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hasta siempre, comandante

img_20161126_104728Tomados pelo mais puro sentimento de consternação pela notícia da morte do comandante em chefe da mais bela experiência que a humanidade produziu por essas bandas, lamentamos o seu desaparecimento.
Pode ser que nada mude na nossa vida aqui, ou mesmo para as milhões de pessoas que dependem do estado cubano, mas a esquerda mundial perde um dos seus principais símbolos. O último grande personagem e líder do século XX.
Fidel representa aqueles que conseguiram impôr derrotas ao maior e mais poderoso império da história da humanidade. Impôs derrotas consideráveis à gerações de norte americanos (leio agora que foram 10 presidente e todos, ou quase todos, tentaram elimina-lo), mantendo viva a chama da esperança de que o mundo não precisa ser uma competição entre iguais pelos elementos mais básicos da vida como comida, moradia, vestimenta, diversão…
Cuba nos mostrou, e continua nos mostrando, que o mundo pode ser melhor. Os recursos, escassos no caso daquele país, são melhor distribuídos, garantindo a todos e todas uma existência digna diante de um mundo que mói sonhos e trucida vidas.
Cuba é a revolução possível. Não é a utopia realizada, o céu na terra ou o paraíso. Convive com problemas como qualquer outra comunidade, mas soube dar humanidade a esses problemas. Soube tratar com alegria sua dificuldades e nunca esmoreceu diante das enormes dificuldades que a história lhe imputou. Cuba resistirá, da sua forma, pois sua força está no seu povo aguerrido e batalhador, mesmo que a perda do seu principal líder lhe impute uma derrota, um abalo.
Fidel fará muita falta às gerações vindouras que não terão esse símbolo contra as diversas simbologias do mercado que nos resumem dioturnamente a consumidores.
A história já o absolveu, companheiro.
Hasta siempre, comandante

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Cuba, do século XX para o futuro

Cuba, hoje, parece um terra de oportunidades. Está se integrando ao mundo do século XXI sem ter passado pelos turbulentos anos 2000.

foto de carros antigos reformados em Cuba

Coches Viejos para pessoas Rosas

A impressão que temos de Cuba, mesmo que já seja uma imagem batida,  é que ela está parada no tempo. Talvez nos anos 1950 pré revolução, se, por exemplo, olharmos a frota de automóveis, que já viraram um símbolo da simpática ilha.  Esses automóveis são também um símbolo da Cuba contemporânea e expressam uma certa desigualdade do país. Vemos alguns deles reformados, como novos, impecáveis, brilhantes, coloridos, em grande parte conversíveis, voltados exclusivamente para o turismo de “alto consumo”. Normalmente europeus de meia idade ou norte americanos. As pessoas rosadas com chapéus panamá recém adquiridos nas novíssimas “tiendas” de Habana Vieja.

taxi com luz azul no interior

taxi com luz azul no interior

Há também, outros coches viejos, reformados, mas não tão brilhantes como os primeiros, que circulam  pelas ruas servindo de táxi  a turistas não tão abastados, não tão rosas e, talvez, sem chapéu. São, também, belas peças que traduzem a capacidade de superar dificuldades da população cu’ana (os cubanos falam como se tivessem um ovo na boca e engolem o “b” às vezes. Além disso falam rápido pra c…).

E há, por último, os carro que são velhos mesmo. Acabados, com a lataria amassada, com remendos aparentes, que servem de táxis coletivos para os cubanos e, na maioria das vezes, são pagos em pesos, ou moneda nacional não em CUCs. Porém, funcionam e cumprem sua função.

Os Coches são, assim, a personificação (?!) da Ilha. Divisões, há. Pero no mucho. É tudo velho, mas com alguma reforma. Assim como o segundo e o terceiro tipos de carros, os cu’anos são craques em se reinventar. Se inventam peças para os automóveis, também inventam formas de viver no aperto no mundo contemporâneo.

