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Destruição a jato

No filme “A grande aposta” sobre os eventos que levaram à crise de 2008, tem uma sequencia muito interessante que mostra um pouco a desconexão entre determinadas ações que são feitas em determinados espaços e as graves consequências para uma grande parcela da população. No filme, Brad Pitt, repreende 2 jovens investidores que comemoravam um grande negócio feito pelos três. Pitt, então, os alerta: “Vcs tem noção do que acabaram de fazer? Apostaram contra a economia (norte)americana. Qdo a bolsa cai 1% 400 mil trabalhadores perdem o emprego, mais um sem número de pessoas morrem!”
 
É isso mais ou menos o que ocorre com a lava jato. Até acredito que a sua cúpula saiba bem o que está fazendo. Moro foi treinado nos EUA e isso está no seu currículo Lattes, para quem quiser olhar. Mas pode ser que parte dos concursados, sem conexão com a vida real acredite que está apenas fazendo o seu trabalho, sem ter noção do que significa acabar com investimentos, créditos, empresa, enfim, empregos e vidas. Não percebe que sua ação condenatória está acabando com milhares, quiçá milhões de vidas.
 
Seria bom se esse video pudesse chegar a essas pessoas…

 

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Adeus, Democracia

IMG_8037Eu era pequeno quando vc chegou no país. Lembro de acompanhar, via rádio, no nosso antigo carro, a caminho da natação ou das aulinhas de futebol, o noticiário sobre os trâmites da diretas. Isso era muito importante para você chegar. Lembro também de meus pais batendo panelas na janela. Naquela época se batia panela por você, não contra. Lembro de camisetas da Mafalda e lembro também de um passeio na Candelária, onde do alto de um dos edifícios pudemos ver se aglomerarem na rua milhões de pessoas que queria ser donas de seus futuros. O país queria muito você por perto. E até quem não queria muito não podia mostrar que não queria.
Cresci convivendo bem com você. Aprendi a te admirar muito. E hoje te considero fundamental para que o mundo não acabe se destruindo, embora ainda ache que a cada dia caminhamos um passo nessa direção. Tivemos muitos bons momentos juntos. Principalmente quando aprendemos alguns segredos que você escondia, e ainda esconde, da maioria das pessoas, como a forma que você funciona em coletivos pequenos, em espaços mais reservados. Como você se faz importante em cada momento da vida e as formas de você se apresentar. Como a relação com você pode ser proveitosa para o crescimento de um país.
Foi na rua que tivemos nossa relação mais íntima. E foi assim, no meio de muita gente, como estamos vendo agora nas ruas do país. Mas não foi só na rua que tivemos intimidade. Pois você é onipresente, ou deveria ser. Pude viver cada momento junto ao seu lado de forma intensa. Essa convivência foi muito importante para o que eu sou hoje.
Por sua conta, podemos ver chegar ao cargo mais alto do país, um operário que saiu da extrema pobreza do sertão nordestino para o centro do capital brasileiro para ser um operário. A sua construção também se misturou muito com a construção do partido que esse cara ajudou a criar.
Demorou, mas, depois de algumas tentativas, esse cara conseguiu chegar ao governo, junto com o partido que ele ajudou a criar para começar a de fato fazer valer o seu nome. Afinal, de que adianta estarmos ao seu lado se não for para ser pleno. E só a plenitude da sua companhia pode fazer com que realmente vivamos num mundo melhor. Só o acesso aos elementos básicos da vida pode ser digno de carregar seu nome.
Com você, conseguimos acabar com a fome, tiramos milhões da miséria e incluímos outros tantos milhões no mercado de consumo. Tá bom, poderíamos sonhar com outro tipo de inclusão, que eu até acho que seria melhor, poderia ser mais duradoura e humana, mas não podemos desprezar esse feito. Principalmente num mundo que a cada dia exclui dos elementos mais básicos da vida um contingente incontável de vidas.
Também conseguimos melhorar a vida de muita gente que precisava muito: o ingresso no ensino superior para uma parcela da população que estava fora desse sistema, o respeito às minorias, ao pessoal GLBT, às mulheres, às negras e negros, são alguns exemplos.
Claro que se nossa convivência fosse ainda mais intensa, acredito que poderíamos ter feito mais. Isso, claro, não tira a beleza dos momentos em que convivemos e aprendemos com você.
Agora, nesse triste momento em que você parece se afastar de nós, não só sentiremos a sua falta, como estaremos aqui a lutar pela sua pronta recuperação para voltarmos a caminharmos lado a lado. Sua falta pode nos levar também a Esperança. Sem ela será muito difícil viver nos tempos que se apontam para as nossas vidas.
Espero, sinceramente, que esse adeus se converta rapidamente num até logo.

