A falta e a Luta #MariellePresente

Quando morre uma pessoa, é uma vida que deixa de existir. Foi uma vida. Foi uma pessoa que desapareceu, que não está mais lá. Que deixa, nos seus, um vazio. Aquela casa não tem mais aquele pessoa, aquele detalhe, aquele comentário que a pessoa faria… essas coisas não existem mais.

Quando essa vida é tirada à força, deixa uma raiva, uma revolta sem sentido, uma vontade de romper com o mundo, que na verdade é só a dor que corrói as entranhas.

Quando morre um(a) militante de um outro mundo possível, morrem seus sonhos.

É a morte de um pouco de cada um de nós. Nós que acreditamos num mundo diferente, num mundo onde viver significa mais do que estar vivo. Isso, num mundo em que sobreviver já é uma façanha pra grande maioria da população.

Pessoas que usam do fato de estar viva pra dar mais vida a quem não tem, são imprescindíveis. Marielle, pelo menos em sua figura pública, pois não a conheci pessoalmente,  era assim.

Filha da favela, negra, sonhadora. Construiu sua resistência e morreu como martir de uma luta que apenas não tem data para acabar.

Ela se junta a sem número de militantes assinados nos últimos tempos*:
  • Paulo Sérgio Almeida Nascimento 13/03/2018 – líder comunitário no Pará – assassinado
  • Márcio Oliveira Matos, 26/01/2018 – líder do MST na Bahia – assassinado
  • Leandro altenir Ribeiro Ribas, 19/01/2018 – Líder Comunitário no RS – assassinado
  • Jefferson Marcelo, 04/01/2018, Líder comunitário no RJ – assassinado
  • Carlos Antonio dos Santos (carlão), 08/02/2018 – líder movimento agrário Mato Grosso – assassinado
  • José Raimundo da Mota de Souza Júnior 13/07/2017 – líder quilombola/MST bahia – assassinado
  • Eraldo Lima Costa e Silva, 20/06/2017 – líder MST Recife – assassinado
  • George de Andrade Lima Rodrigues, 23/02/2018 – líder comunitário Recife – assassinado
  • Luís César Santiago da Silva (“cabeça do povo”), 15/04/2017 – líder sindical Ceará – assassinado
  • José Bernardo da Silva, 27/04/2016 – líder do MST Pernambuco – Assassinado
  • Paulo Sérgio Santos, 08/07/2014 – líder quilombola na Bahia – Assassinado
  • Rosenildo Pereira de Almeida (Negão), 08/07/2017 – líder comunitário/MST – Assassinato
  • Jair Cleber dos Santos, 24/09/2017 – líder movimento agrário Pará – Assassinado
  • Simeão Vilhalva Cristiano Navarro, 01/09/2015 – líder indígena Mato Grosso – Assassinado.
  • Fabio Gabriel Pacifico dos Santos (binho dos palmares), 19/09/2017 – líder quilombola Bahia – Assassinado
  • Valdenir Juventino Izidoro, (lobo), 04/06/2017 – líder camponês Rondônia – Assassinado
  • Almir Silva dos Santos, 08/07/2016 – líder comunitário no Maranhão – assassinado
  • José Conceição Pereira, 14/04/2016 – Líder comunitário Maranhão – Assassinado
  • Waldomiro costa Pereira, 20/03/2017 – Líder MST Pará – Assassinado
  • Valdemir Resplandes, 09/01/2018 – líder MST Pará – Assassinado
  • Clodoaldo dos Santos, 15/12/2017 – líder sindicalista sindipetro RJ – assassinado
  • João Natalício Xukuru-Kariri, 19/10/2016 – líder indígena Alagoas – Assassinado
  • Edmilson Alves da Silva, 16/02/2016 – Líder comunitário alagoas – Assassinado
Talvez não seja consequência direta do golpe. Mas é provável que isso continue e até ser amplie. O golpe abriu a Caixa de Pandora onde todo o mal estava guardado. Ninguém controla o que saiu de lá. Ninguém  controla forças capazes de matar alguém.
Caminhamos rumo a barbárie.
É preciso encher o mundo de indignação
Resistir
Reconstruir esperanças
Chorar nossas mágoas, mas manter a cabeça erguida
Construir o oceano das lágrimas que rolam
Para fazer boiar o peso que nos comprime
A água deixa tudo mais leve
A onda destrói barreiras
Sejamos água
Sejamos onda e esperança
*levantamento de Fernando Horta
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Com os pés na terra

Andamos na lama
enquanto escolas são fechadas
Pessoas são mortas por um pedaço de terra
ou por óleo
ou por nada
pela cor da pele

E nós, andamos descalços
sem rumos
sem saber aonde estamos
ou para onde vamos

Somos muitos e sabemos poucos
Enquanto os poucos sabem, e tem, muito

Sentimos nossos pés tocarem a terra
Temos ideias e solidariedade
mas isso só não basta