A própria existência e circulação de duas moedas, Pesos (moneda nacional) e Pesos Convertíveis (CUC), demonstra uma tentativa de equilibrar a crescente desigualdade gerada pelo turismo, ao mesmo tempo uma reinvenção do seu próprio dinheiro, em contraposição à circulação ilegais de dólares no país.

Bloqueo: el genocidio mas largo de la história

Bloqueo: el genocidio mas largo de la história

Foi assim que sobreviveu ao bloqueio que condenou a Ilha ao século XX, de onde ela tenta, agora, se reerguer.

E tenta se reerguer a partir da criatividade do seu povo.

Se não tem acesso à internet de qualidade ou aos meios pelos quais circulam os produtos comerciais da informação/comunicação/cultura dão um jeito de acessá-los. Conhecemos uma cubana de Santiago, que estava no congresso. Ela, professora da Faculdade de Comunicação da Universidade do Oriente (Santiago), nos explicou que paga 5 pesos, moeda nacional,  no paquete de 4Gb de informaciones duas vezes por semana. Assim, levando o seu próprio pendrive, que depois ela pluga direto na TV, tem acesso aos seriados norteamericanos, filmes de Hollywood e, claro, novela brasileira. Tudo já dublado para o castelhano.

A propriedade intelectual parece não valer muito por lá. Fato curioso aconteceu quando fui levar os slides da apresentação no congresso. Levei o pendrive com a apresentação para a secretaria e, por acaso, era o pendrive que estava no som do meu carro (aqui no Brasil) e, portanto, continha músicas, brasileiras, claro. O sujeito que recebia a apresentação não se fez de rogado. Com a lista de arquivos na tela do windows XP, perguntou logo quais delas eram Samba. Apontei logo um disco da Beth Carvalho e outro do Paulinho da Viola, que foram imediatamente copiados para a área de trabalho e já devem estar incorporados a algum paquete de informação (foi mal Warner, Sony, Globo ou qualquer outra proprietária dos direitos intelectuais desses e outros artistas, rsrs).

Mas somente o acesso aos bens de consumo cognitivos não faz país nenhum entrar no século XXI e Cuba tenta reinventar a sua própria economia. O aluguel de quartos para turistas, antes tolerados, agora são legalizados. É super comum, pelo menos em Havana, turistas ficarem em quartos “particulares”.  Já é possível ter alguns negócios, para além dos paladares (restaurantes familiares que foram os primeiros negócios legalizados na Ilha, ainda na década de 1990), e se isso representa algumas oportunidades, é também fator de desigualdade social.

Prédios reformados em Havana Velha

Prédios reformados em Havana Velha

Em outro momento, uma outra professora, esta de Havana mesmo, sentou ao nosso lado na mesa do almoço. Descobrimos depois que se tratava da responsável acadêmica do congresso. Ela, que depois estaria na mesa de encerramento do congresso, assim como os demais palestrantes, almoçavam junto com todos os participantes em pé de igualdade. Mais uma lição de Cuba: sem VIPs. Ela nos contou que existem hoje pessoas milionárias em Cuba, que possuem extensões (não sei precisar o tamanho) de terra, produzem alimentos, como carne de porco, por exemplo, e com isso conseguem acumular bastante riqueza.

Outros negócios prosperam também. Esses novos negócios, ligados ou não ao turismo, poderiam ser organizados de forma a se criar uma nova economia, baseada no bem comum, na socialização de recursos, na construção coletiva de alternativas. Mas isso não parece acontecer.

Preparação de mojitos em La B del M

Preparação de mojitos em La B del M

A resistência aos modelos de acumulação parecem vir mesmo do governo. Dessa forma, para tentar frear essa onda de desigualdade, onde as pessoas que trabalham com turismo tem a possibilidade de ganhar muito mais dinheiro que os demais trabalhadores,  o governo criou um empresa que participa dos principais empreendimentos comerciais voltados ao turismo como forma de garantir uma melhor distribuição da renda que entra por essa atividade comercial, que é a principal na Ilha. Pelo menos foi isso que entendemos da explicação que nos deu um garçom em um dos restaurantes que possuía o selo  Habaguanex  (Se algum dos meus 6 leitores tiver mais informações sobre isso, pode me corrigir em um comentário que faço as alterações no texto.).

