O mundo, esse triste estar

O poeta canta o mundo
como a criança brinca,
e o pássaro voa.

Hoje o pássaro voou,
mas a criança não brincou,
e o mundo anda tão caduco
que o poeta não canta mais,
não se encanta,
mas chora.
Derrama suas lágrimas
de triste cantador, nas areias do mundo.
soluça palavras que não tem leveza.

Uma criança morta, estendida sobre a areia
nó na garganta e vidas destruídas,
em longas caminhadas em busca de paz
fogem da guerra e,
formigas nas fronteiras,
atacam as toalhas quadriculadas dos senhores do mundo.

No alto dos edifícios, decidem, os homens,
que as formigas continuarão morrendo na borda
para que os picnics sejam cada vez melhores,
e cada vez para menos gente

Mais e mais formigas irão se amontoar
e buscarão, em vão, as migalhas das cestas
o açúcar que derramou.

Menos homens irão decidir sobre mais lugares
e sobre mais vidas.
Não cuidam delas.
Elas não valem.
Valem menos que a mancha negra que incendeia corações e almas
em busca da vã felicidade do possuir,
ou do parecer, tanto faz.

Não são mais humanos esses homens,
pois não se parecem mais com aqueles seres,
agora mulheres, homens e crianças, sobre cuja vida têm controle
não são mais a mesma espécie e não vivem mais no mesmo planeta.
os mundos não são os mesmos.

Mesmo que o nó na garganta não sare, a vida passa.
O tempo é senhor da vida.
Irá apaziguar a dor e esmaecer a esperança.
Aí, quando somente a cicatriz desse nó existir,
outros nós, em muitas outras gargantas
irão aparecer.

Nossa vida será de cicatrizes. Feridas abertas e cicatrizadas.
Pois é preciso cicatrizar as feridas da vida para que possamos caminhar.
E caminhando fazemos a vida.
construímos pontes e igrejas,
carros e bicicletas.

A mesma humanidade, capaz de construir vidas, de fazer escolas e chafarizes
é capaz de destruí-las.
É capaz de deixar a vida acabar, tão jovem
numa praia
ou numa quebrada, ali na esquina.
Ou na rua mesmo.
o Mal não tem pudor.

A vida, felizmente, não é bem ou mal, é vida.
é cicatriz e ferida
amor e ódio
violência e paz
petróleo e sangue.

Mas não é a economia dos engravatados
que deveria decidir sobre vidas e territórios,
a vida e os territórios que deveriam fazê-lo.
Decidir se comeremos maçãs ou bananas
se a terra nos dará comida ou óleo
as frutas são a poesia da natureza
o óleo, seu dejeto

O poeta vê o mundo e ri
ri do que canta sobre o mundo e se espanta.
o mundo não deveria ser, mas é.
Outras crianças irão brincar e outras, muitas outras, irão ver o mundo por baixo
junto ao solo
sentido o gosto, amargo, do chão que todos pisam.
O pássaro irá voar
e o poeta não terá mais onde, nem como, descansar.
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