O tamanho do desafio

Sou de uma família de militantes políticos. Há gerações, lutamos contra a injustiça no mundo. Dos dois lados da minha árvore genealógica há exemplos de pessoas que deram a vida para construir um mundo melhor, não só aqui no Brasil, mas lutando contra o nazismo/fascismo na Europa, por exemplo.

Eu nasci no final da ditadura militar e sou um pouco mais velho do que o partido que viria a ser o principal instrumento de mudança social das últimas décadas no país: o PT. Se olharmos só o PT de hoje, envelhecido pela luta, pelas disputas, pela falta de projeto político das esquerdas no mundo todo, talvez não tenhamos noção do tamanho histórico que essa defeituosa ferramenta da classe trabalhadora tem de verdade.

Porém, um olhar mais longe pode nos dar a noção do seu tamanho, assim como de seus feitos.

Vivemos num mundo de profundas desigualdades. Nunca a desigualdade foi tamanha. Dados apontam para o fato de que 1% da população mundial tem nada menos do que a mesma riqueza de toda a metade mais pobre. E a tendência global é que esses dados piorem.

Vivemos num mundo que exclui o diferente, que pratica limpeza étnica, que não aceita que você acredite em outra coisa que não no SEU Deus.

Vivemos num mundo que destrói seu próprio ambiente para dar vazão aos anseios de vontades que são construídas pelos próprios produtores dos objetos de desejo dos consumidores.

Vivemos num mundo em que é mais importante parecer que se tem alguma coisa do que realmente ter.

E foi nesse mundo, caduco, após o fim de uma alternativa, que no fim não trouxe alternativa na forma de viver, que foi criada e cresceu essa experiência brasileira. Ela foi criada exatamente na crítica a essa alternativa global que não alterou o essencial, mas que, pelo menos, trouxe uma perspectiva menos comercial para a vida daqueles que viviam sob seu arco. Porém esse rumo acabou. O muro caiu. E o outro lado tomou conta da nossa direção nos fazendo ser cada vez mais mercadorias a ser comercializadas para que os donos do mundo tenham cada vez mais as custas de muitas almas.

Não se podia esperar que nascesse da falta de rumo, um prumo para o país e para o mundo. Nesse contexto, só foi possível a arrumadinha , o jeitinho no sistema imperfeito e capenga que foi a síntese possível após a noite longa, que é a democracia brasileira.

Esse jeitinho, esse aceitar de coisas inaceitáveis, esse ceder de coisas que não deveria,  esse jeito de adiar coisas importantes, no entanto, foi suficiente para mudar milhões de vidas. Poderíamos até mesmo dizer que essas vidas foram criadas, pois, em muitos caso eram só organismos sem nenhuma noção de que viviam numa sociedade complexa como a do mundo do séc XXI. Não tinham luz, não tinham água e nenhum assistência de um Estado, que só conheciam pela força bruta que os expulsava de qualquer noção de cidadania.

Para outra parcela, o jeitinho, trouxe uma melhora significativa na sofrida luta do dia-a-dia, materializada no aumento do salário mínimo, da distribuição de moradias dignas, do emprego formal.

Todas essas mudanças foram possíveis através de ações governamentais, condicionadas ao acordo de governabilidade com aqueles que não mais toleram que se mexa na estrutura do país em nome de um desenvolvimento. Para as forças conservadoras nacionais é melhor viver num país periférico, extrativista, excludente, com heranças escravocratas do que pode fazer parte dos países chamados desenvolvidos, onde os elementos dessas forças teriam que dividir a mesa com pessoas de segunda classe.

Por pior que tenha sido a postura do partido nesse momento histórico, não apagam o enorme êxito de ter tirado milhões da miséria, acabado com a fome. O governo e o partido foram se juntando ao inimigos na crença de que era possível promover as tão urgentes mudanças na estrutura socioeconômica brasileira sem conflito, ao contrário do que se pregou durante tanto tempo no século passado. Não deu. O conflito veio do lado de lá, que não mais aceitou que não se tenha mais margem para manobrar vidas em busca do lucro, o conforto e o luxo fácil.