Essa impressão, sobre a distribuição da renda do turismo que entra na Ilha agora, também tivemos em conversa com pesquisadores da área da saúde, já conhecidos de longa data e com passagem por diversos países. Eles tiveram o salário dobrado nos últimos anos, passando, agora, a 100 dólares/mês. Muito pouco e ainda não suficiente para uma vida próspera. Tanto é que seus dois filhos, médicos, saíram do país em busca de melhores condições. Do casal, enquanto ele parecia ter uma visão mais otimista do processo de abertura, ela nos pareceu mais pessimista. Talvez por ter os dois filhos longe.

 

Velhos cubanos dando um jeitinho na antena

Velhos cubanos dando um jeitinho na antena

Por essas e por outras que Cuba parece uma terra de oportunidades. Terra onde se pode construir um acesso à internet que não seja comercial, mas cidadão a partir de ferramentas coletivas, construídas não a partir da apropriação do conhecimento, mas a partir de um conhecimento coletivo gerando novos valores. Ao invés de usar ferramentas proprietárias para o acesso à internet, Cuba poderia desenvolver e distribuir ferramentas livres. Essa seria uma boa maneira de integrar seus jovens, ávidos por adentrarem no maravilhoso mundo digital, sem dá-los de bandeja aos comedores de mentes do Google, do Facebook ou da Apple.

Essa pirataria, a qual Cuba esteve presa ao longo desses anos, aos poucos está transformando os modelos de negócios de forma que o consumidor tenha acesso aos bens cognitivos, mas não precisa mais desembolsar grandes quantias de dinheiro. É o tal do streaming, que explora ainda mais o trabalho de artistas se apropriando do valor gerado por suas produções.

O que vemos nas ruas, em determinados pontos, é uma grande quantidade de pessoas portando aparelhos (smartphones, tablets, computadores) buscando a precária e cara rede wifi da companhia telefônica. Esses aparelhos são, na maior parte das vezes, proprietários e os acessos, em geral, são ao Facebook, Twitter e Imo.

Como, ao contrário dos outros países, Cuba não estava integrada à rede no período de desenvolvimento dessas ferramentas, podemos dizer que não está contaminada pela produção mercadológica dos bens cognitivos. Nós, ao contrários, vimos essas empresas serem criadas e fomos absorvidos aos poucos. Cuba ainda pode se integrar, sem passar por essa disputa. Acredito.

Meninos jogam futebol em praça de Havana

Meninos jogam futebol em praça de Havana

As marcas, o imaginário, o pertencimento e a subjetividade do capital já parece fazer parte do país. Não a toa afloram camisas de times de futebol europeus, principalmente o Barcelona, que parece contaminar a todos no mundo inteiro. O futebol parece ter chegado firme, inclusive. Em todas as praças podemos ver garotos improvisando gols para uma boa pelada. Até fiquei com vontade de participar, mas a correria de poucos dias na cidade não me permitiu arriscar.

Assim vemos Cuba ingressar no século XXI gerando preocupações de esperanças. Preocupações de que as conquistas de um povo massacrado pelo mais longo bloqueio da história, baseadas na solidariedade e na criatividade, sejam absorvidas pelo modo de vida padronizado do consumismo capitalista. Porém, pelo seu histórico, Cuba pode nos surpreender e apresentar uma forma ainda solidária e comum de ingressar no maravilhoso mundo novo da informação e tecnologia em que vivemos. A ver os próximos capítulos.

 

Mais fotos em https://goo.gl/photos/zHMAj3tepCWdQ3Un9

 

 

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O governo dos Homens Bons

Há uma crença, uma certa verdade, na sociedade, de que bastariam “Homens Bons ” terem acesso ao poder, não importa bem como, se por eleições democrática, luta armada,  greve geral, golpe etc., que a vida seria diferente. O Estado, enfim, funcionaria, gerando oportunidade a todo mundo. As coisas não mudam, então, porque os “Homens Bons ” não chegaram ao poder.

