Voar

Quero te ver voar
e estar aqui para te ajudar a pousar

Quero sentir sua falta
quando for além do horizonte
quero ser o seu porto seguro
quando quiser, ou precisar, voltar

E onde preciso for
até o fundo, o solo, o monte
para estar contigo
aprendendo a, se quiser, caminhar

Levo em mim a esperança
de uma vez, de fronte
possamos, enfim
com toda a sinceridade, nos poder falar

Mas levo a crença
de volta a mesma fonte
que a gente tenha a certeza
de que foi juntos, que aprendemos a voar

E, por mais que cresças,suas raízes
ainda estarão em meu solo

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30 anos é uma vida

Me parece muito estranho escrever uma carta para quem nunca poderá lê-la, porém, como eu sei que esse é um recurso literário muito usado, não vejo como fugir disso.

Das coisas que o tempo leva, o que ele deixa é que mais dói.

Já são 30 anos que você se foi. Eu tinha 13 e agora tenho 43. O mundo mudou muito e tenho certeza de que você gostaria de ter participado dessas mudanças. Tanto do mundo em geral, como do nosso mundo particular, da família e de tudo que nos cerca.

Superamos as dificuldades que nos foram impostas pela cruel mão do tempo que insiste em impor a todos os seus destinos, nessa sucessão de acontecimentos que é a nossa vida. Muitos desses acontecimentos são bons e outros ruins e é a relação entre eles que nos constitui.

Muitas vidas nesse país não têm a chance de viver mais do que 30 anos. É essa dura realidade que tentamos mudar, mesmo que isso leve uma vida muito maior do que 30 anos. E mudamos esse mundo um pouco, mas a razão da história é um pouco difícil de entender… Então, depois de tanta luta para construir um mundo um pouquinho melhor, já estamos vendo-o ficar pior de novo a partir de opções política que afastam parcelas da sociedade do mínimo para existir em uma condição que podemos chamar de vida.

Eu começo aqui falando de política porque aprendi a importância disso, vendo o quanto você se importava com a política e com a vida dos que nos cercam.

No plano familiar fomos capazes de superar a sua perda, assim como a da Ludi, mais tarde a do Zé. Sei que é uma coisa difícil de falar, a sua perda e como superamos, mas tenho certeza de que você gostaria de ouvir isso. Não ficamos parados.

Permanecemos unidos, passando por cima das pedras que o tempo colocou no nosso caminhar. Juntamos todos numa só família para poder criar suportes mais sólidos e aguentar o peso de carregar dores por longos períodos de tempo. Hoje, essas dores são parte de nós. E já não doem tanto. Podemos, depois de tantos anos, olhar para elas até com um carinho, como algo que está há tanto tempo dentro da gente que gostamos de sentir. É como sentir a presença de vocês de certa forma.

Conseguimos seguir nosso caminhar coletiva e individualmente. Com percalços, claro. O caminhar na linha da história é sempre carregado de desafios. Estamos todos os dias encarando-os e podendo dar mais um passo, mesmo que um passinho de formiga. Mas é bom constatar que as formigas vão longe, do ponto de vista delas, claro.

Conseguimos aumentar a família. Minha mãe, quem diria, já tem 6 netos com mais um a caminho. Os 5 filhos (sim, no fundo você ganhou mais dois no caminho que a gente seguiu sem você) de alguma forma conseguiram se tornar pessoas boas, com algum sucesso pessoal.

Tenho um pouco de medo de usar essa palavra sucesso, pois ela é recheada de significados a partir de uma forma de ver o mundo que eu não gosto muito. Mas aqui não consigo encontrar outra que possa dar um significado de uma superação das próprias dificuldades e construção de histórias que, espero, possamos contar daqui a mais 30 anos.

Uma coisa que me dói muito é que você não tenha conhecido meu filhote. Hoje, quase um homem. Hugo já tem 17 anos, um menino-homem, às vezes mais criança, às vezes, adulto. Foi fundamental para a nossa reconstrução. Encheu a todos nós de alegria durante o último desses processos todos de reconstrução que a vida nos impôs, que foi o luto pela morte do Zé. Ele talvez nem saiba, ou sabe e não entende, que carrega essa história toda dentro dele. Um dia, inteligente como ele é, muito mais do que todos nós, ele vai compreender que tudo isso é só amor. É que, às vezes, o amor transborda e atrapalha. Mas o tempo nos ensina a lidar com ele.

A Lua tem dois filhos e quis homenagear você colocando o nome do mais novo de André. A mais velha é Maria. Sara também tem dois, Amora e José, em homenagem ao Zé. Camilo tem o Caio e mais um a caminho (sem nome ainda). Só o Ber não quis colaborar com esse crescimento, pelo menos até agora. Preferiu cuidar de gambás, rsrs.

Isso, no fundo mostra o quanto você foi importante na vida de cada um de nós. Todos nós, de alguma forma, seguimos algum de seus passos, na vida profissional. O Ber na biologia, Lua na medicina e eu, Camilo e Sara fomos fazer comunicação. A Sara depois foi fazer culinária, mas também sofreu desse “mal” antes.

Exatamente por isso, ainda mantemos a Letra e Imagem funcionando. Com muitas dificuldades, claro. Como podemos ousar querer ter uma editora num país que lê muito pouco? Mas, como o resto da vida, vamos levando, buscando o encantamento na superação das dificuldades.

