O governo dos Homens Bons

Há uma crença, uma certa verdade, na sociedade, de que bastariam “Homens Bons ” terem acesso ao poder, não importa bem como, se por eleições democrática, luta armada,  greve geral, golpe etc., que a vida seria diferente. O Estado, enfim, funcionaria, gerando oportunidade a todo mundo. As coisas não mudam, então, porque os “Homens Bons ” não chegaram ao poder.

E digo “Homens” porque, infelizmente, foram os homens e não esses junto com as mulheres que dominaram a política do século passado. Esses grandes homens, “Bons” acima de tudo, são idôneos e incorruptíveis. Devolvem a diária não usada. Se alguém embolsa a diária, é corrupto.

Ora, os governantes não vieram do Olimpo para governarem a terra. Estão imersos na mesma cultura dos demais. Daqueles que sonegam, que roubam, que não devolvem a diária, mas fazem dela parte dos seus ganhos. Afinal, isso é justo e corrupto são os outros (ironia).

A mudança da cultura é também a mudança das estruturas de poder. Esperar algo de seres iluminados acima do bem e do mal, está mais para religião do que para política.

Essa é a realidade de diversos países. As influências de forças (não tão) ocultas nos sistemas de poder, requer de nós, mais, bem mais do que “bons homens” para mudar a nossa realidade.

É o que diz o Lessig, que se lançou candidato a presidente dos EUA com a plataforma de proibir o financiamento privado.

O mesmo acontece aqui. A corrupção ligada ao sistema eleitoral impede que “bons governos”, comprometidos com causas sociais, ou até mesmo os regulares, preocupados antes com suas imagens, e por isso capazes de prover algum ganho para a população, façam algo para mudar a realidade de milhões de pessoas que passam por necessidades. Esse mecanismo é o financiamento privado de campanha, que está mais para investimento que as empresas fazem em candidatos que lhes garantirão benesses no futuro.

Porém, há uma parcela, muito maior, de perda dos recursos públicos, que não é comentada. Ou é pouco comentada.

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Bom, se dentro da parte ilícita do desvio da riqueza, a evasão fiscal em forma de sonegação representa 80% de tudo que o país perde, enquanto a corrupção responde por 20%, por que se fala tanto em corrupção e tão pouco em reforma tributária?

A resposta é poder. A mídia tem poder, não é o 4º, mas tem muito. Constrói a imagem, cria fatos, destrói reputações, ajuda na construção de valores. A justiça é um poder. O martelo que condena o ladrão de galinhas não condena o grande sonegador. As empresas têm poder, principalmente as multinacionais. O Capital Financeiro é um poder que pode paralisar uma nação no mundo ultraconectado e de economias dependentes da entrada de capital. É um jogo complexo.

Mas, muito mais nocivo que o dinheiro desviado diretamente de forma ilícita, é a riqueza que foge do seu objetivo de forma lícita. Isso acontece através de leis de propriedade intelectual, de contratos secretos, de acordos de livre comércio, como estão fazendo agora os países do pacífico. Há um caminho para a concentração cada vez maior de riquezas nas mãos de poucos. Esse caminho é legal e visível.

Assim funciona o Estado, aqui ou na China. Tá bom, na China a gente não sabe direito, mas sabe do mundo ocidental. E, em maior ou menor grau, isso ocorre nas chamadas democracias.

Quando há alguma incompatibilidade de quem está sentado(a) na cadeira de governante com esse sistema, mesmo que pontualmente, mesmo que não atinja o centro dessa política de acumulação, há a necessidade de afastá-lo(a).

Aí entra o discurso da corrupção e dos “Homens Bons ” capazes de promover o bem. O golpe do bem, então, está montado. Aproveita-se de uma fragilidade do governante para impor uma agenda capaz de sequestrar o Estado para manter o ganho daquela parcela que domina a máquina sem aparecer. É o comando central internacional do Estado de direito, digitalizado, operado à distância.

O perigo é maior de um golpe sem derrubada de governo e estamos vivendo isso agora, nesse exato momento no Brasil e no restante da América Latina. É o golpe feito através de chantagem, do aproveitamento de fraquezas do governo, da correlação de forças desfavorável no congresso e de um judiciário pernicioso, da crise econômica, que baixa o preço das commodities que garantem, com muitos problemas, a entrada de recursos em países periféricos como os da AL . Isso sem falar de uma imprensa suja, diretamente envolvida com os grandes grupos do capital, os famosos anunciantes e seus interesses.

Mas o que quer esse golpe?

O golpe quer a manutenção da situação tributária, fiscal e econômica que, mesmo com os grandes avanços nos índices de desigualdade da última década, privilegia uma parcela, bem pequena, da sociedade que continua acumulando muito, muito, dinheiro.

Mas só a corrupção é assunto, afinal, bastam “Homens Bons” tomarem (ou retomarem) o poder, que estaremos salvos.

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