E digo “Homens” porque, infelizmente, foram os homens e não esses junto com as mulheres que dominaram a política do século passado. Esses grandes homens, “Bons” acima de tudo, são idôneos e incorruptíveis. Devolvem a diária não usada. Se alguém embolsa a diária, é corrupto.

Ora, os governantes não vieram do Olimpo para governarem a terra. Estão imersos na mesma cultura dos demais. Daqueles que sonegam, que roubam, que não devolvem a diária, mas fazem dela parte dos seus ganhos. Afinal, isso é justo e corrupto são os outros (ironia).

A mudança da cultura é também a mudança das estruturas de poder. Esperar algo de seres iluminados acima do bem e do mal, está mais para religião do que para política.

Essa é a realidade de diversos países. As influências de forças (não tão) ocultas nos sistemas de poder, requer de nós, mais, bem mais do que “bons homens” para mudar a nossa realidade.

É o que diz o Lessig, que se lançou candidato a presidente dos EUA com a plataforma de proibir o financiamento privado.

O mesmo acontece aqui. A corrupção ligada ao sistema eleitoral impede que “bons governos”, comprometidos com causas sociais, ou até mesmo os regulares, preocupados antes com suas imagens, e por isso capazes de prover algum ganho para a população, façam algo para mudar a realidade de milhões de pessoas que passam por necessidades. Esse mecanismo é o financiamento privado de campanha, que está mais para investimento que as empresas fazem em candidatos que lhes garantirão benesses no futuro.

Porém, há uma parcela, muito maior, de perda dos recursos públicos, que não é comentada. Ou é pouco comentada.

https://www.facebook.com/plugins/video.php?href=https%3A%2F%2Fwww.facebook.com%2Fgleisi.hoffmann%2Fvideos%2F484348658409059%2F&show_text=0&width=400

Bom, se dentro da parte ilícita do desvio da riqueza, a evasão fiscal em forma de sonegação representa 80% de tudo que o país perde, enquanto a corrupção responde por 20%, por que se fala tanto em corrupção e tão pouco em reforma tributária?

A resposta é poder. A mídia tem poder, não é o 4º, mas tem muito. Constrói a imagem, cria fatos, destrói reputações, ajuda na construção de valores. A justiça é um poder. O martelo que condena o ladrão de galinhas não condena o grande sonegador. As empresas têm poder, principalmente as multinacionais. O Capital Financeiro é um poder que pode paralisar uma nação no mundo ultraconectado e de economias dependentes da entrada de capital. É um jogo complexo.

Mas, muito mais nocivo que o dinheiro desviado diretamente de forma ilícita, é a riqueza que foge do seu objetivo de forma lícita. Isso acontece através de leis de propriedade intelectual, de contratos secretos, de acordos de livre comércio, como estão fazendo agora os países do pacífico. Há um caminho para a concentração cada vez maior de riquezas nas mãos de poucos. Esse caminho é legal e visível.

Assim funciona o Estado, aqui ou na China. Tá bom, na China a gente não sabe direito, mas sabe do mundo ocidental. E, em maior ou menor grau, isso ocorre nas chamadas democracias.

Quando há alguma incompatibilidade de quem está sentado(a) na cadeira de governante com esse sistema, mesmo que pontualmente, mesmo que não atinja o centro dessa política de acumulação, há a necessidade de afastá-lo(a).

Aí entra o discurso da corrupção e dos “Homens Bons ” capazes de promover o bem. O golpe do bem, então, está montado. Aproveita-se de uma fragilidade do governante para impor uma agenda capaz de sequestrar o Estado para manter o ganho daquela parcela que domina a máquina sem aparecer. É o comando central internacional do Estado de direito, digitalizado, operado à distância.