De qualquer forma, dentro do possível, acho que estamos indo bem.

Já não podemos dizer o mesmo do mundo, que por um momento parecia que ia poder caminhar para outros lados, com mais igualdade, com mais sociabilidade e fraternidade entre os seres que ocupam esse planeta, mas a ganância de algumas poucas figuras que detêm muito poder não permite que o mundo seja assim, infelizmente. E, pra garantir a forma de viver de poucos, com tantas coisas a seu dispor, que eles nem conseguem dispor, tiram o pouco que as demais pessoas têm.

Mas esse mundo você conhece. O que você não conheceu foi a esperança que tivemos aqui na nossa casa, a América Latina, de vivermos melhor, de podermos construir o mundo que sonhamos sem que ninguém possa dizer como temos que viver.

Mas esse sonho foi destruído, ou pelo apagado por enquanto, pelas próprias pessoas que vivem aqui, mas queriam mesmo é viver em outros países. E para que eles, essa minoria, possa viver como nos países centrais, tiveram que condenar muitas e muitas pessoas a viverem como vivem em lugares muito pobres desse mundo, aqui mesmo no Brasil, ou na África, ou no sul da Ásia.

Em 2002 elegemos o Lula, acredita? Esse país superou as suas desconfianças e colocou um operário no cargo mais alto. E isso mudou nossas vidas. A desigualdade diminuiu um pouquinho. Foi pouco e foi o que as elites permitiram. Isso porque o modelo que eles acreditam está em crise, mas foi o suficiente para vivermos uma esperança. E foi muita coisa para quem não tinha nada.

Isso depois de termos tirado o Collor, que foi acusado de corrupção pelo irmão e sofreu um impeachment em 1992. Como eu já falei antes, a minha primeira lembrança de decepção política foi ver você na varanda da casa da Ludi, tomando um whisky e sofrendo a derrota eleitoral de 1989. Não sei se essa lembrança é real, mas é assim que eu lembro. E isso me formou enquanto pessoa e enquanto militante político.

Depois a direita se reorganizou e elegeu o Fernando Henrique Cardoso, que continuou as políticas econômicas começadas no Collor e ajudou a empobrecer ainda mais o povo, a concentrar riquezas e a vender nossa terra.

Depois de dois mandatos, conseguimos tirar essa turma. Eles fizeram tanto mal para o país que não conseguiam mais se sustentar no poder. E o Lula apareceu, bem mais calmo e conciliador, como a única solução possível. Não era mais o Lula de 1989, mas ainda sim um representante dos trabalhadores. Esse ponto é parecido com o que temos hoje, embora alguma parte da elite ainda não consiga reconhecer isso.

De qualquer forma, a eleição do Lula foi a coisa mais importante que vivemos.

Você ia gostar muito de ter vivido esse momento.  Porque esse pouquinho que conseguimos mudar foi muito para quem não tinha nada. Puderam comer 3x ao dia, puderam comprar uma casinha, uma moto.

E você tinha que ver a festa que foi a posse do Lula em 2003. É dessas imagens que ficaram na história. Eu pude estar lá.

Lembro de você falar que só poderia ser feliz no momento em que sentasse numa mesa de bar e não visse meninos vindo vender qualquer coisa por uma necessidade tão grande de estar vivo que se submetiam a qualquer tipo de humilhação.

Nós quase conseguimos isso. Claro que ainda havia meninos na rua vendendo trecos invés de estarem nas suas casas, ou indo à escola. Mas pudemos perceber como esse número diminuiu.

Teve política de cotas para pessoas negras, pobres, indígenas, LGBTs (essa sigla, acho que nem existia enquanto você estava por aqui) entrarem na universidade. É muito provável que muitos desse meninos e meninas que não estavam nas ruas vendendo treco para poder comer, tenham tido uma oportunidade de entrar numa universidade e fazer um curso superior. Isso mudou a vida de muitas gentes.

Mas é claro que a luta de classes não deixa isso barato. O outro lado, a outra classe que não a nossa, pelo menos a que nos identificamos, a dos trabalhadores, lutou contra a isso buscando manter os privilégios de sempre.

Isso ainda sacode a realidade brasileira, em 2021.

Claro que essa situação levou a um outro golpe, não militar como em 1964, contra o qual você lutou, mas de outro tipo, parlamentar. Um impeachment da Dilma, que também é do PT e foi a sucessora do Lula, sem nenhuma causa real. Apenas a desconfiança da elite. Por mais que o próprio partido e a própria presidenta tenham dado sinais de que não romperiam com a estrutura social do país, a possibilidade de tirar o PT do governo, o que não conseguiam com eleições, foi suficiente para o golpe.

Isso num país que tinha 4,5% de desemprego, aumento real do salário-mínimo, diminuição, mesmo que tímida, das desigualdades, dívida externa zerada, grandes reservas internacionais e tinha acabado de achar uma reserva enorme de petróleo no mar. Vai ver que foi por isso mesmo que tiraram a Dilma, né?

E o resultado disso foi a eleição do Bolsonaro. Um deputado do chamado baixo clero, ou do centrão, que estava há mais de 30 anos na casa sem fazer nada. Ele é o que de mais tosco a sociedade brasileira já produziu. Um cara machista, homofóbico, racista, que se orgulha de ser de direita e que passa o tempo todo flertando com o fascismo. Sim, fascismo mesmo. Desses que nem você conviveu. Só as gerações anteriores tiveram esse “privilégio”.

