Onda e esperança

Fomos forjados na luta
E passamos por muitas pedras no nosso caminho
Fomos presos, torturados
Não sumimos
Ao contrário, sonhamos
Somos, pois, os sonhos, reconstruídos
que vivemos coletivamente
Somos parte do mundo
e o enchemos de indignação
Para resistir
Para criar esperança
Para pintarmos com as nossas cores
Como pintamos as ruas agora
Somos muitas e somos fortes
Sejamos onda e esperança
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Narrativa contra-hegemônica contra o fascismo

Bolsonaro é a expressão da política da extrema direita internacional no Brasil. É o Trump, a Le Pen. É, no final, ainda pior que eles e o Brexit, pois tudo que acontece na periferia, como imitação, é pior. Mais duro, mais imoral, mais mortes. É a consequência de anos e anos de desconstrução política em termos mundiais.

É fruto de um capitalismo que não precisa mais da democracia para garantir seus ganhos, e que a vai corroendo por dentro. Pelo descrédito, pela mentira, pelo falso moralismo de seus heróis. Tudo a partir da desinformação.

O discurso vencedor do primeiro turno traz tudo isso. Não acreditamos mais nas instituições. O sistema é corrupto. Só uma pessoa de fora pode nos salvar. Mesmo que essa pessoa seja deputado há 28 anos. Mesmo que a vida tenha melhorado, e muito, para parcelas da população nos últimos vinte anos, que as pessoas agora comam, estudam, compram coisas. É preciso acreditar que tudo está ruim.

Destrói a economia, para de investir, quebra um país para provar seu ponto de vista. Sim, eles tem esse poder.

Após a apuração choveram análises sobre a forma como esse discurso foi produzido. A maioria delas considera a comunicação como algo linear. Basta chegar, a partir da apropriação de determinadas tecnologias ao seu público. Não. É preciso fazer o interlocutor agir junto a com a mensagem que chega nele. É preciso tocar-lhe o coração. Não somos e nunca fomos racionais. Matamos uns aos outros por preferências políticas, por time de futebol, por religião.

É preciso, portanto, estar no mesmo nível lógico do “receptor” para que ele lhe entenda. A ação da comunicação está muito mais em quem recebe a mensagem do que em quem a emite. O sentido se faz na mediação, nas relações que estamos submetidos todos, na família, na escola, no trabalho, na igreja.

Eles fizeram isso. Analisaram, a partir de milhões de dados, os códigos, os medos, as frustrações, os desejos desses grupos e criaram suas próprias mediações. Suas narrativas.

As promessas do mundo neoliberal não se concretizaram e depois de 40 anos de imposição dessa política que prometia ganhos para todos, somente o andar de cima pôde usufruir. Cresce a massa de desiludidos com a política, com as instituições, com o estado.

Paradoxalmente, é um discurso que reforça o liberalismo das relações comerciais, junto com o descrédito das instituições que derruba a democracia, que cresce nesse momento. É o discurso anti-sistema do próprio sistema que se impõe como narrativa hegemônica.

No início do século passado, por um lado a revolução Russa e por outro a ascensão do nazismo  foram respostas às promessas liberais que não entregaram a prosperidade prometida. A guerra mudou tudo isso. O mundo liberal teve que se controlar. Bretton Woods criou o mundo do welfare state, como forma do controle da luta de classes. Foi a solução possível para os conflitos a nível mundial e dentro dos países industrializados.

Era o começo de uma nova narrativa para o mundo. Outras surgiram e mudaram as narrativas antigas. Elas disputam. É importante disputar as narrativas.

As narrativas não correspondem à verdade, mas sim como as pessoas veem o mundo. Se as pessoas só estão expostas a uma narrativa, veem o mundo de forma limitada. Estão sujeitas a serem “manipuladas”. Criam a ação a partir de uma só visão de mundo. Se expostas a mais de uma, podem diversificar, podem repensar a forma como veem o mundo. Chimamanda Adiche fala sobre isso melhor que eu:

De forma desorganizada, a sociedade civil está reagindo à onda Bolsonaro, que dificilmente se repetirá no segundo turno. Ondas assim são custosas e trabalhosas. Dificilmente se repetem. A sociedade não é uma equação a ser resolvida. Ela reage, muitas vezes de forma imprevisível. Agora tem um contraponto. Espero que o suficiente para barrar a onda, ou criar outra, positiva.