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Golpe suave no Brasil

No livro “Os últimos soldados da Guerra Fria”, Fernando Morais nos conta a história de um grupo de cubanos que vão para Miami se infiltrar na rede de terrorismo construída nos EUA para tentar desestabilizar o regime da Ilha. Esses caras eram, na sua maioria, militares cubanos dispostos a se sacrificarem em busca de respostas e soluções para proteger seu pequeno país, que ousou sonhar e conquistou uma vida diferente dos seus irmãos latinoamericanos. O regime, sem a mãe Rússia protegendo, corria sérios riscos e, sabendo disso, o governo cubano usou da melhor arma que tinha à mão: a inteligência. Com isso, conseguiu criar esquema de contraespionagem que denunciou o esquema terrorista para o mundo conseguindo assim neutralizá-lo.

Não é novidade que existem, hoje, no mundo, forças nãotãoocultasassim que se especializaram em desestabilizar governos mundo a fora. Exemplos de belos textos sobre o assunto temos aos montes. São os chamados golpes de veludo. Existem exemplos deles no leste europeu e, parece, agiram bem durante a chamada primavera árabe. Desconfiamos (porque me incluo naqueles que se negam a acreditar em protagonismo espontâneo de pessoas desorganizadas) que atuaram com as mesmas táticas por aqui durante o famoso “Junho de 2013”. Continuam atuando, na verdade. A notícia de que o próprio Moro foi “treinado” nos EUA, não surpreende. O mesmo vale para o Kim ou para aquela menina bonita da Nicarágua.

O mundo contemporâneo não aceita mais tanques de guerra ou assalto armado aos palácios dos governos. Pelo menos não no ocidente. Os golpes estão mais sofisticados. E mais sofisticada deve ser a resistência. Não podemos mais cair no debate fácil da corrupção, como já disse antes e mais de uma vez. Sabemos que esse é um assunto que tem apelo na população e por isso é constantemente utilizado como pretexto para ações nada republicanas como a que estamos assistindo. É preciso esvaziar esse debate de uma vez.

As ações parecem muito bem orquestradas e tem um timming difícil de acompanhar. Se o outro lado (nós, os democratas, de esquerda que buscamos um mundo menos injusto) faz um movimento, eles (os golpistas) já apresentam uma novidade, um vazamento, uma ação judicial. Isso explica os vazamentos dos grampos, que não apresentam nenhum crime, mas criam o mal estar: o grande líder falou um palavrão? Porra, mandou o juiz enfiar o processo no cu? Óóó!, diz a turba de idiotas que mandaram a presidenta tomar no cu em um passado recente. Pronto, está criada a convulsão social, passada dia e noite em rádio e TV, enquanto os interesses da república são subtraídos em tenebrosas transações (obrigado, Chico).

Por isso, acho que o golpe em curso no país não está isolado de outros lugares do mundo. Há pouco tempo foi confirmada a participação dos EUA nos golpes na América Latina nas décadas de 1960 e 1970. Isso sem falar em ter que esperar 50 anos para a Rede Globo admitir a participação e apoio ao golpe de 1964. Será que teremos que esperar mais algumas décadas para perceber o que está acontecendo agora?

paulista.jpgA reação se faz necessária e imediata. Com todas as armas que temos na mão. Necessário, nesse momento, internacionalizar ao máximo o debate a respeito do que acontece aqui, afim de fortalecer a ordem democrática. Acredito que a pressão internacional, pode fazer os golpistas recuarem. Para isso, precisamos de muitos atos de rua, com muita gente. Os atos de ontem foram uma bela prova dessa força que precisamos, mas talvez não sejam suficientes.