O perigo é maior de um golpe sem derrubada de governo e estamos vivendo isso agora, nesse exato momento no Brasil e no restante da América Latina. É o golpe feito através de chantagem, do aproveitamento de fraquezas do governo, da correlação de forças desfavorável no congresso e de um judiciário pernicioso, da crise econômica, que baixa o preço das commodities que garantem, com muitos problemas, a entrada de recursos em países periféricos como os da AL . Isso sem falar de uma imprensa suja, diretamente envolvida com os grandes grupos do capital, os famosos anunciantes e seus interesses.

Mas o que quer esse golpe?

O golpe quer a manutenção da situação tributária, fiscal e econômica que, mesmo com os grandes avanços nos índices de desigualdade da última década, privilegia uma parcela, bem pequena, da sociedade que continua acumulando muito, muito, dinheiro.

Mas só a corrupção é assunto, afinal, bastam “Homens Bons” tomarem (ou retomarem) o poder, que estaremos salvos.

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Não soubemos ver você

Galeano – imagem “roubartilhada” do Facebook da Secretaria Geral da Presidência da República

No ano de 2009, no atrio do convento de Mani de Iucatã, quarenta e dois frades fransciscanos cumpriram uma cerimônia de desagravo à cultura indígena:

Pedimos perdão ao povo maia, por não haver entendido sua cosmovisão, sua religião, por negar suas divindades; por não ter respeitado sua cultura, por haver imposto durante muitos séculos uma religião que não entendiam, por haver satanizado suas práticas religiosas, e por haver dito e escrito que eram obra do Demônio e que seus ídolos eram o próprio Satanás materializado.

Quatro séculos e meio antes, naquele mesmo lugar, outro frade fransciscano, Diego de Landa, havia queimado os livros maias, que guardavam oito séculos de memória coletiva.

Eduardo Galeano, Os Filhos dos dias, p 127 (dia 13 de abril)

E nesse dia, em 2015, se foi Galeano. Se foi sua figura, sua pessoa. Sua obra fica. Fica como memória coletiva, artisticamente gravada na história da nossa tão amada América Latina. Fica como lição de que o certo, de que a luta, de que a vida pode ser doce como seus textos, mesmo que dura e amarga, como é a luta e vida em certos momentos.

Fica a obra daquele que trouxe o respeito, a reparação, a beleza da criança que brinca, da poesia em forma de vida. Trouxe o sonho, em forma de prosa, e trouxe a sensibilidade à visão do mundo. Galeano ousou sonhar um mundo diferente, coletivamente, expresso em um texto na biblioteca de alternativas do Fórum Social Mundial. Aquele que é a memória coletiva das lutas do século que, ainda, se inicia.

Reproduzo, então, o texto que colocou em contato mais próximo desse autor que tanto apreciamos e que tanto nos apreciou.

Sim, soubemos ver você, Galeano, assim como soubestes ver a beleza da vida nos dias cinzas em que vivemos.

Um convite ao vôo

Que tal começarmos a exercer o jamais proclamado direito de sonhar?

Que tal delirarmos um pouquinho? Vamos fixar o olhar num ponto além da infâmia para adivinhar outro mundo possível

Eduardo Galeano*

Milênio vai, milênio vem, a ocasião é propícia para que os oradores de inflamado verbo discursem sobre os destinos da humanidade e para que os porta-vozes da ira de Deus anunciem o fim do mundo e o aniquilamento geral, enquanto o tempo, de boca fechada, continua sua caminhada ao longo da eternidade e do mistério.

Verdade seja dita, não há quem resista: numa data assim, por mais arbitrária que seja, qualquer um sente a tentação de perguntar-se como será o tempo que será. E vá-se lá saber como será. Temos uma única certeza: no século vinte e um, se ainda estivermos aqui, todos nós seremos gente do século passado e, pior ainda, do milênio passado.

