hasta siempre, comandante

img_20161126_104728Tomados pelo mais puro sentimento de consternação pela notícia da morte do comandante em chefe da mais bela experiência que a humanidade produziu por essas bandas, lamentamos o seu desaparecimento.
Pode ser que nada mude na nossa vida aqui, ou mesmo para as milhões de pessoas que dependem do estado cubano, mas a esquerda mundial perde um dos seus principais símbolos. O último grande personagem e líder do século XX.
Fidel representa aqueles que conseguiram impôr derrotas ao maior e mais poderoso império da história da humanidade. Impôs derrotas consideráveis à gerações de norte americanos (leio agora que foram 10 presidente e todos, ou quase todos, tentaram elimina-lo), mantendo viva a chama da esperança de que o mundo não precisa ser uma competição entre iguais pelos elementos mais básicos da vida como comida, moradia, vestimenta, diversão…
Cuba nos mostrou, e continua nos mostrando, que o mundo pode ser melhor. Os recursos, escassos no caso daquele país, são melhor distribuídos, garantindo a todos e todas uma existência digna diante de um mundo que mói sonhos e trucida vidas.
Cuba é a revolução possível. Não é a utopia realizada, o céu na terra ou o paraíso. Convive com problemas como qualquer outra comunidade, mas soube dar humanidade a esses problemas. Soube tratar com alegria sua dificuldades e nunca esmoreceu diante das enormes dificuldades que a história lhe imputou. Cuba resistirá, da sua forma, pois sua força está no seu povo aguerrido e batalhador, mesmo que a perda do seu principal líder lhe impute uma derrota, um abalo.
Fidel fará muita falta às gerações vindouras que não terão esse símbolo contra as diversas simbologias do mercado que nos resumem dioturnamente a consumidores.
A história já o absolveu, companheiro.
Hasta siempre, comandante

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Destruição a jato

No filme “A grande aposta” sobre os eventos que levaram à crise de 2008, tem uma sequencia muito interessante que mostra um pouco a desconexão entre determinadas ações que são feitas em determinados espaços e as graves consequências para uma grande parcela da população. No filme, Brad Pitt, repreende 2 jovens investidores que comemoravam um grande negócio feito pelos três. Pitt, então, os alerta: “Vcs tem noção do que acabaram de fazer? Apostaram contra a economia (norte)americana. Qdo a bolsa cai 1% 400 mil trabalhadores perdem o emprego, mais um sem número de pessoas morrem!”
 
É isso mais ou menos o que ocorre com a lava jato. Até acredito que a sua cúpula saiba bem o que está fazendo. Moro foi treinado nos EUA e isso está no seu currículo Lattes, para quem quiser olhar. Mas pode ser que parte dos concursados, sem conexão com a vida real acredite que está apenas fazendo o seu trabalho, sem ter noção do que significa acabar com investimentos, créditos, empresa, enfim, empregos e vidas. Não percebe que sua ação condenatória está acabando com milhares, quiçá milhões de vidas.
 
Seria bom se esse video pudesse chegar a essas pessoas…

 

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Tempo

Peço-te que ande de vagar
mas que vá longe
 
Que não traga muitas pedras
mas que seu caminho
também não seja de todo liso,
pois é preciso estar atento.
As rugas são, também, importantes.
 
Peço que tenha cores no nosso caminhar
mas, que com suas luzes, não ilumines tudo
pois sombras são importantes
para manter algum mistério
 
Peço que o fim seja breve, mas distante

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Kafka no Quinta D’Or

Acordei de manhã, nessa quarta, dia 3 de agosto de 2016, passando um pouco mal, mesmo assim tomei café, banho e me preparei para ir trabalhar. Mas antes, como me sentia mal, resolvi medir a pressão: 16×10. Para tudo liga pras referências no assunto (minha irmã e minha companheira são médicas).  Ruma para o hospital. Quinta d’Or. Chega lá e entra no mundo da burocracia.

Entrego a carteira do plano e o documento perguntando pela emergência cardíaca: aguarde para ser atendido. Véi, hipertenso chega passando mal no hospital e não passa direto por uma avaliação? O que é isso? Isso é mesmo uma emergência? Escândalo feito (não por mim, dessa vez) e problema resolvido.

Ruma para fazer o eletro. Quem opera essas coisas dentro de um hospital é um técnico de enfermagem, incapaz ou desautorizado a dar qualquer informação. Fica sem saber se tá tudo bem ou não. Mesmo assim, com uma cópia daquelas cobrinhas desenhadas no papel, que diz muito pouco ou quase nada para nós, leigos, podendo ser o seu coração ou o terremoto que rolou no Equador, espera para ser chamado pelo médico.

