Arquivo da categoria: poesia

Tempo

Peço-te que ande de vagar
mas que vá longe
 
Que não traga muitas pedras
mas que seu caminho
também não seja de todo liso,
pois é preciso estar atento.
As rugas são, também, importantes.
 
Peço que tenha cores no nosso caminhar
mas, que com suas luzes, não ilumines tudo
pois sombras são importantes
para manter algum mistério
 
Peço que o fim seja breve, mas distante

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Nise, o coração da esperança

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O filme Nise, o coração da loucura traz a humanidade de volta para o debate, por ser exatamente essa a luta de figura tão importante para o país. Essa personagem fantástica da nossa história já merecia uma homenagem assim, principalmente por levar a humanidade para onde mais se precisava dela. Num lugar onde os pacientes não eram mais considerados humanos, ela trouxe carinho. Tratou-os com afeto e descobriu dentro de cada uma e cada um, não o artista que todas e todos trazemos dentro do nosso “engenho de dentro”, mas as pessoas, as almas que ainda estavam escondidas dentro daqueles corpos abandonados naquele depósito orgânico.
Encarou o poder constituído naquele espaço, enfrentou paradigmas e preconceitos enraizados naqueles médicos, para quem a cura significa o adestramento, o enquadramento a uma sociedade que oprime e não liberta. Nise trouxe a liberdade.
O momento em que o filme ilumina as telas, contando essa bela história, talvez seja o momento em que estejamos mais precisando de humanidade. E isso veio, não por acaso, justamente de uma mulher, que mostrou toda a sua força para combater os piores poderes dentro daquela instituição, comandadas por homens brancos. Nise trouxe toda a compreensão de que a vida é muito mais do que resultado. Em certo momento, acredito que da história dela, real, e não só do filme, ela discute com um dos diretores do hospital em relação à cura dos pacientes. Ela, nesse momento, se coloca como capaz de resgatar a vida daqueles corpos que haviam sido abandonados pela medicina, que buscava apenas anulá-los, para que não atrapalhassem a vida dos outros. Ela os trouxe de volta.
E como ver esse filme e não lembrar das pessoas que mantém esse sonho vivo? Do belo trabalho do museu do inconsciente que dá continuidade ao sonho de Nise. Pelo pouco que convivi com esse trabalho, posso dizer que seu sonho está muito vivo naquele espaço.
A arte é também expressão do inconsciente, ou daquilo que também se chama alma. O mundo precisa de novas Nises.

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Vai ter luta

 

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Das formas de se construir a beleza no mundo
Escolhemos a luta
Escolhemos a construção de coletividades
Nossa arte é a rua cheia, multi colorida, multi tudo
Nossa vida é o caminhar eterno da esperança
Caminhamos por onde muito sangue já escorreu
Muitas vidas ficaram, entregues integralmente à luta,
derrubadas nessas pedras
Para que outras vidas pudessem florescer
regadas no nosso sangue, que é vermelho

E nossa indignação é total
Caminhamos em mundo cinza e queremos colori-lo
Vestimos nossas camisas e trazemos nossas bandeiras
E não vamos admitir que os donos de sempre do mundo
venham nos desfazer da esperança
Somos muitos e somos fortes
Não há mais como voltar atrás
Vai ter luta.

Agora, num rastilho de pólvora
que ira explodir um país
somos os que se desfazem dos medos e diferenças
somos irmãos abraçados nas calçadas
chorando nossos mortos e apontando para o céu
onde mais um anjo sobe no lento soluçar das asas de uma borboleta.

Os atores ainda são os mesmos, mas os caminhos são outros
somos os mesmos que derrubaram prédios e tomaram palácios
mas não temos mais palácios a tomar
temos histórias para contar
e a História para construir

O sangue dos nossos antepassados regou a semente
e os de sempre querem pisotear o broto da democracia
não. Não passarão sobre nossas flores.
Caminharemos unidos.

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Dinossauros de metal

Enquanto dinossauros de metal comem mercadorias que viajam em tartarugas gigantes que nadam de costas, hemácias humanas viajam sobre artérias ferroviárias para levar seu próprio sangue pra alimentar as células do sistema.

Mal sabem elas que estão alimentando os próprios carrascos que irão lhe arrancar a pele. Reproduzindo um mundo que já não mais lhes pertence.