Embora não possamos adivinhar o tempo que será, temos, sim, o direito de imaginar o que queremos que seja. Em 1948 e em 1976, as Nações Unidas proclamaram extensas listas de direitos humanos, mas a imensa maioria da humanidade só tem o direito de ver, ouvir e calar. Que tal começarmos a exercer o jamais proclamado direito de sonhar? Que tal delirarmos um pouquinho? Vamos fixar o olhar num ponto além da infâmia para adivinhar outro mundo possível:

o ar estará livre do veneno que não vier dos medos humanos e das humanas paixões;

nas ruas, os automóveis serão esmagados pelos cães;

as pessoas não serão dirigidas pelos automóveis, nem programadas pelo computador, nem compradas pelo supermercado e nem olhadas pelo televisor;

o televisor deixará de ser o membro mais importante da família e será tratado como o ferro de passar e a máquina de lavar roupa;

as pessoas trabalharão para viver, ao invés de viver para trabalhar;

será incorporado aos códigos penais o delito da estupidez, cometido por aqueles que vivem para ter e para ganhar, ao invés de viver apenas por viver, como canta o pássaro sem saber que canta e brinca a criança sem saber que brinca;

em nenhum país serão presos os jovens que se negarem a prestar o serviço militar, mas irão para a cadeia os que desejarem prestá-lo;

os economistas não chamarão nível de vida ao nível de consumo, nem chamarão qualidade de vida à qualidade de coisas;

os cozinheiros não acreditarão que as lagostas gostam de ser fervidas vivas;

os historiadores não acreditarão que os países gostam de ser invadidos;

os políticos não acreditarão que os pobres gostam de comer promessas;

ninguém acreditará que a solenidade é uma virtude e ninguém levará a sério aquele que não for capaz de deixar de ser sério;

a morte e o dinheiro perderão seus mágicos poderes e nem por falecimento nem por fortuna o canalha será formado em virtuoso cavaleiro;

ninguém será considerado herói ou pascácio por fazer o que acha justo em lugar de fazer o que mais lhe convém;

o mundo já não estará em guerra contra os pobres, mas contra a pobreza, e a indústria militar não terá outro remédio senão declarar-se em falência;

a comida não será uma mercadoria e nem a comunicação um negócio, porque a comida e a comunicação são direitos humanos;

ninguém morrerá de fome, porque ninguém morrerá de indigestão;

os meninos de rua não serão tratados como lixo, porque não haverá meninos de rua;

os meninos ricos não serão tratados como se fossem dinheiro, porque não haverá meninos ricos;

a educação não será um privilégio de quem possa pagá-la;

a polícia não será o terror de quem não possa comprá-la;

a justiça e a liberdade, irmãs siamesas condenadas a viver separadas, tornarão a se unir, bem juntinhas, ombro contra ombro;

uma mulher, negra, será presidente do Brasil, e outra mulher, negra, será presidente dos Estados Unidos da América; e uma mulher índia governará a Guatemala e outra o Peru;

na Argentina, as loucas da Praça de Maio serão um exemplo de saúde mental, porque se negaram a esquecer nos tempos da amnésia obrigatória;

a Santa Madre Igreja corrigirá os erros das tábuas de Moisés e o sexto mandamento ordenará que se festeje o corpo;

a Igreja também ditará outro mandamento, do qual Deus se esqueceu: “Amarás a natureza, da qual fazes parte” .

serão reflorestados os desertos do mundo e os desertos da alma;

os desesperados serão esperados e os perdidos serão encontrados, porque eles são os que se desesperam de tanto esperar e os que se perderam de tanto procurar;

seremos compatriotas e contemporâneos de todos os que tenham aspiração de justiça e aspiração de beleza, tenham nascido onde tenham nascido e tenham vivido quando tenham vivido, sem que importem nem um pouco as fronteiras do mapa ou do tempo;

a perfeição continuará sendo um aborrecido privilégio dos deuses; mas neste mundo confuso e fastidioso, cada noite será vivida como se fosse a última e cada dia como se fosse o primeiro.

* Eduardo Galeano é jornalista e escritor, entre outros, de O Século do Vento, As Caras e as Máscaras, Os Nascimentos, O Futebol ao sol e à sombra, O Livro dos Abraços, Dias e noites de amor e de guerra e As Veias abertas da América Latina.