Essa é a realidade que vivemos hoje no Brasil e no mundo. Voltamos a ter que lutar contra fascismos. E não é que história se repete, como já disse Marx, é que a história não se apaga. Isso não é uma repetição, mas uma continuidade. Foi o Pepe Mujica, um ex-preso político e que depois foi eleito presidente do Uruguai, que disse que nenhuma vitória e nenhuma derrota são definitivas (ou “é definitiva”?). Mesmo em momentos de vitórias é preciso estar atento às mudanças.

É claro que a ascensão da extrema-direita no mundo não é só a reação à ascensão da esquerda, mas uma resposta à derrocada da política neoliberal, que concentra riquezas a partir de construções sociais individualistas. Isso leva a uma sociedade cada vez mais autocentrada onde o diferente deve ser eliminado, pois é ele que atrapalha o meu próprio desenvolvimento.

Mas, acredito que esse período está em vias de ser superado. Não há mais espaço no mundo para essas questões e é preciso reconstruir algum senso de coletividade. Isso vem sendo feito, dentro dos marcos do capitalismo, claro. Que é a cabeça que precisa ser salva para manter o modo de vida dos ricos e poderosos. Mas um capitalismo humanitário é melhor do que um selvagem, né?

Isso também abre espaço para a gente criar novas experiências.

E isso é uma coisa que eu sinto falta. Ou sinto que faltou na minha vida. Poder analisar essas conjunturas junto com você. Com 13 anos a gente não sabe ver a vida além das paredes da nossa casa. As janelas são pequenas para olhar o mundo, que é muito grande. É preciso atravessar a porta, e para isso a gente precisa saber com que roupa, com que calçado atravessamos a rua. Isso a gente aprende com os pais, com irmãos, com amigos próximos. Claro que tive isso. A gente superou essas dificuldades, lembra? Mas seria melhor ter tido essa visão de alguém que era sempre elogiado por todos que o conheciam, mas que eu sempre levo a sensação de que tive pouco tempo para conviver.

Sou o que eu sou por conta disso tudo que essa carta contém, mas sempre com a lacuna de poder ter sido mais. O que é uma sensação um pouco infantil, eu sei. A gente não tem o controle dessas coisas. Temos que tirar o proveito da vida, do que a história nos dá, e sou o que sou por conta dessa lacuna também. Pois até na morte, você estava sempre nos ensinando, a todos nós.

Hoje ainda passo pela sua árvore no caminho do Silvestre. Sempre paro para “falar” com ela. É como se eu tivesse conversando com você por lá. Falo, entre uma respirada e outra, porque passo correndo, das coisas que me afligem, do que eu preciso mudar, fazer diferente, das forças que preciso juntar para continuar nessa caminhada. É como se isso me iluminasse de alguma forma. Só espero que você não responda, se estiver por ali, pois vou ficar muito assustado, rsrs.

Isso tudo para dizer que apesar dessa vida inteira sem você, ainda podemos sentir sua presença a nos iluminar os tortuosos caminhos que temos que continuar trilhando nesse planeta. Temos uma boa visão a partir dessa luz. Que ela permaneça nos nossos corações por mais 30, 60 ou 90 anos.

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República guarani-kaiowá do Brasil

Brasília amanheceu cercada. De índios. E esses, pelo exército.

O ato dos povos indígenas contra as maldades do governo fascista do Brasil acabou como uma boa guerra indígena do passado.

Com suas flechas e lanças, os índios conseguiram vencer a segurança dos três poderes. Já acostumados com a fumaça das queimadas provocadas pelo homem branco em busca da monetização da nossa natureza, os índios puderam circular livremente diante das nuvens de gás lacrimogênio e, inclusive, apurar a mira das flechas. Ganharam a batalha e agora exibem os corpos dos presidentes dos antigos três poderes no gramado do congresso, relembrando as mais bárbaras tradições esquecidas da nossa terra.

Tomaram todo o centro de decisão e fizeram reféns: 300 deputados, 30 senadores, os 10 ministros do STF restantes e milhares de funcionários. Exigiram mudanças radicais no país.

Após a fuga dos mais covardes políticos, só quem ainda gozava de alguma representatividade social ficou para começar uma nova negociação que iria instituir a novíssima república brasileiras, agora calcada no poder ancestral indígena que vigorou por mais tempo nessas terras, apesar do parêntese europeu que dominou os últimos 500 anos. Foi instituído um quarto poder na república, o poder indígena, acima dos demais poderes da república iluminista.

Com isso se construiu uma grande Oca na praça dos três, agora quatro, poderes, onde seria o grande encontro dos representantes e de onde saem as mais importantes decisões do país. A Oca é o grande símbolo do poder nacional, em detrimento do prédio do congresso, apesar da arquitetura de Oscar Niemeyer, apreciado por todos os 4 chefes do país.

O Cacique Ubiratan Kaiowá, o Bira, foi eleito cacique-em-chefe da nação, o mais alto posto do novo país, que só pode ser ocupado por descendentes diretos das mais conhecidas tribos do país. Foi eleito com mérito por seus pares por sua hábil atuação na gloriosa ação da nova Guerra Guaranítica no Brasil. É ele que comanda a ação, com poder de veto sobre as decisões dos outros poderes. Sua palavra é sempre a final.