Precisamos também de uma denúncia formal, por parte do governo aos órgãos internacionais para que acompanhem a situação aqui: ONU, OEA, Anistia Internacional e afins. O momento pede o máximo de forças que se puder aglutinar e essas entidades podem dar uma força.

Só com a normalidade democrática restituída, podemos retomar a disputa de um governo que, para não sofrer o golpe que está sofrendo agora, cedeu em quase tudo buscando uma governabilidade perdida. Por mais que o governo e o PT cedam, jamais se recuperará a colaboração de classes de um projeto de diminuição das desigualdades. Simplesmente porque isso não existe mais. Como mostra Ávila, não existem possibilidades de ultrapassar certos limites da relação entre taxa de emprego baixa e renda do trabalhador alta, citando o economista norteamericano Kalecki. Simplesmente os empresários não topam. Não toparam no passado e não topam hoje. É uma discussão de poder.

Assim, temos que primeiro garantir a normalidade democrática diante de um golpe de veludo em nosso país, para depois retomar a disputa de rumos do governo, buscando construir um modelo econômico diferente, com um estado forte, mas garantidor da iniciativa comunitária e não mais de grandes empresas.

Bem vindos à luta de classes.

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O governo dos Homens Bons

Há uma crença, uma certa verdade, na sociedade, de que bastariam “Homens Bons ” terem acesso ao poder, não importa bem como, se por eleições democrática, luta armada,  greve geral, golpe etc., que a vida seria diferente. O Estado, enfim, funcionaria, gerando oportunidade a todo mundo. As coisas não mudam, então, porque os “Homens Bons ” não chegaram ao poder.

E digo “Homens” porque, infelizmente, foram os homens e não esses junto com as mulheres que dominaram a política do século passado. Esses grandes homens, “Bons” acima de tudo, são idôneos e incorruptíveis. Devolvem a diária não usada. Se alguém embolsa a diária, é corrupto.

Ora, os governantes não vieram do Olimpo para governarem a terra. Estão imersos na mesma cultura dos demais. Daqueles que sonegam, que roubam, que não devolvem a diária, mas fazem dela parte dos seus ganhos. Afinal, isso é justo e corrupto são os outros (ironia).

A mudança da cultura é também a mudança das estruturas de poder. Esperar algo de seres iluminados acima do bem e do mal, está mais para religião do que para política.

Essa é a realidade de diversos países. As influências de forças (não tão) ocultas nos sistemas de poder, requer de nós, mais, bem mais do que “bons homens” para mudar a nossa realidade.

É o que diz o Lessig, que se lançou candidato a presidente dos EUA com a plataforma de proibir o financiamento privado.

O mesmo acontece aqui. A corrupção ligada ao sistema eleitoral impede que “bons governos”, comprometidos com causas sociais, ou até mesmo os regulares, preocupados antes com suas imagens, e por isso capazes de prover algum ganho para a população, façam algo para mudar a realidade de milhões de pessoas que passam por necessidades. Esse mecanismo é o financiamento privado de campanha, que está mais para investimento que as empresas fazem em candidatos que lhes garantirão benesses no futuro.

Porém, há uma parcela, muito maior, de perda dos recursos públicos, que não é comentada. Ou é pouco comentada.

https://www.facebook.com/plugins/video.php?href=https%3A%2F%2Fwww.facebook.com%2Fgleisi.hoffmann%2Fvideos%2F484348658409059%2F&show_text=0&width=400

Bom, se dentro da parte ilícita do desvio da riqueza, a evasão fiscal em forma de sonegação representa 80% de tudo que o país perde, enquanto a corrupção responde por 20%, por que se fala tanto em corrupção e tão pouco em reforma tributária?