O que não demora. Procedimento normal com o médico, eletro normal, pressão idem. Fui bem atendido por esse médico que conversou comigo, me examinou. Tudo certo. Explico a minha história, cheia de antepassados com problemas cardíacos. Ele, então, por conta disso me manda fazer o exame de sangue para verificar a tal da enzima cardíaca, para se certificar de que está realmente tudo bem.

Sangue colhido, toma um AAS protocolar e vai para a sala de espera. 40 minutos vendo a Fátima Bernardes na TV depois, com o saco cheio da sala de espera, resolvo esperar do lado de fora, onde minha mãe me aguardava.

Não pode.

Volta para a sala, dessa vez, pelo menos com o tablet em mãos para ler alguma coisa enquanto espero. Na TV, a globo mostra a olimpíada, dentro de seus 352 programas com gente branca, magra e bem vestida. A leitura estava boa, quando o celular, já quase sem bateria, toca. Do outro lado da linha, minha mãe quer saber porque está demorando tanto, pois já se passara mais uma hora desde que eu voltei.

Então já eram 1h40, pelo menos, de espera pelo resultado do exame.

Fala com a atendente, reclama, você é o próximo. Mais 40min e nada de ser o próximo.

Pronto, pra mim chega: vou embora dessa merda. Saio gritando e encontro com a minha mãe do lado de fora, que prontamente  tenta, e consegue, acalmar a situação e negociar e, 2h e tanto depois, sou finalmente atendido.

Então, o Dr. explica: não fui atendido antes, ele acha, porque meu exame estava muitíssimo alterado e eles não sabiam como proceder e foram chamar um médico mais experiente, disse ele apontando para os cabelos brancos.

Como?!

2h e tanto esperando e o cara me diz isso? Ótimo começo pra atender um hipertenso. PQP não to infartando, mas tenho algo muuuuuito grave. Se não vou morrer agora, talvez daqui a uns meses, ou semanas… Nesse momento é possível que minha pressão, que já tinha baixado, tenha voltado ao patamar anterior que me levou aquele conto do Kafka. Para não dizer o mesmo da minha mãe, que assistia a cena.

O Dr., mais uma vez, explica: o INR estava absurdamente alto. Descobri então que esse índice mede a taxa de coagulação do sangue, tendo sua faixa de normalidade ente 0,qq coisa e 1, enquanto o meu estava em 20! Embora esse índice, mais uma vez nas palavras dele, seja incompatível com a vida e isso provavelmente fosse um erro da coleta,  vamos fazer mais alguns exames para tirar qualquer dúvida de qualquer doença que possa estar associada a alteração nessa coisa de INR aí.

Essa parte, pelo menos, foi mais normal e tudo correu dentro dos tempos aceitáveis em “instituições desse tipo”.  Raio-x, novo exame de sangue, espera resultado, novamente atendido pelo médico e liberado, com tudo em dia e com a saúde como antes, ao final de 6h dentro do que é considerado um dos melhores hospitais do Rio.

Resultado: pico de pressão resolvido e um stress causado pelo atendimento que poderia, tranquilamente, ter sido resolvido com o mínimo de atenção ao paciente, uma conversa e, de repente uma repetição do exame.

OK, stress mil, mas nada que um ansiolítico não resolva.

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Nise, o coração da esperança

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O filme Nise, o coração da loucura traz a humanidade de volta para o debate, por ser exatamente essa a luta de figura tão importante para o país. Essa personagem fantástica da nossa história já merecia uma homenagem assim, principalmente por levar a humanidade para onde mais se precisava dela. Num lugar onde os pacientes não eram mais considerados humanos, ela trouxe carinho. Tratou-os com afeto e descobriu dentro de cada uma e cada um, não o artista que todas e todos trazemos dentro do nosso “engenho de dentro”, mas as pessoas, as almas que ainda estavam escondidas dentro daqueles corpos abandonados naquele depósito orgânico.
Encarou o poder constituído naquele espaço, enfrentou paradigmas e preconceitos enraizados naqueles médicos, para quem a cura significa o adestramento, o enquadramento a uma sociedade que oprime e não liberta. Nise trouxe a liberdade.
O momento em que o filme ilumina as telas, contando essa bela história, talvez seja o momento em que estejamos mais precisando de humanidade. E isso veio, não por acaso, justamente de uma mulher, que mostrou toda a sua força para combater os piores poderes dentro daquela instituição, comandadas por homens brancos. Nise trouxe toda a compreensão de que a vida é muito mais do que resultado. Em certo momento, acredito que da história dela, real, e não só do filme, ela discute com um dos diretores do hospital em relação à cura dos pacientes. Ela, nesse momento, se coloca como capaz de resgatar a vida daqueles corpos que haviam sido abandonados pela medicina, que buscava apenas anulá-los, para que não atrapalhassem a vida dos outros. Ela os trouxe de volta.
E como ver esse filme e não lembrar das pessoas que mantém esse sonho vivo? Do belo trabalho do museu do inconsciente que dá continuidade ao sonho de Nise. Pelo pouco que convivi com esse trabalho, posso dizer que seu sonho está muito vivo naquele espaço.
A arte é também expressão do inconsciente, ou daquilo que também se chama alma. O mundo precisa de novas Nises.