E as decisões são sempre tomadas com os conselhos de Pajé Jackson Tupinambá, que, apesar de não serem da mesma tribo e contarem com costumes diferentes, comandam juntos as cerimônias, que reúne os chefes dos 4 poderes da nova república indígena brasileira. No meio da fumaça dos cachimbos da paz, um pra cada um em tempos de covid, o Pajé comanda as ações e orienta Bira de como deve ser a economia, a taxa de juros, o uso a terra, a verba pra educação, pra saúde…


[1] Essa é uma obra ficcional, baseada nas notícias a respeito das manifestações indígenas em 2021, e não uma sugestão de como devem agir as lideranças indígenas ou de esquerda do país, que possuem uma visão do futuro muito mais responsável que o autor desse conto/crônica.

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A esperança e a história não morrem

Sei que o ano novo é somente uma convenção de um ponto aleatório na órbita que a Terra faz em torno do Sol. Sei que a mudança de um dia para o outro é apenas mais um ciclo nesse ballet cósmico dos astros onde estamos inseridos. Isso é ciência.

Mas é exatamente a capacidade dos seres humanos de transformar a racionalidade científica, que busca observar, compreender, analisar e (tentar) explicar, em emoção e poesia, que nos dá esperança de continuar caminhando. O ano novo não é diferente. É a transformação da razão de um novo ciclo em expectativas de melhora, em versos ou prosa.

Assim, organizamos nossas vidas para a cada volta do relógio, ou da Terra em torno do Sol, pois que é a nossa forma de lidar com o tempo, acrescentarmos também a poesia de enxergar a vida por um outro ângulo. Mesmo que todas as razões nos levem a crer que o próximo período não será melhor, nos permitimos transformar a crise permanente em que vivemos em esperanças de viver melhor. Pois somos razão, mas, principalmente, emoção.

Mesmo que seja só nesse dia. No dia seguinte, 1º de janeiro, normalmente estamos de ressaca e não pensamos muito nisso. No dia 2, o ano já começa — mesmo que seja, como no caso atual, a continuidade do ano anterior, que cisma em não acabar!

E se a criação constante de crises é algo extremamente humano, a capacidade de transformar a crise em oportunidade de crescimento é ainda mais.

E se 2020 nos trouxe ainda mais pra dentro de casa, com intermináveis reuniões online, onde quem lucrou foi a indústria, seja extraindo mais e mais dados das nossas vidas, seja impondo mais e mais trabalho não pago, pelo menos pudemos repensar nossas relações. Mesmo que algumas esperanças da crise do Coronavírus não se tenham se realizado, como a ampliação do papel do Estado, ficou a expectativa de que isso ainda pode se acontecer num futuro próximo. Mesmo que se extraia mais e mais dados da gente a partir de mais e mais atividades online, essa relação de apropriação de partes da nossa vida por empresas de informação tem ficado mais clara e chegou a muita gente que sequer tinha noção de que essas coisas aconteciam e agora fica preocupada com seus próprios dados.

Nossos vizinhos latino-americanos conseguiram concretizar muitas vitórias políticas no terrível ano de 2020, se encerrando com a bela conquista das mulheres argentinas na legalização do aborto, alimentando a esperança de uma volta no Sol melhor que a que se encerra agora.

Parece que, e só vamos poder ver isso mais a frente na nossa jornada por um novo ciclo em torno do astro-rei, teremos enfim o triunfo da ciência sobre o obscurantismo, realizada na forma de um controle “rápido” da pandemia.  

São passos tímidos, mas importantes de serem dados no eterno caminhar da história, que cisma em continuar viva e escrevendo poesias em forma de ciência.  

PS: a imagem que ilustra o post foi a foto que eu tirei do fenômeno astronômico que se repetiu esse ano após mais de 400 anos, onde acontece um alinhamento de Júpiter com Saturno a partir do ponto de vista terrestre. Parece que é a estrela de Belém, evento bíblico (e por isso histórico) que nos guiou para esse mundo cristão há mais de 2000 anos. Só foi possível porque podemos juntar técnica, tecnologia e ciência com a poesia de conseguir enxergar além das lentes da câmera. A esperança e história não morrem, elas se reinventam em versos e prosa.

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La mano de él Dios

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/6/67/Maradona_vs_england.jpg

Nenhum gênio seria capaz de fazer, em 1986, o que Maradona fez contra a Inglaterra. Em um jogo de futebol. Em uma copa do mundo. Muito mais do que um jogo. 

Ainda na ressaca da guerra das Malvinas, o atleta, militante, lutador, sonhador, colocou o mundo de joelhos com, talvez, a mais esplêndida atuação de um jogador em uma partida de futebol. Em 90 minutos de bola rolando foi capaz de fazer o gol mais bonito das copas e o mais polêmico, de onde saiu com a mais irreverentes das respostas: “lá mano de dios”.

Coisas que só os deuses podem fazer.

Buscou reparar uma injustiça, fruto de uma história bárbara que condena povos a morte.

A mão de Deus era a sua própria mão, Maradona.

E estava lá, não só pra empurrar a bola para a rede dos imperialistas, mas, principalmente, para elevar a autoestima de milhões de sul-americanos.

Depois de uma vida intensa, vivida da forma que os deuses gênios deveriam viver: questionando a ordem, criando polêmicas para que pessoas como nós, reles mortais, nos coloquemos a pensar.