Cresci ouvindo histórias da ditadura. Entre cômicas e trágicas, essas histórias são parte da minha formação humana. Me ajudaram a enxergar mais do que os olhos dos telejornais nos mostram. Hoje, então, eu posso dizer: nossos pais não lutaram em vão para construir essa frágil democracia. Não lutaram para construir esperança para agora, os mesmo de sempre, mancomunados com as forças internacionais de sempre, pisarem em nossos canteiros.

Bem vindos à luta de classes e vai ter luta.

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Vai ter luta

 

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Das formas de se construir a beleza no mundo
Escolhemos a luta
Escolhemos a construção de coletividades
Nossa arte é a rua cheia, multi colorida, multi tudo
Nossa vida é o caminhar eterno da esperança
Caminhamos por onde muito sangue já escorreu
Muitas vidas ficaram, entregues integralmente à luta,
derrubadas nessas pedras
Para que outras vidas pudessem florescer
regadas no nosso sangue, que é vermelho

E nossa indignação é total
Caminhamos em mundo cinza e queremos colori-lo
Vestimos nossas camisas e trazemos nossas bandeiras
E não vamos admitir que os donos de sempre do mundo
venham nos desfazer da esperança
Somos muitos e somos fortes
Não há mais como voltar atrás
Vai ter luta.

Agora, num rastilho de pólvora
que ira explodir um país
somos os que se desfazem dos medos e diferenças
somos irmãos abraçados nas calçadas
chorando nossos mortos e apontando para o céu
onde mais um anjo sobe no lento soluçar das asas de uma borboleta.

Os atores ainda são os mesmos, mas os caminhos são outros
somos os mesmos que derrubaram prédios e tomaram palácios
mas não temos mais palácios a tomar
temos histórias para contar
e a História para construir

O sangue dos nossos antepassados regou a semente
e os de sempre querem pisotear o broto da democracia
não. Não passarão sobre nossas flores.
Caminharemos unidos.

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O fim do Estado de direito

As regras democráticas são resultado de amplas lutas afim de construir protocolos de convivência comum entre interesses e visão de mundo diferentes dentro da sociedade. Sem isso, vale a lei do mais forte. Essas regras são transformadas em lei, não antes de passar pelo jogo de forças e interesses envolvidos nas lutas, no congresso nacional, onde são finalizadas. São, portanto, a síntese possível das disputas em voga na sociedade em determinado período.

Na vida real, no entanto, as leis não são para todos. Para fazer valer os interesses de classe, muitas vezes, passa-se por cima da lei sem que isso traga consequências para quem o faz. O que importa no final das contas é a posição que você ocupa ou ao lado que quem você caminha. No jogo político das grandes estruturas de poder, isso fica claro. Taí o Cunha solto e o Aécio sem nenhum processo de investigação recente, apesar dos dois terem comprovadamente contas em paraísos fiscais europeus.

“As leis não bastam, os lírios não nascem da lei” – Drummond

Quando a disputa política ultrapassa as fronteiras da lei, ou das regras que foram antes estabelecidas, como estamos assistindo nesse caso dos vazamentos dos grampos e delações, a luta passa a ser só da política nua e crua.  Não tem mais estado de direito. Esse  terá que ser reconstruído ao fim dessa batalha, com um novo conjunto de regras combinadas entre as forças que sobreviverem ao processo. A disputa agora é por versões dos fatos, feita por quem tem mais gente envolvida ou atingida por suas ações de comunicação e política. Nesse aspecto a rua é um importante fator a ser considerado, assim como as relações internacionais, capaz de pressionar setores adeptos ao golpe a recuarem.

A direita nunca teve pudor de romper com as leis para alcançar os seus objetivos. Isso é coisa da esquerda. Os meios sempre justificaram os fins.