A resposta é poder. A mídia tem poder, não é o 4º, mas tem muito. Constrói a imagem, cria fatos, destrói reputações, ajuda na construção de valores. A justiça é um poder. O martelo que condena o ladrão de galinhas não condena o grande sonegador. As empresas têm poder, principalmente as multinacionais. O Capital Financeiro é um poder que pode paralisar uma nação no mundo ultraconectado e de economias dependentes da entrada de capital. É um jogo complexo.

Mas, muito mais nocivo que o dinheiro desviado diretamente de forma ilícita, é a riqueza que foge do seu objetivo de forma lícita. Isso acontece através de leis de propriedade intelectual, de contratos secretos, de acordos de livre comércio, como estão fazendo agora os países do pacífico. Há um caminho para a concentração cada vez maior de riquezas nas mãos de poucos. Esse caminho é legal e visível.

Assim funciona o Estado, aqui ou na China. Tá bom, na China a gente não sabe direito, mas sabe do mundo ocidental. E, em maior ou menor grau, isso ocorre nas chamadas democracias.

Quando há alguma incompatibilidade de quem está sentado(a) na cadeira de governante com esse sistema, mesmo que pontualmente, mesmo que não atinja o centro dessa política de acumulação, há a necessidade de afastá-lo(a).

Aí entra o discurso da corrupção e dos “Homens Bons ” capazes de promover o bem. O golpe do bem, então, está montado. Aproveita-se de uma fragilidade do governante para impor uma agenda capaz de sequestrar o Estado para manter o ganho daquela parcela que domina a máquina sem aparecer. É o comando central internacional do Estado de direito, digitalizado, operado à distância.

O perigo é maior de um golpe sem derrubada de governo e estamos vivendo isso agora, nesse exato momento no Brasil e no restante da América Latina. É o golpe feito através de chantagem, do aproveitamento de fraquezas do governo, da correlação de forças desfavorável no congresso e de um judiciário pernicioso, da crise econômica, que baixa o preço das commodities que garantem, com muitos problemas, a entrada de recursos em países periféricos como os da AL . Isso sem falar de uma imprensa suja, diretamente envolvida com os grandes grupos do capital, os famosos anunciantes e seus interesses.

Mas o que quer esse golpe?

O golpe quer a manutenção da situação tributária, fiscal e econômica que, mesmo com os grandes avanços nos índices de desigualdade da última década, privilegia uma parcela, bem pequena, da sociedade que continua acumulando muito, muito, dinheiro.

Mas só a corrupção é assunto, afinal, bastam “Homens Bons” tomarem (ou retomarem) o poder, que estaremos salvos.

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A História que estamos construindo

lapaA eleição nos mostrou que o PT não só cabe nas ruas, mas é de lá que ele vem. Somos frutos dos nosso passos, da nossas decisões e da nossa história. Nossa história é a história daqueles que lutam por uma vida melhor. Sempre foi, por mais tortos que sejam os nossos caminhos.

Nesse segundo turno a esquerda se uniu em torno da eleição da Dilma. São muito bem vindas(os) as(os) companheiras(os) de todas as organizações de esquerda, que fizeram ainda mais bonita a nossa vitória. Vieram também para trazer a rua de volta ao seio do Partido dos Trabalhadores. Estava em falta o suor, a risada, a bandeira hasteada. O vermelho.

Essa junção, essa energia, agora não pode ser desperdiçada. Esse período serviu para definir bem de que lado estão certas figuras da política nacional.

Agora, mais do que brigarmos entre nós mesmos, como sempre fizemos, é preciso mostrar a maturidade que soubemos exercer enfrentando os barões da mídia, as falcatruas, o jogo sujo. Não quer dizer que não jogamos o jogo também. Jogamos sabendo das regras, mas agora é preciso mudá-las.