Andamos na lama, fechamos escolas, destruímos a nossa casa, atiramos uns nos outros. Sequer sabemos os nossos nomes. Tiramos tudo daqueles que não tem nada.

Derramamos em vão nosso sangue que já não irá alimentar nada. Nem asfalto nem petróleo.

De dentro da caixa de vidro, os donos não escutam nossos gritos, nossa dor. Seu mármore, branco, não está sujos de sangue, ainda. Mas um dia ele poderá apertar a mão do filho morto numa guerra que ele mesmo criou.

Aí já será tarde. Já não haverá mais volta no mundo que ele mesmo criou.

Não haverá mais rio nem dança. Café nem cerveja. Não haverão mais crianças fazendo rodas. Ou jogando bola. E nem mãos que apertar.

Pois, assim caminha a humanidade.

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O mundo, esse triste estar

O poeta canta o mundo
como a criança brinca,
e o pássaro voa.

Hoje o pássaro voou,
mas a criança não brincou,
e o mundo anda tão caduco
que o poeta não canta mais,
não se encanta,
mas chora.
Derrama suas lágrimas
de triste cantador, nas areias do mundo.
soluça palavras que não tem leveza.

Uma criança morta, estendida sobre a areia
nó na garganta e vidas destruídas,
em longas caminhadas em busca de paz
fogem da guerra e,
formigas nas fronteiras,
atacam as toalhas quadriculadas dos senhores do mundo.

No alto dos edifícios, decidem, os homens,
que as formigas continuarão morrendo na borda
para que os picnics sejam cada vez melhores,
e cada vez para menos gente

Mais e mais formigas irão se amontoar
e buscarão, em vão, as migalhas das cestas
o açúcar que derramou.

Menos homens irão decidir sobre mais lugares
e sobre mais vidas.
Não cuidam delas.
Elas não valem.
Valem menos que a mancha negra que incendeia corações e almas
em busca da vã felicidade do possuir,
ou do parecer, tanto faz.

Não são mais humanos esses homens,
pois não se parecem mais com aqueles seres,
agora mulheres, homens e crianças, sobre cuja vida têm controle
não são mais a mesma espécie e não vivem mais no mesmo planeta.
os mundos não são os mesmos.

Mesmo que o nó na garganta não sare, a vida passa.
O tempo é senhor da vida.
Irá apaziguar a dor e esmaecer a esperança.
Aí, quando somente a cicatriz desse nó existir,
outros nós, em muitas outras gargantas
irão aparecer.

Nossa vida será de cicatrizes. Feridas abertas e cicatrizadas.
Pois é preciso cicatrizar as feridas da vida para que possamos caminhar.
E caminhando fazemos a vida.
construímos pontes e igrejas,
carros e bicicletas.

A mesma humanidade, capaz de construir vidas, de fazer escolas e chafarizes
é capaz de destruí-las.
É capaz de deixar a vida acabar, tão jovem
numa praia
ou numa quebrada, ali na esquina.
Ou na rua mesmo.
o Mal não tem pudor.

A vida, felizmente, não é bem ou mal, é vida.
é cicatriz e ferida
amor e ódio
violência e paz
petróleo e sangue.

Mas não é a economia dos engravatados
que deveria decidir sobre vidas e territórios,
a vida e os territórios que deveriam fazê-lo.
Decidir se comeremos maçãs ou bananas
se a terra nos dará comida ou óleo
as frutas são a poesia da natureza
o óleo, seu dejeto

O poeta vê o mundo e ri
ri do que canta sobre o mundo e se espanta.
o mundo não deveria ser, mas é.
Outras crianças irão brincar e outras, muitas outras, irão ver o mundo por baixo
junto ao solo
sentido o gosto, amargo, do chão que todos pisam.
O pássaro irá voar
e o poeta não terá mais onde, nem como, descansar.

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Ode(io)aocomum

Não sou comum
pois não tenho senso
Não repito e não sinto, o comum

Sou mais e sou outro
Sou diferente

E, quadrado que sou,
Não me encaixo em nenhum círculo

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Tempo

O tempo é Areia caindo
Volta sobre volta
Rachadura e Cicatriz
Ferrugem

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