Acredito que sofreríamos uma ação golpista como essa que estamos sofrendo agora, independente de termos encarado alguns debates que deveríamos ter encarado, como a democratização das comunicações, a ampliação da reforma agrária, as relações de trabalho dos profissionais de saúde e seu financiamento e, principalmente, a quantidade enorme de recursos públicos que vão parar nas mãos de pequenos grupos através do pagamento de juros, lesando assim a possibilidade de melhorar os serviços que o Estado presta.

Tenho acreditado muito no limite da distribuição de renda, feita através do reformismo fraco petista, como causa para a crise. Esse limite, com desemprego baixo e renda do trabalhador em ascensão é o motivo principal da crise que vivemos. Além disso, ainda temos o pré-sal, nas mãos da Petrobras, ferindo assim os interesses dos grandes grupos internacionais. Isso sem falar na articulação internacional do G20 e, principalmente, dos BRICS, desafiando o poder totalitário dos EUA.

Esses são os motivos para o golpe, articulado desde 2005, visando tirar do poder o mínimo de equilíbrio social que o petismo significa, e feito através das “novas” táticas de desestabilização de Estados não alinhados, chamadas de revoluções de veludo ou golpes suaves.

Agora, precisamos pensar a resistência, que não vai passar pelas leis, essas não mais bastam.

Bem vindos à luta de classes.

 

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Golpe suave no Brasil

No livro “Os últimos soldados da Guerra Fria”, Fernando Morais nos conta a história de um grupo de cubanos que vão para Miami se infiltrar na rede de terrorismo construída nos EUA para tentar desestabilizar o regime da Ilha. Esses caras eram, na sua maioria, militares cubanos dispostos a se sacrificarem em busca de respostas e soluções para proteger seu pequeno país, que ousou sonhar e conquistou uma vida diferente dos seus irmãos latinoamericanos. O regime, sem a mãe Rússia protegendo, corria sérios riscos e, sabendo disso, o governo cubano usou da melhor arma que tinha à mão: a inteligência. Com isso, conseguiu criar esquema de contraespionagem que denunciou o esquema terrorista para o mundo conseguindo assim neutralizá-lo.

Não é novidade que existem, hoje, no mundo, forças nãotãoocultasassim que se especializaram em desestabilizar governos mundo a fora. Exemplos de belos textos sobre o assunto temos aos montes. São os chamados golpes de veludo. Existem exemplos deles no leste europeu e, parece, agiram bem durante a chamada primavera árabe. Desconfiamos (porque me incluo naqueles que se negam a acreditar em protagonismo espontâneo de pessoas desorganizadas) que atuaram com as mesmas táticas por aqui durante o famoso “Junho de 2013”. Continuam atuando, na verdade. A notícia de que o próprio Moro foi “treinado” nos EUA, não surpreende. O mesmo vale para o Kim ou para aquela menina bonita da Nicarágua.

O mundo contemporâneo não aceita mais tanques de guerra ou assalto armado aos palácios dos governos. Pelo menos não no ocidente. Os golpes estão mais sofisticados. E mais sofisticada deve ser a resistência. Não podemos mais cair no debate fácil da corrupção, como já disse antes e mais de uma vez. Sabemos que esse é um assunto que tem apelo na população e por isso é constantemente utilizado como pretexto para ações nada republicanas como a que estamos assistindo. É preciso esvaziar esse debate de uma vez.

As ações parecem muito bem orquestradas e tem um timming difícil de acompanhar. Se o outro lado (nós, os democratas, de esquerda que buscamos um mundo menos injusto) faz um movimento, eles (os golpistas) já apresentam uma novidade, um vazamento, uma ação judicial. Isso explica os vazamentos dos grampos, que não apresentam nenhum crime, mas criam o mal estar: o grande líder falou um palavrão? Porra, mandou o juiz enfiar o processo no cu? Óóó!, diz a turba de idiotas que mandaram a presidenta tomar no cu em um passado recente. Pronto, está criada a convulsão social, passada dia e noite em rádio e TV, enquanto os interesses da república são subtraídos em tenebrosas transações (obrigado, Chico).