Não é mais possível continuar impondo a mudança, caótica, desorganizada, mas mudança concreta na vida de milhões de pessoas, com essas regras, com esses aliados. É preciso novas regras para um novo jogo a ser jogado a partir da agora. É preciso saber quem está ao nosso lado.

O período promete.

E para enfrentar a promessa do próximo período, é preciso que nossos instrumentos, nossas armas estejam a postos. Nossos partidos não podem ser os mesmos partidos de ontem. Nossas palavras já não são as mesmas e precisam ser mais altas, mais claras e mais distantes.

Nossas vidas não cabem mais no senso comum. É preciso reinterpretá-las à luz dos novos atores, dos novos ares. Só nós podemos ser escritores de nossa própria história. Façamo-la juntos dos que sonham, dos que fazem arte, dos que desejam uma vida fora das amarras do mercado, que aprisiona mentes.

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A nossa Copa

Maracanã final da copa das confederaçõesEnfim ela chegou. Bate a nossa porta a Copa. A nossa Copa. Parece que demorou muito. Anos. 64 anos, para falar a verdade. A Copa que muitas pessoas, que curtem futebol, sempre sonharam em acompanhar de perto. A Copa no sagrado solo da terra do futebol.

E a Copa no Brasil, como não podia deixar de ser, não será só a Copa do futebol, mas já é a Copa da discussão política.

Deveria ser a nossa chance de mostrar para o mundo como se joga, se torce e se organiza o futebol no país do futebol. Poderia ter sido. Claro que não foi. Mas está sendo um momento de crescimento da política do país.

E é essa a discussão que está nas esquinas, nas ruas, nos bares (além das figurinhas, é claro – faltam 23 ainda, alguém? álbum completo). A discussão é se a Copa é boa ou é ruim para o país. Ninguém discute se o Brasil deveria jogar com 2 ou 3 atacantes. Se o Ramirez deve ser titular, ou o que faz o Hulk na ponta direita.

Claro que a Copa trouxe problemas e também trouxe investimentos em infraestrutura.

A discussão, no fundo, não é sobre a Copa. E o que se está discutindo, então, usando a copa como pano de fundo?

Não é o investimento em educação ou saúde. Qualquer pessoa razoavelmente informada sabe que são coisas distintas e que os investimentos em estádio não tiraram um centavo da saúde e da educação. Além é claro do enorme retorno financeiro que o país terá depois da Copa.

Não é também se nós vamos ou não passar vergonha. O mundo conhece o Brasil. Não precisamos repetir essa falácia da imagem. A imagem do Brasil nunca foi tão boa lá fora. Mesmo que a Economist tente, depois de encher a nossa bola, esvaziá-la por termos enfrentado alguns (poucos) interesses do grande capital.

A questão é, então, a construção de cidadania. As ruas são parte disso, mas não o todo. Ser contra ou a favor da copa é uma posição política. Se muitas vezes essa é uma posição rasa, baseada simplesmente se você apoia ou não o Gov. Federal, outras podemos ver um debate sério, que pretende apontar problemas reais da sociedade e aponta saídas e soluções (não acho que todo o debate sério deve apontar soluções, necessariamente). É o caso das remoções, das obras superfaturadas, das imposições da Fifa, falta de planejamento em algumas coisas, para dar alguns exemplos.

Uma coisa que me irrita, às vezes, é gente achando que a Copa deveria ser a solução para as nossas mazelas todas. Ora, não vamos resolver os problemas estruturais de 500 anos de construção de um país em 7 anos de preparação para uma festa.

Pois é isso que a Copa é. Uma festa e um negócio. Muitas festas, dessas que a galerinha frequenta por aí são a mesma coisa, salvo as devidas proporções, é claro. Faz-se a festa, ganha-se dinheiro, uma galera se diverte. Isso traz problemas com o vizinho, com a polícia…

Então, vamos ter Copa e já tivemos um crescimento político. Uma nova postura da sociedade vai se construindo aproveitando a Copa. Claro que não é só por causa da Copa ou das Olimpíadas que essa vontade, esse desejo, é construído. Mas os grandes eventos, que mexem com a vida das cidades, aceleram esses processos. Essa é a nossa grande vitória. E por isso, o resultado do jogo de 13 de julho, quem vai levantar a taça ou quem será o melhor jogador da competição, não fará nenhuma diferença na vida política do país, embora possa deixar muita gente alegre ou triste com o futebol. Mas é só futebol, e a maior vitória, nós já conquistamos.

