A tentação autoritária da Grande Mídia

Bruno Linhares

O jornalista Mino Carta nos recupera, de Hannah Arendt, um conceito chave que ajuda a entender e classificar a ação da grande mídia nessas eleições – o da “verdade factual”. Para lá das postulações relativistas do pós modernismo, a “verdade factual” é o amplamente comprovado, o consubstanciado em provas e depoimentos. É o que não se discute. O que não se pode negar ou tergiversar.

Outro intelectual, Cunca Bocayuva, não identifica problemas no fato de veículos da mídia tenham, assumam e expressem preferências em torno de candidaturas, partidos, ideologias e programas. Como, aliás, o fez a Revista Carta Capita, que claramente indicou sua preferência por Dilma desde o primeiro turno. Como é de praxe em boa parte da mídia européia. Como também assumiu o jornal O Estado de São Paulo neste ano, ao declarar-se serrista.

Então, se não há problema ético apoiar um candidato, ter “lado” em uma disputa política, porque tanta grita contra a Grande Mídia? Porque estamos chamando essa turma de Partido da Imprensa Golpista?

Porque romperam outra barreira no campo da ética e não pela primeira vez. Afastaram-se conscientemente da verdade factual, substituindo-a por seus desejos, intenções ou projeções. Buscaram contrapor-se a realidade, como pode ser comprovada, assumindo como fatos suas especulações, sua vontade e até suas fantasias. Ao afastarem-se da verdade objetiva, distanciaram-se do jornalismo e aproximaram-se da propaganda, em sua acepção mais rebaixada. O episódio da bolinha de papel é só a face mais farsesca dessas práticas.

A luta política pela hegemonia admite a disputa da interpretação da realidade. Todo arcabouço de dominação, quando não exercido pela força, reside na conquista dos corações e mentes pela leitura dos acontecimentos e das tarefas à luz de uma visão ideológica. Ao escolhermos a disputa da hegemonia através da exacerbação da democracia, nos obrigamos a não negar aos nossos adversários de classe seu direito a possuir e expressar sua percepção, sua ideologia. Isto significa que se os fatos são o que são, as causas e conseqüências são passíveis de discussão e de legítima disputa.

O que aproxima a grande mídia nativa do autoritarismo e até do totalitarismo é que já não lhes basta disputar com o campo progressista a interpretação da realidade. A amplitude da derrota de sua visão de mundo, pelos resultados concretos das práticas que pregaram no último período histórico e pela falência continuada dos conceitos e receitas neoliberais, não lhes deixa alternativa se não a de tramar contra a verdade objetiva. Acabam por trilhar o caminho mais fácil das práticas da manipulação e da falsificação.

Em outros momentos históricos, em fases mais agudas de risco ao modelo de dominação em que foram interrompidas as liberdades democráticas, esta mesma tendência se fez presente. Nesses momentos extremos, o fascismo e o autoritarismo latino-americano, por exemplo, sempre contaram com uma mídia cordata que costumeiramente veiculava mentiras ou meias-verdades sob a orientação do poder.

Esta tentação autoritária, esta tensão para a mistificação, colocam certos veículos na qualidade de puros aparelhos de disputa e lhes mina de forma crescente a credibilidade. Por outro lado, fica também evidente a subestimação economicista destes espaços pelo campo popular, incapaz de investir seriamente na construção de alternativas de massa que possam substituir este setor da mídia como referência para a população.

À crítica ao triste papel do PIG nesta eleição deve somar-se o esforço pelo desenvolvimento de veículos de informação para as grandes massas, sob o risco de novas surpresas antidemocráticas pelos efeitos da crescente radicalização desses setores da imprensa, como já observado em países vizinhos.

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