Por isso, acho que o golpe em curso no país não está isolado de outros lugares do mundo. Há pouco tempo foi confirmada a participação dos EUA nos golpes na América Latina nas décadas de 1960 e 1970. Isso sem falar em ter que esperar 50 anos para a Rede Globo admitir a participação e apoio ao golpe de 1964. Será que teremos que esperar mais algumas décadas para perceber o que está acontecendo agora?

paulista.jpgA reação se faz necessária e imediata. Com todas as armas que temos na mão. Necessário, nesse momento, internacionalizar ao máximo o debate a respeito do que acontece aqui, afim de fortalecer a ordem democrática. Acredito que a pressão internacional, pode fazer os golpistas recuarem. Para isso, precisamos de muitos atos de rua, com muita gente. Os atos de ontem foram uma bela prova dessa força que precisamos, mas talvez não sejam suficientes.

Precisamos também de uma denúncia formal, por parte do governo aos órgãos internacionais para que acompanhem a situação aqui: ONU, OEA, Anistia Internacional e afins. O momento pede o máximo de forças que se puder aglutinar e essas entidades podem dar uma força.

Só com a normalidade democrática restituída, podemos retomar a disputa de um governo que, para não sofrer o golpe que está sofrendo agora, cedeu em quase tudo buscando uma governabilidade perdida. Por mais que o governo e o PT cedam, jamais se recuperará a colaboração de classes de um projeto de diminuição das desigualdades. Simplesmente porque isso não existe mais. Como mostra Ávila, não existem possibilidades de ultrapassar certos limites da relação entre taxa de emprego baixa e renda do trabalhador alta, citando o economista norteamericano Kalecki. Simplesmente os empresários não topam. Não toparam no passado e não topam hoje. É uma discussão de poder.

Assim, temos que primeiro garantir a normalidade democrática diante de um golpe de veludo em nosso país, para depois retomar a disputa de rumos do governo, buscando construir um modelo econômico diferente, com um estado forte, mas garantidor da iniciativa comunitária e não mais de grandes empresas.

Bem vindos à luta de classes.

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Capital financeiro e a economia real

Brad Pitt questiona os jovens investidores

Brad Pitt questiona os jovens investidores

Ben (Brad Pit) se vira para os dois jovens investidores de Wall Street, que dançavam empolgados pelo sucesso de sua aposta, mandando eles ficarem quietos e pergunta:

– Vocês sabem o que acabaram de fazer?

Atônitos, eles, que acabaram de realizar um grande negócio, não respondem.

Pit então complementa:

– Vocês acabaram de apostar contra a economia (norte) americana. Quando a bolsa cai 1%, 400 mil pessoas perdem o emprego. Muitas outras morrem. Então, parem de dançar.

O grande negócio, que ao final da história rende aos jovens investidores cerca de 80 milhões de dólares, era apostar que o sistema de hipotecas e dívidas ligadas ao mercado imobiliário dos EUA iria ruir. Isso mesmo. No jogo do capital financeiro você pode apostar que determinadas ações podem subir ou cair e, se alguém quiser bancar a aposta, você pode ganhar ou perder. Em cima dessas apostas, rolam outras apostas, criando o efeito pirâmide que todo mundo já ouviu falar.

O Filme “A grande aposta” conta essa história e um pouco dos bastidores da maior crise econômica pós 1930.

Existem outros filmes que contam um pouco dos bastidores de Wall Street e como essa aposta se tornou o pilar da economia mundial.

O livro “Flash Boys“, conta uma história de como a velocidade das negociações de ações se tornou fundamental no mundo dos negócios.