Estamos disputando a narrativa e eles não falarão mais sozinhos. Não se pode mais fugir ao debate. Não passarão.

 

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A mulher desconhecida

Resultado de imagem para 28 de setembro cinelandia

 

A mulher desconhecida,
que trabalha,
que organiza o movimento,
que leva tanta gente à rua,
registra em sangue e suor
a sua história

nas praças, nas ruas,

nas casas, nos escritórios,
nas pedras em que pisamos.
Mobiliza um país,
constrói a esperança,
enterra o ódio.
É uma, é mil,
são milhões.
Entregues em uma causa
de suas próprias vidas
da vida de suas próximas
da construção de um país.
É a resistência ao que ameaça
Que, por aqui, não passa
Rega a vida em solo duro
e nasce flor e fruto
vida e esperança
do cuidado e do carinho
de um vida de igualdade

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13 minutos para a ascensão do fascismo

 

 

O filme mostra uma tentativa de assassinato de Hitler feito por uma pessoa comum. Conta uma história real. O atentado, porém, falha por 13 minutos e não mata o Führer.

A maior parte do filme é o interrogatório do autor pelas autoridades militares nazistas. Porém, essas cenas são intermediada por flashbacks da vida do autor do atentado. Enquanto ele tenta convencer seus algozes de que trabalhou sozinho, o filme vai montando a história do personagem na pequena cidade alemã.

A vida da cidade vai mudando a medida que o Nazismo cresce. Alguns conhecidos vão mudando, outros vão sumindo e aos poucos vão aparecendo bandeiras com a Suástica nas ruas. Judeus, que antes eram apenas o vizinho, a vizinha, vão sendo humilhados em praça pública, tendo suas casas invadidas, roubadas, incendiadas. São mortos.

Há uma resistência, que aparece para o personagem principal na figura de clandestinos, feridos, famintos. Ele ajuda. Se emociona. Se identifica. E age. Sozinho.

O principal do filme, de 2015, é mostrar a ascensão lenta e gradual do fascismo. Se de repente humilhamos em praça pública e matamos o diferente, o culpando por muitas de nossas tragédias diárias, isso choca. Mas se isso for feito aos poucos, um passo de cada vez, é até possível achar normal as barbaridades que escutamos no dia a dia.

É um filme feito para pensarmos. Hoje.

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A falta e a Luta #MariellePresente

Quando morre uma pessoa, é uma vida que deixa de existir. Foi uma vida. Foi uma pessoa que desapareceu, que não está mais lá. Que deixa, nos seus, um vazio. Aquela casa não tem mais aquele pessoa, aquele detalhe, aquele comentário que a pessoa faria… essas coisas não existem mais.

Quando essa vida é tirada à força, deixa uma raiva, uma revolta sem sentido, uma vontade de romper com o mundo, que na verdade é só a dor que corrói as entranhas.

Quando morre um(a) militante de um outro mundo possível, morrem seus sonhos.

É a morte de um pouco de cada um de nós. Nós que acreditamos num mundo diferente, num mundo onde viver significa mais do que estar vivo. Isso, num mundo em que sobreviver já é uma façanha pra grande maioria da população.

Pessoas que usam do fato de estar viva pra dar mais vida a quem não tem, são imprescindíveis. Marielle, pelo menos em sua figura pública, pois não a conheci pessoalmente,  era assim.

Filha da favela, negra, sonhadora. Construiu sua resistência e morreu como martir de uma luta que apenas não tem data para acabar.