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A nova política é diferente

É impressionante que, em pleno século XXI, a gente ainda faça uma discussão política pré-eleitoral baseada em slogans e palavras de ordem vazias. A eleição parece uma competição para quem lança a palavra de ordem mais original, quem passa a imagem de ser melhor preparado e jogar melhor o jogo da marquetagem.

É impressionante também o tamanho da discussão em torno da religião. Gente, essa coisa de divisão da igreja e do Estado é antiga pacas, para usar uma expressão quase tão antiga.

Sei que há muito de emocional no voto, mas, dada a conjuntura internacional, não podemos mais nos dar esse direito. Digo isso, porque vivemos um período de extrema concentração de recursos no mundo todo. Não sou eu quem diz isso, é a ONU, aqui. Então num mundo que acabou (será?) de viver sob a hegemonia dos EUA a partir do que ficou conhecido por Consenso de Washington, parece, agora, apresentar alguma mudança a partir do início do século.

Por isso podemos afirmar que o que há de mais novo no cenário internacional não é o capitalismo verde, nem a terceira via européia, nem o movimento antiglobalização, ou a sua versão mais moderna, ou as primaveras, os Black blocs, os coletivos anarquistas etc. onde o indivíduo toma uma espaço gigante na construção de narrativas.

O que tem de mais novo na conjuntura internacional, e que é capaz de atormentar o centro do poder mundial é o que vemos hoje na América Latina, principalmente no Brasil. Não pensem que fazer o que se tem feito nessa região é fácil. Vai na contramão do status quo e mira a principal mazela do mundo globalizado: a exclusão de milhões de pessoas da vida quotidiana, desde a produção até o consumo, não só de supérfluos, mas do essencial à vida. Essa exclusão é necessária ao sistema para que se garanta os ganhos de quem manda.

Por mais que pareça pouco, eu realmente não quero retroceder nessas conquistas e muito me preocupa o próximo período.

Quero encarar o difícil desafio da mudança, com seus atropelos e avanços.  Não dá para ficar somente afirmando e reafirmando belas posições e belas palavras de ordem. Os desafios do nosso tempo são gigantes, assim como sempre foi a luta dos trabalhadores contra a exploração. Quero tê-los em meu horizonte e, principalmente, tê-los no milhões de quilômetros já percorridos dessa luta.

 

PS: o Azenha, com muito mais competência traça o panorama internacional e o papel da América do Sul nele a que me refiro, aqui

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Assaltantes de lojinhas do mundo, uni-vos!

por Slavoj Zižek, London Review of Books, vol. 33, n, 16

Tradução do Coletivo da Vila Vudu

A repetição, segundo Hegel, tem papel crucial na história: se alguma coisa acontece uma única vez, pode ser descartada como acidente, algo que poderia ter sido evitado se a situação tivesse sido conduzida de modo diferente; mas quando um mesmo evento repete-se, é sinal de que está em curso um processo histórico mais profundo. Quando Napoleão foi derrotado em Leipzig em 1813, pareceu má sorte; quando foi derrotado outra vez em Waterloo, ficou claro que seu tempo acabara. Vale o mesmo para a continuada crise financeira. Setembro de 2008 foi apresentado como anomalia que podia ser corrigida com melhores regulações e controles; hoje se acumulam sinais de quebradeira nas finanças e já é evidente que estamos lidando com fenômeno estrutural.

Dizem e repetem e repetem que atravessamos uma crise da dívida e que todos temos de partilhar a carga e apertar os cintos. Todos, exceto os (muito) ricos. Aumentar impostos sobre muito ricos é tabu: se se fizer isso, diz o mesmo argumento, os ricos não terão incentivo para investir, haverá menos empregos e todos sofreremos mais. A única salvação, nesses tempos duros, é os pobres ficarem cada vez mais pobres e os ricos cada vez mais ricos. O que devem fazer os pobres? O que podem fazer? Continuar lendo

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50 anos Anistia internacional

via Smelly Cat

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