Essa história, acontece após a crise de 2008, contada no filme. Nessa crise, a maior dos últimos 70 anos, em que os ricos ficaram absurdamente mais ricos e os pobres perderam o pouco que tinham, somente uma pessoa foi presa, um programador russo que trabalhava no Goldman Sachs, acusado de evasão de códigos dos programas que operam as bolsas de valores. O detalhe sórdido: códigos que ele mesmo havia trabalhado anteriormente eram, em sua maioria, de código aberto.

No livro, Michel Lewis explica como a proximidade dos centros de operação, somado a softwares muito bem preparados e hardwares potentes, dava uma vantagem competitiva a determinados operadores das bolsas de forma que eles conseguiam intermediar uma transação sem que sequer o comprador percebesse. A diferença de centavos nos preços das ações gerava lucros absurdos a esses operadores e prejuízo aos pequenos investidores. Tudo, claro, com o consentimento dos grande bancos de Wall Street.

Muitos outros exemplos podem ser dados para explicar o (não) funcionamento do mundo financeiro. O problema da maioria, pelo menos os que vi ou li até agora, tratam essas questões como anomalias a serem resolvidas. Para mim, não são. Cada vez fica mais claro que a trapaça é a regra. O que vale é a informação. Você pode vender uma dívida, que não será paga. Você pode apostar numa aposta, e ganhar. E, finalmente, você pode apostar contra o sistema e ficar rico.

Ora, um sistema que depende da confiança, da informação privilegiada, que vive de boato, não poderia  ser a base da economia mundial contemporânea, mas é.

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Cuba, do século XX para o futuro

Cuba, hoje, parece um terra de oportunidades. Está se integrando ao mundo do século XXI sem ter passado pelos turbulentos anos 2000.

foto de carros antigos reformados em Cuba

Coches Viejos para pessoas Rosas

A impressão que temos de Cuba, mesmo que já seja uma imagem batida,  é que ela está parada no tempo. Talvez nos anos 1950 pré revolução, se, por exemplo, olharmos a frota de automóveis, que já viraram um símbolo da simpática ilha.  Esses automóveis são também um símbolo da Cuba contemporânea e expressam uma certa desigualdade do país. Vemos alguns deles reformados, como novos, impecáveis, brilhantes, coloridos, em grande parte conversíveis, voltados exclusivamente para o turismo de “alto consumo”. Normalmente europeus de meia idade ou norte americanos. As pessoas rosadas com chapéus panamá recém adquiridos nas novíssimas “tiendas” de Habana Vieja.

taxi com luz azul no interior

taxi com luz azul no interior

Há também, outros coches viejos, reformados, mas não tão brilhantes como os primeiros, que circulam  pelas ruas servindo de táxi  a turistas não tão abastados, não tão rosas e, talvez, sem chapéu. São, também, belas peças que traduzem a capacidade de superar dificuldades da população cu’ana (os cubanos falam como se tivessem um ovo na boca e engolem o “b” às vezes. Além disso falam rápido pra c…).

E há, por último, os carro que são velhos mesmo. Acabados, com a lataria amassada, com remendos aparentes, que servem de táxis coletivos para os cubanos e, na maioria das vezes, são pagos em pesos, ou moneda nacional não em CUCs. Porém, funcionam e cumprem sua função.

Os Coches são, assim, a personificação (?!) da Ilha. Divisões, há. Pero no mucho. É tudo velho, mas com alguma reforma. Assim como o segundo e o terceiro tipos de carros, os cu’anos são craques em se reinventar. Se inventam peças para os automóveis, também inventam formas de viver no aperto no mundo contemporâneo.

A própria existência e circulação de duas moedas, Pesos (moneda nacional) e Pesos Convertíveis (CUC), demonstra uma tentativa de equilibrar a crescente desigualdade gerada pelo turismo, ao mesmo tempo uma reinvenção do seu próprio dinheiro, em contraposição à circulação ilegais de dólares no país.

Bloqueo: el genocidio mas largo de la história

Bloqueo: el genocidio mas largo de la história

Foi assim que sobreviveu ao bloqueio que condenou a Ilha ao século XX, de onde ela tenta, agora, se reerguer.