Agora, o humano se vai. E vai ao encontro de outro dos nossos ídolos, de quem era muito amigo. Alguns anos depois de Fidel

Fica, aqui pra gente, o Dios.

Gracias.

Se possível, assistam ao jogo inteiro:

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O dilema e as redes

O filme/documentário do NETFLIX “O Dilema das Redes” deixou o mundo das redes sociais em polvorosa. Ele se propôs a apresentar uma análise sobre a sociedade a partir do negócio das redes sociais e como elas podem influenciar o comportamento das pessoas.

A primeira coisa que chama atenção no doc/ficção, que é sua principal virtude, é a presença de antigos funcionários das grandes empresas do Vale do Silício falando de como eles, deliberadamente, buscavam viciar os usuários para manter a sua atenção nos seus sites, pois, dessa forma poderia ver seus negócios prosperarem, que são diretamente dependentes da atenção do usuário.

Sim, são os negócios que estão por trás de toda ação nas redes sociais. Porém, os negócios são apresentados no filme como uma coisa positiva, quase natural da vida humana, o problema então seria a dimensão ética que esse tipo de negócio tomou que não mede as consequências de suas ações em busca do lucro. O que essas pessoas são capazes (ou acham que são capazes) de fazer com as nossas vidas para os seus negócios prosperarem?!  

O filme mostra como eles estudam o “usuário” e contratam os “melhores profissionais” de cada área (design, engenharia, marketing) para manter a roda do consumo girando nas nossas telas. Claro, também contam com profissionais de psicologia (das massas?) numa abordagem neo(?) behaviorista.

Aqui mora o primeiro problema da avaliação do filme. Essa abordagem para tratar de pessoas é um tanto quanto limitada, no sentido de que não considera que existem outras coisas (cultura, família, igreja, imprensa e tudo o mais que nos cerca) na construção dos nossos gostos, hábitos e opiniões.

Então, como esses gostos, opiniões, hábitos são criados? Existem diversas abordagens para essa questão. Pode-se recorrer a formação do gosto na sociedade enquanto o resultado de diversas forças atuando sobre o indivíduo, a publicidade (e é disso que se trata quando falamos de dados, redes sociais, IA e algoritmo) exerce aí, desde há muito tempo, uma forte influência nessa construção, mas não a única.[1]

A publicidade já se vale da construção subjetiva do gosto, da vontade, do desejo, para vender mais a partir da mobilização de emoções humanas há muitos anos. Dentro desse processo também se pode perceber forte atuação da psicologia, na disputa por mentes construindo uma verdadeira cultura do consumo, desde pelo menos o início do século XX.

Isleide Fontenele[2], ao recuperar todo esse processo, chama a atenção de como a relação entre pulsão, desejo e consumo vem sendo explorada desde o início da construção do próprio capitalismo. A abordagem psicanalítica, no final das contas, foi usada para a construção do mundo em que vivemos ao estimular as pulsões na direção do consumo. É de 1929 a experiência de Bernays, sobrinho do Freud, que levou as mulheres a fumar, associando o cigarro às nascentes Pin-ups, sexys figuras que serviram, inicialmente, para vender cigarros.

Em 1923, Claude Hopkins[3] escreveu sobre a “Ciência da Propaganda” que tenta medir (além de explicar e influenciar) o comportamento do consumidor a partir do reembolso postal, a ferramenta que ele tinha disponível naquele tempo. Ele dedica um capítulo inteiro do livro à psicologia. São questões que já estavam na nossa sociedade há muito tempo que foram incorporadas e aperfeiçoadas pelos executivos, e principalmente funcionários, do Vale do Silício. O conhecimento sobre os hábitos já estava lá, só precisavam juntar a novas iniciativas num mundo digital emergente com as velhas práticas de consumo. E isso se faz, como sempre por quem é dono do dinheiro e pode acelerar um determinado setor da economia: o capital financeiro.

O filme mostra tudo isso, mas como se esse problema fosse uma invenção das novas formas de comunicar da contemporaneidade. E faz essa análise de uma forma linear, como se pudéssemos simplesmente passar a informação para corpos inertes que respondem ao chamado das redes, amplamente estudadas e construídas por “especialistas”. Contra essa visão, a teoria da informação já construiu uma série de textos que poderiam ser linkados aqui. Bakhtin, por exemplo, fala de uma ação comunicativa, em que determinada mensagem gera uma ação em quem a recebe. Porém, essa ação é diferente em cada indivíduo por conta da sua própria história. Cada um tem seus próprios processos de mediação que o fazem entender a mensagem de uma determinada forma. Numa abordagem linear, essa mediação poderia ser considerada ruído, mas é exatamente o ruído que dará sentido à mensagem recebida.

Atualmente grande parte da mediação na nossa sociedade é feita por esses aparatos digitais que nos chegaram às mãos a partir de uma estratégia de mercado. Aí entram as redes sociais. É um poder grande, sem dúvida, mas não absoluto como quer fazer crer o filme. Ou os ex-executivos dessas empresas gostariam que fosse.

Nessa soma de forças atuando na construção do nosso imaginário, entra uma outra história, que é a própria construção do mundo digital tal qual o conhecemos. Ele é resultado de uma longa disputa por rumos na sociedade onde o desenvolvimento tecnológico é central, tanto por sua capacidade de ampliar a produtividade, como por construir essas novas mediações por onde os instrumentos de poder agem para influenciar o comportamento das pessoas.