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Adeus, Democracia

IMG_8037Eu era pequeno quando vc chegou no país. Lembro de acompanhar, via rádio, no nosso antigo carro, a caminho da natação ou das aulinhas de futebol, o noticiário sobre os trâmites da diretas. Isso era muito importante para você chegar. Lembro também de meus pais batendo panelas na janela. Naquela época se batia panela por você, não contra. Lembro de camisetas da Mafalda e lembro também de um passeio na Candelária, onde do alto de um dos edifícios pudemos ver se aglomerarem na rua milhões de pessoas que queria ser donas de seus futuros. O país queria muito você por perto. E até quem não queria muito não podia mostrar que não queria.
Cresci convivendo bem com você. Aprendi a te admirar muito. E hoje te considero fundamental para que o mundo não acabe se destruindo, embora ainda ache que a cada dia caminhamos um passo nessa direção. Tivemos muitos bons momentos juntos. Principalmente quando aprendemos alguns segredos que você escondia, e ainda esconde, da maioria das pessoas, como a forma que você funciona em coletivos pequenos, em espaços mais reservados. Como você se faz importante em cada momento da vida e as formas de você se apresentar. Como a relação com você pode ser proveitosa para o crescimento de um país.
Foi na rua que tivemos nossa relação mais íntima. E foi assim, no meio de muita gente, como estamos vendo agora nas ruas do país. Mas não foi só na rua que tivemos intimidade. Pois você é onipresente, ou deveria ser. Pude viver cada momento junto ao seu lado de forma intensa. Essa convivência foi muito importante para o que eu sou hoje.
Por sua conta, podemos ver chegar ao cargo mais alto do país, um operário que saiu da extrema pobreza do sertão nordestino para o centro do capital brasileiro para ser um operário. A sua construção também se misturou muito com a construção do partido que esse cara ajudou a criar.
Demorou, mas, depois de algumas tentativas, esse cara conseguiu chegar ao governo, junto com o partido que ele ajudou a criar para começar a de fato fazer valer o seu nome. Afinal, de que adianta estarmos ao seu lado se não for para ser pleno. E só a plenitude da sua companhia pode fazer com que realmente vivamos num mundo melhor. Só o acesso aos elementos básicos da vida pode ser digno de carregar seu nome.
Com você, conseguimos acabar com a fome, tiramos milhões da miséria e incluímos outros tantos milhões no mercado de consumo. Tá bom, poderíamos sonhar com outro tipo de inclusão, que eu até acho que seria melhor, poderia ser mais duradoura e humana, mas não podemos desprezar esse feito. Principalmente num mundo que a cada dia exclui dos elementos mais básicos da vida um contingente incontável de vidas.
Também conseguimos melhorar a vida de muita gente que precisava muito: o ingresso no ensino superior para uma parcela da população que estava fora desse sistema, o respeito às minorias, ao pessoal GLBT, às mulheres, às negras e negros, são alguns exemplos.
Claro que se nossa convivência fosse ainda mais intensa, acredito que poderíamos ter feito mais. Isso, claro, não tira a beleza dos momentos em que convivemos e aprendemos com você.
Agora, nesse triste momento em que você parece se afastar de nós, não só sentiremos a sua falta, como estaremos aqui a lutar pela sua pronta recuperação para voltarmos a caminharmos lado a lado. Sua falta pode nos levar também a Esperança. Sem ela será muito difícil viver nos tempos que se apontam para as nossas vidas.
Espero, sinceramente, que esse adeus se converta rapidamente num até logo.