E tenta se reerguer a partir da criatividade do seu povo.

Se não tem acesso à internet de qualidade ou aos meios pelos quais circulam os produtos comerciais da informação/comunicação/cultura dão um jeito de acessá-los. Conhecemos uma cubana de Santiago, que estava no congresso. Ela, professora da Faculdade de Comunicação da Universidade do Oriente (Santiago), nos explicou que paga 5 pesos, moeda nacional,  no paquete de 4Gb de informaciones duas vezes por semana. Assim, levando o seu próprio pendrive, que depois ela pluga direto na TV, tem acesso aos seriados norteamericanos, filmes de Hollywood e, claro, novela brasileira. Tudo já dublado para o castelhano.

A propriedade intelectual parece não valer muito por lá. Fato curioso aconteceu quando fui levar os slides da apresentação no congresso. Levei o pendrive com a apresentação para a secretaria e, por acaso, era o pendrive que estava no som do meu carro (aqui no Brasil) e, portanto, continha músicas, brasileiras, claro. O sujeito que recebia a apresentação não se fez de rogado. Com a lista de arquivos na tela do windows XP, perguntou logo quais delas eram Samba. Apontei logo um disco da Beth Carvalho e outro do Paulinho da Viola, que foram imediatamente copiados para a área de trabalho e já devem estar incorporados a algum paquete de informação (foi mal Warner, Sony, Globo ou qualquer outra proprietária dos direitos intelectuais desses e outros artistas, rsrs).

Mas somente o acesso aos bens de consumo cognitivos não faz país nenhum entrar no século XXI e Cuba tenta reinventar a sua própria economia. O aluguel de quartos para turistas, antes tolerados, agora são legalizados. É super comum, pelo menos em Havana, turistas ficarem em quartos “particulares”.  Já é possível ter alguns negócios, para além dos paladares (restaurantes familiares que foram os primeiros negócios legalizados na Ilha, ainda na década de 1990), e se isso representa algumas oportunidades, é também fator de desigualdade social.

Prédios reformados em Havana Velha

Prédios reformados em Havana Velha

Em outro momento, uma outra professora, esta de Havana mesmo, sentou ao nosso lado na mesa do almoço. Descobrimos depois que se tratava da responsável acadêmica do congresso. Ela, que depois estaria na mesa de encerramento do congresso, assim como os demais palestrantes, almoçavam junto com todos os participantes em pé de igualdade. Mais uma lição de Cuba: sem VIPs. Ela nos contou que existem hoje pessoas milionárias em Cuba, que possuem extensões (não sei precisar o tamanho) de terra, produzem alimentos, como carne de porco, por exemplo, e com isso conseguem acumular bastante riqueza.

Outros negócios prosperam também. Esses novos negócios, ligados ou não ao turismo, poderiam ser organizados de forma a se criar uma nova economia, baseada no bem comum, na socialização de recursos, na construção coletiva de alternativas. Mas isso não parece acontecer.

Preparação de mojitos em La B del M

Preparação de mojitos em La B del M

A resistência aos modelos de acumulação parecem vir mesmo do governo. Dessa forma, para tentar frear essa onda de desigualdade, onde as pessoas que trabalham com turismo tem a possibilidade de ganhar muito mais dinheiro que os demais trabalhadores,  o governo criou um empresa que participa dos principais empreendimentos comerciais voltados ao turismo como forma de garantir uma melhor distribuição da renda que entra por essa atividade comercial, que é a principal na Ilha. Pelo menos foi isso que entendemos da explicação que nos deu um garçom em um dos restaurantes que possuía o selo  Habaguanex  (Se algum dos meus 6 leitores tiver mais informações sobre isso, pode me corrigir em um comentário que faço as alterações no texto.).

