das disputas em voga na sociedade em determinado período.

Na vida real, no entanto, as leis não são para todos. Para fazer valer os interesses de classe, muitas vezes, passa-se por cima da lei sem que isso traga consequências para quem o faz. O que importa no final das contas é a posição que você ocupa ou ao lado que quem você caminha. No jogo político das grandes estruturas de poder, isso fica claro. Taí o Cunha solto e o Aécio sem nenhum processo de investigação recente, apesar dos dois terem comprovadamente contas em paraísos fiscais europeus.

“As leis não bastam, os lírios não nascem da lei” – Drummond

Quando a disputa política ultrapassa as fronteiras da lei, ou das regras que foram antes estabelecidas, como estamos assistindo nesse caso dos vazamentos dos grampos e delações, a luta passa a ser só da política nua e crua.  Não tem mais estado de direito. Esse  terá que ser reconstruído ao fim dessa batalha, com um novo conjunto de regras combinadas entre as forças que sobreviverem ao processo. A disputa agora é por versões dos fatos, feita por quem tem mais gente envolvida ou atingida por suas ações de comunicação e política. Nesse aspecto a rua é um importante fator a ser considerado, assim como as relações internacionais, capaz de pressionar setores adeptos ao golpe a recuarem.

A direita nunca teve pudor de romper com as leis para alcançar os seus objetivos. Isso é coisa da esquerda. Os meios sempre justificaram os fins.

Acredito que sofreríamos uma ação golpista como essa que estamos sofrendo agora, independente de termos encarado alguns debates que deveríamos ter encarado, como a democratização das comunicações, a ampliação da reforma agrária, as relações de trabalho dos profissionais de saúde e seu financiamento e, principalmente, a quantidade enorme de recursos públicos que vão parar nas mãos de pequenos grupos através do pagamento de juros, lesando assim a possibilidade de melhorar os serviços que o Estado presta.

Tenho acreditado muito no limite da distribuição de renda, feita através do reformismo fraco petista, como causa para a crise. Esse limite, com desemprego baixo e renda do trabalhador em ascensão é o motivo principal da crise que vivemos. Além disso, ainda temos o pré-sal, nas mãos da Petrobras, ferindo assim os interesses dos grandes grupos internacionais. Isso sem falar na articulação internacional do G20 e, principalmente, dos BRICS, desafiando o poder totalitário dos EUA.

Esses são os motivos para o golpe, articulado desde 2005, visando tirar do poder o mínimo de equilíbrio social que o petismo significa, e feito através das “novas” táticas de desestabilização de Estados não alinhados, chamadas de revoluções de veludo ou golpes suaves.

Agora, precisamos pensar a resistência, que não vai passar pelas leis, essas não mais bastam.

Bem vindos à luta de classes.

 

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Golpe suave no Brasil

No livro “Os últimos soldados da Guerra Fria”, Fernando Morais nos conta a história de um grupo de cubanos que vão para Miami se infiltrar na rede de terrorismo construída nos EUA para tentar desestabilizar o regime da Ilha. Esses caras eram, na sua maioria, militares cubanos dispostos a se sacrificarem em busca de respostas e soluções para proteger seu pequeno país, que ousou sonhar e conquistou uma vida diferente dos seus irmãos latinoamericanos. O regime, sem a mãe Rússia protegendo, corria sérios riscos e, sabendo disso, o governo cubano usou da melhor arma que tinha à mão: a inteligência. Com isso, conseguiu criar esquema de contraespionagem que denunciou o esquema terrorista para o mundo conseguindo assim neutralizá-lo.

Não é novidade que existem, hoje, no mundo, forças nãotãoocultasassim que se especializaram em desestabilizar governos mundo a fora. Exemplos de belos textos sobre o assunto temos aos montes. São os chamados golpes de veludo. Existem exemplos deles no leste europeu e, parece, agiram bem durante a chamada primavera árabe. Desconfiamos (porque me incluo naqueles que se negam a acreditar em protagonismo espontâneo de pessoas desorganizadas) que atuaram com as mesmas táticas por aqui durante o famoso “Junho de 2013”. Continuam atuando, na verdade. A notícia de que o próprio Moro foi “treinado” nos EUA, não surpreende. O mesmo vale para o Kim ou para aquela menina bonita da Nicarágua.

O mundo contemporâneo não aceita mais tanques de guerra ou assalto armado aos palácios dos governos. Pelo menos não no ocidente. Os golpes estão mais sofisticados. E mais sofisticada deve ser a resistência. Não podemos mais cair no debate fácil da corrupção, como já disse antes e mais de uma vez. Sabemos que esse é um assunto que tem apelo na população e por isso é constantemente utilizado como pretexto para ações nada republicanas como a que estamos assistindo. É preciso esvaziar esse debate de uma vez.

As ações parecem muito bem orquestradas e tem um timming difícil de acompanhar. Se o outro lado (nós, os democratas, de esquerda que buscamos um mundo menos injusto) faz um movimento, eles (os golpistas) já apresentam uma novidade, um vazamento, uma ação judicial. Isso explica os vazamentos dos grampos, que não apresentam nenhum crime, mas criam o mal estar: o grande líder falou um palavrão? Porra, mandou o juiz enfiar o processo no cu? Óóó!, diz a turba de idiotas que mandaram a presidenta tomar no cu em um passado recente. Pronto, está criada a convulsão social, passada dia e noite em rádio e TV, enquanto os interesses da república são subtraídos em tenebrosas transações (obrigado, Chico).