Para Srnieck[4] vivemos essa imersão em tecnologias da informação como uma reação a algumas crises no capitalismo: a de 1970, a bolha da internet na virada do século XXI e a grande crise econômica de 2008. Cada momento desses correspondeu a um salto em mais e mais imersão digital e desenvolvimento desse tipo de tecnologia (e toda a infraestrutura onde isso se sustenta), onde esses novos negócios, baseados na extração e exploração dos dados digitais, puderam prosperar.

Esse desenvolvimento científico e tecnológico é fruto das disputas de rumos na sociedade e das relações de poder que já estavam estabelecidas. Toda tecnologia é fruto de seu tempo histórico e seu desenvolvimento está diretamente ligado às forças produtivas do seu tempo.

Vieira Pinto[5] afirma constantemente que a tecnologia é produto da ação humana e por isso rebate o termo inteligência artificial, outro ponto central do filme. Para ele, a máquina só faz o que o homem a manda fazer. Numa passagem rápida do filme, aparece a matemática Cathy O’Neil falando que o algoritmo é a opinião em forma de código, para mostrar que essa visão sobre a tecnologia não é exclusividade do pensador brasileiro.

Hoje, essa opinião em forma de código, que exerce grande poder sobre a sociedade, é a dos executivos dessas empresas gigantes de informação (pois não são empresas tech, mas sim de manipulação de dados) quase todas sediadas na Califórnia, na maioria homens brancos e ricos. É essa a ideologia que está sendo transmitida através desses códigos para o resto do mundo.

Embora as redes sociais sejam um problema real da sociedade contemporânea por controlar grande parte da mediação, hoje um espaço privilegiado de disputas, elas não têm esse poder todo para manipular mentes e destruir a sociedade tal qual a gente a conhece. Sempre houve, e sempre haverá disputas sendo travadas nos espaços de mediação social.

O filme tem o mérito de apresentar uma discussão para pessoas que sequer se dão conta de que são seus dados, logo, parte da sua vida, do seu corpo e mente, que estão sendo negociados por grandes empresas. São, no final das contas, os elementos humanos que são negociados, ao ponto de a pesquisadora Shoshana Zuboff comparar o comércio de dados com o comércio de órgãos ou de escravos. Essas pessoas, tratadas no filme por usuários, não percebem esses problemas, pois para muitos, a forma de viver do capitalismo, e principalmente na sua forma neoliberal, é a única possível. Estão totalmente imersas na cultura do consumo, de forma que não se pode imaginar uma forma diferente de produzir e consumir, pois essa forma de viver é tratada como algo natural.

Por outro lado, o filme peca na forma de analisar, até porque é uma crítica vinda de dentro do próprio sistema. Não quer ir a fundo nos sentimentos que levam as pessoas a renegarem o coletivo, a viverem e estimularem a vida narcísica das redes, a não olhar o próximo morrendo de fome nas calçadas da grandes cidades enquanto assinam petições online contra a construção de barragens nos paraísos ecológicos mais distantes de suas realidades. Existem muitos outros motivos para o mundo ser do jeito que é e as redes sociais são apenas uma pequena parcela dessa construção histórica. Talvez nosso comportamento diante da tela, seja muito mais consequência do que causa dos muitos problemas que enfrentamos na contemporaneidade neoliberal.

Por isso mesmo, os executivos entrevistados e parte dos pesquisadores que aparecem no filme, apresentam como solução uma possível auto regulamentação das suas atividades em que se considere um uso mais ético da tecnologia por eles desenvolvida, como se tudo isso fosse simplesmente uma questão de escolha pessoal, individual. Enfim, querem mudar tudo para não mudar nada.

O nosso dilema, na sociedade, não é com as redes sociais, mas com todo o processo histórico que criou uma sociedade onde esse tipo de negócio pôde prosperar.


[1] A CAPTURA DO GOSTO COMO INCLUSÃO SOCIAL NEGATIVA: POR UMA ATUALIZAÇÃO CRÍTICA DA ÉTICA UTILITARISTA Marco Schneider –  https://www.sesc.com.br/portal/publicacoes/sesc/revistas/sinaissociais/n17/n17

[2] Livro Cultura do Consumo – Isleide Fontenele

[3] A Ciência da Propaganda – Claude Hopkins

[4] Platform Capitalism – Nick Srnicek

[5] Álvaro Vieira Pinto – O conceito de tecnologia Vol I

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Corona e o futuro da humanidade

Esse mundo, que já enfrentava uma crise financeira, fruto da ganância de poucos, enfrenta hoje uma de suas maiores crises na forma de um vírus que se espalha muito rapidamente e é capaz de mudar os rumos da história. Isso vai depender das reações e rumos dos acontecimentos e do movimentos dos diversos atores que compõe a realidade.

Ninguém que está vivo em 2020 enfrentou uma doença com a capacidade de exterminar boa parte da população mundial, então os desafios são novos para todo mundo. E medidas drásticas para uma situação drástica tiveram que ser tomadas com graves consequências para diversos espaços da vida social, principalmente de ordem econômica. E, pelo andar da carruagem, será um cenário de terra arrasada. Reconstruir a vida depois desse período será comparável ao que aconteceu no mundo pós 2ª Guerra Mundial.

