As bases do Lulismo

Acabo de ler, via Luis Nassif, um texto do André Singer sobre as bases de apoio do presidente Lula. O texto é grande, mas vale muito a pena, principalmente para quem ainda é muito resistente em aceitar a ideia do governo Lula como um governo popular.

A grande mudança dos votos ocorre no que Paul Singer chama de subproletariado. A base histórica do PT é a classe média intelectualizada, trabalhadores organizados em sindicatos e as bases da igreja. Essa é a origem do PT. Por muitos anos o partido não conseguiu sair desse patamar de 30% dos votos. Com a crise do neoliberalismo, no final da década de 1990, Lula, na eleição de 2002, aparece com a única alternativa. É como se parte da direita, da imprensa e de desse subproletariado quisessem dar uma chance uma ele.

Essa última parcela é tradicionalmente conservadora e sempre temeu a “bagunça” que um governo petista iria promover no país. Essa imagem, criada por uma construção histórica que passa por coronéis, tanto os com meios de comunicação, como os sem, vai se diluíndo a partir de inciativas do próprio partido. Ou da direção majoritária. A carta aos brasileiros, marco da campanha de 2002 é um exemplo disso. Serve para “acalmar” os mercados e garantir a “estabilidade econômica” conseguida nos governos FHC, com muito custo para o país, é verdade.

Temos assim o primeiro governo petista marcado por uma postura recuada, defensiva. Mantendo parte da política econômica anterior. Tanto é assim, que a primeira ação do novo governo foi a reforma da previdência, claramente deficitária para o povo.

É somente após os escandalos do mensalão, da queda do Palocci e Dirceu, que o governo altera os marcos da sua política econômica. A partir da formação de um novo núcleo governamental, as políticas sociais saem do papel e passam à boca, ou aos bolsos, dos cidadãos. O que começou como a reorganização dos programas sociais de FHC, hoje recebe bilhões de reais e favorece mais de 8 milhões de famílias agraciadas com o Bolsa Família. Isso sem falar na tão falada nova classe média (C) consumindo como gente grande, ou classe B. Fruto de uma política de fortalecimento do mercado interno, somado à outras ações governamentais, como o aumento do crédito.

Parece que essa parcela da população, ou essa parte da classe trabalhadora, tem muita dificuldade para se organizar. Diferente da Classe Média ou dos trabalhadores com carteira assinada, na sua maioria com melhores salários e organizados em sindicatos. Como acontece na Venezuela, onde quem organiza os trabalhadores é o próprio governo através das suas missiones, aqui, esse pessoal tem muita referênica na sua própria, e difícil, substência. Logo, programas governamentais, como PAC, Luz para todos, Agricultura familiar, bolsa família, têm um impacto real, concreto e imediato sobre a vida dessas pessoas.

Quando veio a eleição de 2006, Lula já tinha estabelecido com uma comunicação direta com essa parcela da população, o que, ainda segundo Paul Singer, no seu trabalho de 1980, representava, na época, cerca de 18 milhões de pessoas. Estava criado um elo que, por mais que tentasse (e como tentou) a mídia tradicional não conseguiria romper. Mesmo com as coberturas tendenciosas, mesmo com o golpe nas vésperas do primeiro turno, Lula conseguiria aumentar a sua votação em relação à eleição de 2002. Lula falava, e ainda fala, direto com o povo.

O rompimento com parte da classe média somado ao descontentamento dos neoliberais brasileiros com a política de expansão estatal (isso inclui a maioria da imprensa tradicional quando vemos ou lemos notícias sobre o aumento dos gastos do governo, ou ao tamano da máquina) não foi suficiente para impor ao PT a derrota na eleição e trazer de volta os velhos coronéis ao comando do país.

Essa é uma nova realidade que se aponta para as eleições desse ano. Depois da Copa do Mundo, em Junho/Julho (?) o Brasil vai ser só eleições. E estará em jogo, não uma disputa pela máquina, mas duas concepções de país: um país de todos contra um país de poucos. Essa parcela da população, descrita acima, estará no centro dessa disputa. É preciso cada vez mais falar a língua dela. Parece que o Lula sabe. E o PT?

Aqui o link para o artigo.

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