Por isso, acho que o golpe em curso no país não está isolado de outros lugares do mundo. Há pouco tempo foi confirmada a participação dos EUA nos golpes na América Latina nas décadas de 1960 e 1970. Isso sem falar em ter que esperar 50 anos para a Rede Globo admitir a participação e apoio ao golpe de 1964. Será que teremos que esperar mais algumas décadas para perceber o que está acontecendo agora?

paulista.jpgA reação se faz necessária e imediata. Com todas as armas que temos na mão. Necessário, nesse momento, internacionalizar ao máximo o debate a respeito do que acontece aqui, afim de fortalecer a ordem democrática. Acredito que a pressão internacional, pode fazer os golpistas recuarem. Para isso, precisamos de muitos atos de rua, com muita gente. Os atos de ontem foram uma bela prova dessa força que precisamos, mas talvez não sejam suficientes.

Precisamos também de uma denúncia formal, por parte do governo aos órgãos internacionais para que acompanhem a situação aqui: ONU, OEA, Anistia Internacional e afins. O momento pede o máximo de forças que se puder aglutinar e essas entidades podem dar uma força.

Só com a normalidade democrática restituída, podemos retomar a disputa de um governo que, para não sofrer o golpe que está sofrendo agora, cedeu em quase tudo buscando uma governabilidade perdida. Por mais que o governo e o PT cedam, jamais se recuperará a colaboração de classes de um projeto de diminuição das desigualdades. Simplesmente porque isso não existe mais. Como mostra Ávila, não existem possibilidades de ultrapassar certos limites da relação entre taxa de emprego baixa e renda do trabalhador alta, citando o economista norteamericano Kalecki. Simplesmente os empresários não topam. Não toparam no passado e não topam hoje. É uma discussão de poder.

Assim, temos que primeiro garantir a normalidade democrática diante de um golpe de veludo em nosso país, para depois retomar a disputa de rumos do governo, buscando construir um modelo econômico diferente, com um estado forte, mas garantidor da iniciativa comunitária e não mais de grandes empresas.

Bem vindos à luta de classes.

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Capital financeiro e a economia real

Brad Pitt questiona os jovens investidores

Brad Pitt questiona os jovens investidores

Ben (Brad Pit) se vira para os dois jovens investidores de Wall Street, que dançavam empolgados pelo sucesso de sua aposta, mandando eles ficarem quietos e pergunta:

– Vocês sabem o que acabaram de fazer?

Atônitos, eles, que acabaram de realizar um grande negócio, não respondem.

Pit então complementa:

– Vocês acabaram de apostar contra a economia (norte) americana. Quando a bolsa cai 1%, 400 mil pessoas perdem o emprego. Muitas outras morrem. Então, parem de dançar.

O grande negócio, que ao final da história rende aos jovens investidores cerca de 80 milhões de dólares, era apostar que o sistema de hipotecas e dívidas ligadas ao mercado imobiliário dos EUA iria ruir. Isso mesmo. No jogo do capital financeiro você pode apostar que determinadas ações podem subir ou cair e, se alguém quiser bancar a aposta, você pode ganhar ou perder. Em cima dessas apostas, rolam outras apostas, criando o efeito pirâmide que todo mundo já ouviu falar.

O Filme “A grande aposta” conta essa história e um pouco dos bastidores da maior crise econômica pós 1930.

Existem outros filmes que contam um pouco dos bastidores de Wall Street e como essa aposta se tornou o pilar da economia mundial.

O livro “Flash Boys“, conta uma história de como a velocidade das negociações de ações se tornou fundamental no mundo dos negócios.

Essa história, acontece após a crise de 2008, contada no filme. Nessa crise, a maior dos últimos 70 anos, em que os ricos ficaram absurdamente mais ricos e os pobres perderam o pouco que tinham, somente uma pessoa foi presa, um programador russo que trabalhava no Goldman Sachs, acusado de evasão de códigos dos programas que operam as bolsas de valores. O detalhe sórdido: códigos que ele mesmo havia trabalhado anteriormente eram, em sua maioria, de código aberto.

No livro, Michel Lewis explica como a proximidade dos centros de operação, somado a softwares muito bem preparados e hardwares potentes, dava uma vantagem competitiva a determinados operadores das bolsas de forma que eles conseguiam intermediar uma transação sem que sequer o comprador percebesse. A diferença de centavos nos preços das ações gerava lucros absurdos a esses operadores e prejuízo aos pequenos investidores. Tudo, claro, com o consentimento dos grande bancos de Wall Street.

Muitos outros exemplos podem ser dados para explicar o (não) funcionamento do mundo financeiro. O problema da maioria, pelo menos os que vi ou li até agora, tratam essas questões como anomalias a serem resolvidas. Para mim, não são. Cada vez fica mais claro que a trapaça é a regra. O que vale é a informação. Você pode vender uma dívida, que não será paga. Você pode apostar numa aposta, e ganhar. E, finalmente, você pode apostar contra o sistema e ficar rico.

Ora, um sistema que depende da confiança, da informação privilegiada, que vive de boato, não poderia  ser a base da economia mundial contemporânea, mas é.

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