Esse é sim um evento definidor e deve ser visto como tal. Essa é a nossa guerra, de todas gerações que estão vivas hoje no mundo.

A reconstrução, pode vir de algumas formas diferentes, cada qual com a sua ação e reação. E isso já deveria ter começado a ser discutido.

A primeira vista podemos apostar em um processo de aprofundamento das condições de trabalho atuais, com ainda mais exploração de uma mão de obra precarizada e ainda mais concentração de renda. Uma matéria do The Guardian já nos alerta para a possibilidade do home working ser a regra, uma vez que uma de suas características é economizar custos da empresa, já que toda a infraestrutura de trabalho passa a ser responsabilidade do trabalhador (seu computador, sua internet, sua luz, seu café). Esses trabalhos, que podem ser feitos à distância, podem nunca mais voltar para o escritório. Seria uma mudança em boa parte do trabalho com características muito semelhantse a outras áreas da economia onde essa economia (de bicos, de plataforma, de informação etc.) já acontece plenamente nas bicicletas e ubers que vemos passar diariamente diante dos nosso olhos.

Técnicas de vigilância foram usadas para o controle do vírus e podem nunca mais deixar de estarem no nosso dia a dia a partir desse momento. Morozov nos alerta que a crise pode nos levar a outro nível de vigilância. Essa realidade possível colocaria as empresa de tecnologia com um poder ainda maior do que elas já possuem, maior do que qualquer outro setor da economia em qualquer outra época histórica.

Essa é a natureza do capitalismo, concentrar mais e mais poder, e sua fase atual é marcada pelo aproveitamento das situações para fazer valer essa política que tem na economia o seu centro vital. A cada problema, mais a lógica econômica toma conta de cada pedaço da nossas vidas. Afinal, o capitalismo precisa sempre ser expandido.

É o que a Naomi Klein, no seu livro “A doutrina do Shock”, afirma ao dizer que o capitalismo tem uma enorme capacidade de aproveitar as tragédias para ampliar o seu nível de exploração. Ela explica um pouco mais no vídeo:

A crise atual, assim como toda crise, porém, pode ser uma chance de mudar a economia, de mudar a vida. A depender da forma que os atores principais irão sair dela.

Eventos de grande magnitude, como a pandemia, ou a guerra, ou colapso da economia, são momentos propícios para a mudança da mentalidade, a subjetividades ou ideologia (pode escolher), que no fundo é o mais importante para que possamos mudar a realidade.

O período em que estamos presos, dentro de casa, pode fazer as pessoas perceberem que podemos viver com menos: menos pressa, menos consumo, menos disputas, menos competição. É um período de experimentação, onde as prioridades se invertem, mudam de foco e novas formas de pensar aparecem. Pode ser um golpe na cultura consumista que dominou o último período.

Temos visto mais solidariedade, mesmo que no Brasil ainda vejamos a loucura e a irracionalidade em muitas manifestações. Pipocam as manifestações de solidariedade, um cartaz oferecendo ajuda para as pessoas mais velhas, uma música na varanda, na janela, mais comunhão entre vizinhos. Pessoas que dividem o mesmo prédio, mas que talvez nunca, em anos, tenham trocada alguma ideia.

Porém, qualquer mudança que possamos almejar será possível se houver um grande movimento para essa direção. Se deixarmos tudo como está e só sobreviver em busca da normalidade perdida, essa normalidade pode ser pior do que era antes.

É que o normal não existe mais.

O que emergirá após a crise de 2020 será uma nova normalidade. Como ela será vai depender das nossas ações. Se pudermos aprender e deixar que se recuperem os velhos valores da colaboração, da solidariedades, podemos ter um mundo melhor a ser construído e um futuro com mais esperança.

 

Posfácio

Comecei a escrever esse texto no começo da quarentena no Brasil (no Rio pelo menos) e a medida que o tempo foi passando, muitos outros textos foram sendo produzidos com ideias parecidas ou complementares a minha visão da pandemia e da disputa pelo futuro da humanidade. Minha ideia inicial era preencher o textos com algumas outras visões e links para alguns desses textos que de alguma forma ajudam a pensar o mundo, porém, os textos continuam a ser produzidos e essa tarefa se tornou muito difícil, uma vez que escrever no blog não é das minhas tarefas prioritárias.

Listo, então, alguns textos que acho relevantes na busca pela compreensão do momento no mundo. No Brasil, precisaremos de mias tempo e espaço para compreender e agir sobre a realidade.

Rafael Evangelista, professor da UFABC, sintetiza a ideia de um novo normal a partir da visão de 3 possibilidades para a saída da pandemia: a exceção, a ruptura e a aceleração.

Dois textos da Jacobin que tratam do capitalismo baseado em informação e como podemos sair da pandemia melhores ou piores: Não podemos deixar que as empresas de tecnologia usem essa crise para expandir seu poder e Podemos deter o lucro pandêmico.

Outro texto derivado desses aí, uma matéria do Buzzfeed sobre redes de solidariedade no controle da Pandemia em Wuhan.

Sobre o reaparecimento de ideias keynesianas e o papel do Estado nesse processo, do Victor Marques.

Judith Butler fala sobre as inter-relações humanas que estão em todos os lugares, mas principalmente na produção e no consumo.

Aqui, uma matéria do The Guardian sobre a emergência de uma nova economia na Holanda.