Essa impressão, sobre a distribuição da renda do turismo que entra na Ilha agora, também tivemos em conversa com pesquisadores da área da saúde, já conhecidos de longa data e com passagem por diversos países. Eles tiveram o salário dobrado nos últimos anos, passando, agora, a 100 dólares/mês. Muito pouco e ainda não suficiente para uma vida próspera. Tanto é que seus dois filhos, médicos, saíram do país em busca de melhores condições. Do casal, enquanto ele parecia ter uma visão mais otimista do processo de abertura, ela nos pareceu mais pessimista. Talvez por ter os dois filhos longe.

 

Velhos cubanos dando um jeitinho na antena

Velhos cubanos dando um jeitinho na antena

Por essas e por outras que Cuba parece uma terra de oportunidades. Terra onde se pode construir um acesso à internet que não seja comercial, mas cidadão a partir de ferramentas coletivas, construídas não a partir da apropriação do conhecimento, mas a partir de um conhecimento coletivo gerando novos valores. Ao invés de usar ferramentas proprietárias para o acesso à internet, Cuba poderia desenvolver e distribuir ferramentas livres. Essa seria uma boa maneira de integrar seus jovens, ávidos por adentrarem no maravilhoso mundo digital, sem dá-los de bandeja aos comedores de mentes do Google, do Facebook ou da Apple.

Essa pirataria, a qual Cuba esteve presa ao longo desses anos, aos poucos está transformando os modelos de negócios de forma que o consumidor tenha acesso aos bens cognitivos, mas não precisa mais desembolsar grandes quantias de dinheiro. É o tal do streaming, que explora ainda mais o trabalho de artistas se apropriando do valor gerado por suas produções.

O que vemos nas ruas, em determinados pontos, é uma grande quantidade de pessoas portando aparelhos (smartphones, tablets, computadores) buscando a precária e cara rede wifi da companhia telefônica. Esses aparelhos são, na maior parte das vezes, proprietários e os acessos, em geral, são ao Facebook, Twitter e Imo.

Como, ao contrário dos outros países, Cuba não estava integrada à rede no período de desenvolvimento dessas ferramentas, podemos dizer que não está contaminada pela produção mercadológica dos bens cognitivos. Nós, ao contrários, vimos essas empresas serem criadas e fomos absorvidos aos poucos. Cuba ainda pode se integrar, sem passar por essa disputa. Acredito.

Meninos jogam futebol em praça de Havana

Meninos jogam futebol em praça de Havana

As marcas, o imaginário, o pertencimento e a subjetividade do capital já parece fazer parte do país. Não a toa afloram camisas de times de futebol europeus, principalmente o Barcelona, que parece contaminar a todos no mundo inteiro. O futebol parece ter chegado firme, inclusive. Em todas as praças podemos ver garotos improvisando gols para uma boa pelada. Até fiquei com vontade de participar, mas a correria de poucos dias na cidade não me permitiu arriscar.

Assim vemos Cuba ingressar no século XXI gerando preocupações de esperanças. Preocupações de que as conquistas de um povo massacrado pelo mais longo bloqueio da história, baseadas na solidariedade e na criatividade, sejam absorvidas pelo modo de vida padronizado do consumismo capitalista. Porém, pelo seu histórico, Cuba pode nos surpreender e apresentar uma forma ainda solidária e comum de ingressar no maravilhoso mundo novo da informação e tecnologia em que vivemos. A ver os próximos capítulos.

 

Mais fotos em https://goo.gl/photos/zHMAj3tepCWdQ3Un9

 

 

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A SOLIDÃO NA ERA DA CONECTIVIDADE EM REDES SOCIAIS

Estar sozinho na sociedade ultra conectada. Será que estamos sempre sozinhos?
Via Henri

Tempus fugit

Uma pessoa se relaciona em média com um grupo de 150 pessoas na vida. Você conhece de verdade ao menos 150 pessoas? Vale a pena assistir a esta animação que traz profundas reflexões sobre nossa vida real e virtual. Ou como, apesar de todas as conexões que a Internet nos permite, a solidão virou a grande doença do mundo contemporâneo.

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