Somos um jovem democracia buscando seu marco civilizatório, com a vantagem de poder olhar para o mundo e poder apontar acertos e erros em outros modelos de civilização. Temos um longo caminho pela frente, com muitos percalços, mas já demos alguns passos.

 

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Das ruas, dos palácios e da rede

Escrevi isso no calor das manifestações de junho. Queria dar a minha opinião. Mas não consegui dar a forma (e talvez nem o conteúdo) que queria.

Já tinha escrito que o motivo das movimentações das multidões ao redor do mundo era por conta da crise econômica, após um grande ciclo neoliberal que criou uma grande exclusão. As manifestações de junho no Brasil desmentem essa análise.

Enfim, vamos ao texto (iniciado em 22 de junho):

As ruas foram tomadas nesse últimos dias. Foi o preço da passagem, a centelha que faltava. Havia um sentimento, adormecido de que era preciso sair às ruas para dizer o que pensamos. E lá se foi a população brasileira, ou parte dela, para as ruas.

Ao contrário do que vive a Europa, com sua crise econômica, ou os países do mundo árabe, com suas ditaduras, a América Latina vive um período de expansão econômica. O que não justificaria uma luta por direitos. Não igual àquela luta dos excluídos do maravilhoso mundo do consumo. Não. Aqui, mais e mais pessoas foram incluídas nesse mundo. Então, por que foram às ruas protestar? Como fizeram isso, e como fizeram tão rápido?

A luta, que começa com manifestações por conta do aumento da passagem em SP, rapidamente começou a ser disputada por várias correntes, linhas e organizações de todo o espectro político nacional. Ganhou as manchetes e alguns bons minutos na TV aberta  e pronto. Virou um movimento, em parte, apoiado pela velha mídia. Ela via nisso uma oportunidade de desgaste (ou até mais) do governo.

Em 1968 as pessoas resolveram sonhar que era possível mudar o mundo por fora das rígidas estruturas partidárias da época. Se não mudaram o mundo, nem as estruturas partidárias da época, lançaram sementes que floresceram anos mais tarde. Não mudaram o mundo, mas mudaram tudo.

O PT é um bom exemplo disso. A partir de outras lutas, contra a ditadura, conseguiu-se montar um partido, que pudesse organizar a classe trabalhadora, mas com uma nova forma de organização. O PT era organizado, e foi construído, a partir de núcleos de base. Rompia então com a extrema verticalização dos partido comunistas e trazia para o centro do debate novos temas como a igualdade entre gêneros, racial, respeito a diversidade sexual etc., que já vinham sendo debatidos no período anterior a sua construção.

Assim, agregando novos valores à velhas utopias o partido cresceu. Com tropeços, conquistou parcelas da população que antes não o ouvia. Perdeu outras por não ouvir e não se fazer ouvir. Não havia mais diálogo entre as partes, pois essa relação só é mediada pela velha mídia.

Claro que nosso velho inimigo (o capital, com o seu velho aparato ideológico) não podia deixar barato. Alimentou o ódio entre as partes o quanto pode. Se deu certo por um lado, por outro a velha mídia, principalmente a globo, paga seu preço. Caro, e talvez  fatal.

É fácil perceber, em qualquer lugar, a capacidade da velha mídia em pautar o debate. Debate esse que ela nem sempre ganha, não mais consegue impor as suas opiniões, mas ainda diz sobre o que é preciso ter opinião. É só ver as votações do congresso nacional logo após a onda de manifestações.

Então se não é mais uma disputa entre as velhas organizações de esquerda e a velha mídia pelos corações e mentes da população, qual é a disputa?

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23/08/2013 · 16:32