Ela se junta a sem número de militantes assinados nos últimos tempos*:
  • Paulo Sérgio Almeida Nascimento 13/03/2018 – líder comunitário no Pará – assassinado
  • Márcio Oliveira Matos, 26/01/2018 – líder do MST na Bahia – assassinado
  • Leandro altenir Ribeiro Ribas, 19/01/2018 – Líder Comunitário no RS – assassinado
  • Jefferson Marcelo, 04/01/2018, Líder comunitário no RJ – assassinado
  • Carlos Antonio dos Santos (carlão), 08/02/2018 – líder movimento agrário Mato Grosso – assassinado
  • José Raimundo da Mota de Souza Júnior 13/07/2017 – líder quilombola/MST bahia – assassinado
  • Eraldo Lima Costa e Silva, 20/06/2017 – líder MST Recife – assassinado
  • George de Andrade Lima Rodrigues, 23/02/2018 – líder comunitário Recife – assassinado
  • Luís César Santiago da Silva (“cabeça do povo”), 15/04/2017 – líder sindical Ceará – assassinado
  • José Bernardo da Silva, 27/04/2016 – líder do MST Pernambuco – Assassinado
  • Paulo Sérgio Santos, 08/07/2014 – líder quilombola na Bahia – Assassinado
  • Rosenildo Pereira de Almeida (Negão), 08/07/2017 – líder comunitário/MST – Assassinato
  • Jair Cleber dos Santos, 24/09/2017 – líder movimento agrário Pará – Assassinado
  • Simeão Vilhalva Cristiano Navarro, 01/09/2015 – líder indígena Mato Grosso – Assassinado.
  • Fabio Gabriel Pacifico dos Santos (binho dos palmares), 19/09/2017 – líder quilombola Bahia – Assassinado
  • Valdenir Juventino Izidoro, (lobo), 04/06/2017 – líder camponês Rondônia – Assassinado
  • Almir Silva dos Santos, 08/07/2016 – líder comunitário no Maranhão – assassinado
  • José Conceição Pereira, 14/04/2016 – Líder comunitário Maranhão – Assassinado
  • Waldomiro costa Pereira, 20/03/2017 – Líder MST Pará – Assassinado
  • Valdemir Resplandes, 09/01/2018 – líder MST Pará – Assassinado
  • Clodoaldo dos Santos, 15/12/2017 – líder sindicalista sindipetro RJ – assassinado
  • João Natalício Xukuru-Kariri, 19/10/2016 – líder indígena Alagoas – Assassinado
  • Edmilson Alves da Silva, 16/02/2016 – Líder comunitário alagoas – Assassinado
Talvez não seja consequência direta do golpe. Mas é provável que isso continue e até ser amplie. O golpe abriu a Caixa de Pandora onde todo o mal estava guardado. Ninguém controla o que saiu de lá. Ninguém  controla forças capazes de matar alguém.
Caminhamos rumo a barbárie.
É preciso encher o mundo de indignação
Resistir
Reconstruir esperanças
Chorar nossas mágoas, mas manter a cabeça erguida
Construir o oceano das lágrimas que rolam
Para fazer boiar o peso que nos comprime
A água deixa tudo mais leve
A onda destrói barreiras
Sejamos água
Sejamos onda e esperança
*levantamento de Fernando Horta

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Com os pés na terra

Andamos na lama
enquanto escolas são fechadas
Pessoas são mortas por um pedaço de terra
ou por óleo
ou por nada
pela cor da pele

E nós, andamos descalços
sem rumos
sem saber aonde estamos
ou para onde vamos

Somos muitos e sabemos poucos
Enquanto os poucos sabem, e tem, muito

Sentimos nossos pés tocarem a terra
Temos ideias e solidariedade
mas isso só não basta

Somos muitos, mas não sabemos onde queremos chegar

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Mais vida, menos mercado

Mais uma criança foi morta essa semana, numa “ação policial” em uma favela no Rio de Janeiro. Não é uma estatística, era uma pessoa. Era uma filha, amiga. Essa pessoas, adultos, crianças, jovens, morrem porque suas vidas não valem nada, ou quase nada. Não é o Estado que é assassino. Não há a esperança de que “homens bons” possam tomar o Estado e mudar nossas vidas, enquanto tocamos a vida cotidiana. É a forma de produção. A forma como consumimos e produzimos que destrói a terra em que moramos, cria necessidades e acaba com vidas. É para manter uma parcela pequena no admirável mundo novo que a maioria tem que viver nos lixões. Urge discutir uma nova vida, que passará pelas pessoas, primeiro, depois pelo que pode organizar e/ou defender as pessoas (o Estado) e só depois o mercado. Isso não virá de um punhado de iluminados, mas sim de toda uma organização da sociedade em torno das suas próprias vidas.
 
E assim caminha a humanidade.

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