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O tamanho do desafio

Sou de uma família de militantes políticos. Há gerações, lutamos contra a injustiça no mundo. Dos dois lados da minha árvore genealógica há exemplos de pessoas que deram a vida para construir um mundo melhor, não só aqui no Brasil, mas lutando contra o nazismo/fascismo na Europa, por exemplo.

Eu nasci no final da ditadura militar e sou um pouco mais velho do que o partido que viria a ser o principal instrumento de mudança social das últimas décadas no país: o PT. Se olharmos só o PT de hoje, envelhecido pela luta, pelas disputas, pela falta de projeto político das esquerdas no mundo todo, talvez não tenhamos noção do tamanho histórico que essa defeituosa ferramenta da classe trabalhadora tem de verdade.

Porém, um olhar mais longe pode nos dar a noção do seu tamanho, assim como de seus feitos.

Vivemos num mundo de profundas desigualdades. Nunca a desigualdade foi tamanha. Dados apontam para o fato de que 1% da população mundial tem nada menos do que a mesma riqueza de toda a metade mais pobre. E a tendência global é que esses dados piorem.

Vivemos num mundo que exclui o diferente, que pratica limpeza étnica, que não aceita que você acredite em outra coisa que não no SEU Deus.

Vivemos num mundo que destrói seu próprio ambiente para dar vazão aos anseios de vontades que são construídas pelos próprios produtores dos objetos de desejo dos consumidores.

Vivemos num mundo em que é mais importante parecer que se tem alguma coisa do que realmente ter.

E foi nesse mundo, caduco, após o fim de uma alternativa, que no fim não trouxe alternativa na forma de viver, que foi criada e cresceu essa experiência brasileira. Ela foi criada exatamente na crítica a essa alternativa global que não alterou o essencial, mas que, pelo menos, trouxe uma perspectiva menos comercial para a vida daqueles que viviam sob seu arco. Porém esse rumo acabou. O muro caiu. E o outro lado tomou conta da nossa direção nos fazendo ser cada vez mais mercadorias a ser comercializadas para que os donos do mundo tenham cada vez mais as custas de muitas almas.

Não se podia esperar que nascesse da falta de rumo, um prumo para o país e para o mundo. Nesse contexto, só foi possível a arrumadinha , o jeitinho no sistema imperfeito e capenga que foi a síntese possível após a noite longa, que é a democracia brasileira.

Esse jeitinho, esse aceitar de coisas inaceitáveis, esse ceder de coisas que não deveria,  esse jeito de adiar coisas importantes, no entanto, foi suficiente para mudar milhões de vidas. Poderíamos até mesmo dizer que essas vidas foram criadas, pois, em muitos caso eram só organismos sem nenhuma noção de que viviam numa sociedade complexa como a do mundo do séc XXI. Não tinham luz, não tinham água e nenhum assistência de um Estado, que só conheciam pela força bruta que os expulsava de qualquer noção de cidadania.

Para outra parcela, o jeitinho, trouxe uma melhora significativa na sofrida luta do dia-a-dia, materializada no aumento do salário mínimo, da distribuição de moradias dignas, do emprego formal.

Todas essas mudanças foram possíveis através de ações governamentais, condicionadas ao acordo de governabilidade com aqueles que não mais toleram que se mexa na estrutura do país em nome de um desenvolvimento. Para as forças conservadoras nacionais é melhor viver num país periférico, extrativista, excludente, com heranças escravocratas do que pode fazer parte dos países chamados desenvolvidos, onde os elementos dessas forças teriam que dividir a mesa com pessoas de segunda classe.

Por pior que tenha sido a postura do partido nesse momento histórico, não apagam o enorme êxito de ter tirado milhões da miséria, acabado com a fome. O governo e o partido foram se juntando ao inimigos na crença de que era possível promover as tão urgentes mudanças na estrutura socioeconômica brasileira sem conflito, ao contrário do que se pregou durante tanto tempo no século passado. Não deu. O conflito veio do lado de lá, que não mais aceitou que não se tenha mais margem para manobrar vidas em busca do lucro, o conforto e o luxo fácil.

Cresci ouvindo histórias da ditadura. Entre cômicas e trágicas, essas histórias são parte da minha formação humana. Me ajudaram a enxergar mais do que os olhos dos telejornais nos mostram. Hoje, então, eu posso dizer: nossos pais não lutaram em vão para construir essa frágil democracia. Não lutaram para construir esperança para agora, os mesmo de sempre, mancomunados com as forças internacionais de sempre, pisarem em nossos canteiros.

Bem vindos à luta de classes e vai ter luta.

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