 

 
 
 
 
 

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Adeus, Aldir

Você soube vencer o tempo, passou de homem, mortal, à história, à saudade, onde irá sobrevier. Passou a ser imortal na memória de todos nós. Fez isso como mestre das palavras, escultor que com delicadeza e esmero soube ver o mundo e transformá-lo em arte para nos aliviar um pouco a dor do viver.

Soube levar o tempo na conversa. Foi você que zombou do tempo, deu-lhe a resposta que precisava e com isso ficou por aqui o quanto precisou para despertar as paixões, pois fazer arte é despertar paixões.

Cantou um mundo desigual, brutal, violento e o transformou em leveza para dançar nas sextas a noite nos bares dessa cidade insana. Que ficará um pouco mais insana ao saber que não estará mais aqui entre nós.

Lancemos, agora, suas garrafas ao mar, na breve esperança do encontro dos nossos corações tropicais.

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Reconstrução

É com o sangue dos que tombaram
Que baterão nosso corações
Com as cinzas, construiremos nossos templos
E rezaremos novos cânticos
Não mais a um Deus mercado
Mas agora deuses da vida real
Aqueles que souberam olhar para o lado
Que não se renderam ao flagelo da individualidade
Seu sangue será o nosso
De um novo tempo que começa nos lares
Através das janelas
Na distância mais próxima que sempre tivemos
E que teremos que superar
Pois foi a distância que nos uniu
Em torno de um novo nome
Pra um vida antiga
Ou uma vida nova
Para um nome antigo
Mas que nunca foi escondido nos livros de história
Que sempre foi vida
E sempre foi povo
Seremos nós que construiremos a vida sob os escombros do velho mundo

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1968 50 anos

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Escrevi esse texto, junto com o Tiago Rodrigues, meu sócio, para um edital de uma possível exposição que não rolou. Publico agora como reflexão dos 50 anos de construções de sonhos, revoltas, revoluções e derrotas. Não por acaso, alguns dias depois do aniversário de 50 anos da assinatura do AI-5, que cassou de vez os direitos políticos no país.

1968 é um ano de vitórias e de derrotas. É preciso saber reconhecê-las, assim como outras vitórias e derrotas que seguiram.

Eis o texto:

Alguns marcos históricos marcaram gerações e renovaram nossas formas de ver o mundo. O ano de 1968 foi um deles. Dogmas foram testados, destratados, desfeitos. Pactos foram refeitos. Esquerda e direita foram questionadas e reconstruídas a partir daquele momento. Cultura e costumes foram renovados e movimentos sociais de mulheres, negros e LGBT apareceram no cenário político e cultural.

Tudo isso num contexto de Guerra fria e ameaça nuclear. O temor era de que o mundo poderia acabar a qualquer momento.

Em 2018,  em um contexto não menos complicado em que as velhas formas de poder também estão em xeque, comemora-se 50 anos daquele tempo de rebeldias. Talvez seja o momento de rever aquele ano a fim de se pensar em novos tempos de velhas rebeldias.

O ano de 1968 que começou com o movimento de mudanças na Tchecoslováquia, conhecido como a “Primavera de Praga”, em seguida trouxe o acirramento do conflito armado no Vietnã. Em consequência, estudantes em diversas capitais européias começam a ocupar espaços públicos em manifestações contra a guerra.

No Brasil, assistimos ao assassinato de Edson Luis, explodindo a revolta estudantil contra a ditadura que se estabelecera quatro anos antes.

Mas é no mês de maio, na França, que 1968 ganha sua maior e mais conhecida expressão. Jean Paul Sarte se reúne com os estudantes que ocupavam os prédios da Universidade de Sourbone. Pedra e coquetéis molotov voavam pelos céus de Paris nos conflitos com a polícia. Os dogmas comunistas eram questionados naquela luta que também era contra o capital. A revolução que se iniciara trouxe novos comportamentos sociais e sexuais. O mundo não seria mais o mesmo.

Nos EUA, movimentos por direitos civis obtém vitórias importantes. Grandes manifestações contra a guerra e os Panteras Negras alcançam notoriedade global com protestos durante os jogos olímpicos da Cidade do México.

Em junho o Brasil assiste a passeata dos cem mil, ápice dos movimentos contra a ditadura.

O ano, que parecia trazer oxigênio para um mundo sufocado, acaba com a derrota das manifestações políticas em vários lugares. A Primavera de Praga é derrotada pelos tanques russos, os EUA elegem Nixon, Martin Luther King é assassinado, massacre de estudantes no méxico com centenas de mortos, golpe de estado no Peru e, em dezembro, o presidente Costa e Silva assina o AI-5, que cassou de vez as poucas liberdades civis no país.

Tornou-se um ano mítico porque “1968” foi o ponto de partida para uma série de transformações políticas, éticas, sexuais e comportamentais, que afetaram as sociedades da época de uma maneira irreversível. Seria o marco para os movimentos ecologistas, feministas, das organizações não-governamentais (ONGs) e dos defensores das minorias e dos direitos humanos. Frustrou muita gente também. A não realização dos seus sonhos, “da imaginação chegando ao poder”, fez com que parte da juventude militante daquela época se refugiasse no consumo das drogas ou escolhesse a estrada da violência, da guerrilha e do terrorismo urbano.

A revolução que não mudou nada, mas mudou tudo que veio depois.

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