Somos muitos, mas não sabemos onde queremos chegar

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Mais vida, menos mercado

Mais uma criança foi morta essa semana, numa “ação policial” em uma favela no Rio de Janeiro. Não é uma estatística, era uma pessoa. Era uma filha, amiga. Essa pessoas, adultos, crianças, jovens, morrem porque suas vidas não valem nada, ou quase nada. Não é o Estado que é assassino. Não há a esperança de que “homens bons” possam tomar o Estado e mudar nossas vidas, enquanto tocamos a vida cotidiana. É a forma de produção. A forma como consumimos e produzimos que destrói a terra em que moramos, cria necessidades e acaba com vidas. É para manter uma parcela pequena no admirável mundo novo que a maioria tem que viver nos lixões. Urge discutir uma nova vida, que passará pelas pessoas, primeiro, depois pelo que pode organizar e/ou defender as pessoas (o Estado) e só depois o mercado. Isso não virá de um punhado de iluminados, mas sim de toda uma organização da sociedade em torno das suas próprias vidas.
 
E assim caminha a humanidade.

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hasta siempre, comandante

img_20161126_104728Tomados pelo mais puro sentimento de consternação pela notícia da morte do comandante em chefe da mais bela experiência que a humanidade produziu por essas bandas, lamentamos o seu desaparecimento.
Pode ser que nada mude na nossa vida aqui, ou mesmo para as milhões de pessoas que dependem do estado cubano, mas a esquerda mundial perde um dos seus principais símbolos. O último grande personagem e líder do século XX.
Fidel representa aqueles que conseguiram impôr derrotas ao maior e mais poderoso império da história da humanidade. Impôs derrotas consideráveis à gerações de norte americanos (leio agora que foram 10 presidente e todos, ou quase todos, tentaram elimina-lo), mantendo viva a chama da esperança de que o mundo não precisa ser uma competição entre iguais pelos elementos mais básicos da vida como comida, moradia, vestimenta, diversão…
Cuba nos mostrou, e continua nos mostrando, que o mundo pode ser melhor. Os recursos, escassos no caso daquele país, são melhor distribuídos, garantindo a todos e todas uma existência digna diante de um mundo que mói sonhos e trucida vidas.
Cuba é a revolução possível. Não é a utopia realizada, o céu na terra ou o paraíso. Convive com problemas como qualquer outra comunidade, mas soube dar humanidade a esses problemas. Soube tratar com alegria sua dificuldades e nunca esmoreceu diante das enormes dificuldades que a história lhe imputou. Cuba resistirá, da sua forma, pois sua força está no seu povo aguerrido e batalhador, mesmo que a perda do seu principal líder lhe impute uma derrota, um abalo.
Fidel fará muita falta às gerações vindouras que não terão esse símbolo contra as diversas simbologias do mercado que nos resumem dioturnamente a consumidores.
A história já o absolveu, companheiro.
Hasta siempre, comandante

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Destruição a jato

No filme “A grande aposta” sobre os eventos que levaram à crise de 2008, tem uma sequencia muito interessante que mostra um pouco a desconexão entre determinadas ações que são feitas em determinados espaços e as graves consequências para uma grande parcela da população. No filme, Brad Pitt, repreende 2 jovens investidores que comemoravam um grande negócio feito pelos três. Pitt, então, os alerta: “Vcs tem noção do que acabaram de fazer? Apostaram contra a economia (norte)americana. Qdo a bolsa cai 1% 400 mil trabalhadores perdem o emprego, mais um sem número de pessoas morrem!”
 
É isso mais ou menos o que ocorre com a lava jato. Até acredito que a sua cúpula saiba bem o que está fazendo. Moro foi treinado nos EUA e isso está no seu currículo Lattes, para quem quiser olhar. Mas pode ser que parte dos concursados, sem conexão com a vida real acredite que está apenas fazendo o seu trabalho, sem ter noção do que significa acabar com investimentos, créditos, empresa, enfim, empregos e vidas. Não percebe que sua ação condenatória está acabando com milhares, quiçá milhões de vidas.
 
Seria bom se esse video pudesse chegar a essas pessoas…

 

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Tempo

Peço-te que ande de vagar
mas que vá longe
 
Que não traga muitas pedras
mas que seu caminho
também não seja de todo liso,
pois é preciso estar atento.
As rugas são, também, importantes.
 
Peço que tenha cores no nosso caminhar
mas, que com suas luzes, não ilumines tudo
pois sombras são importantes
para manter algum mistério
 
Peço que o fim seja breve, mas distante

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Kafka no Quinta D’Or

Acordei de manhã, nessa quarta, dia 3 de agosto de 2016, passando um pouco mal, mesmo assim tomei café, banho e me preparei para ir trabalhar. Mas antes, como me sentia mal, resolvi medir a pressão: 16×10. Para tudo liga pras referências no assunto (minha irmã e minha companheira são médicas).  Ruma para o hospital. Quinta d’Or. Chega lá e entra no mundo da burocracia.

Entrego a carteira do plano e o documento perguntando pela emergência cardíaca: aguarde para ser atendido. Véi, hipertenso chega passando mal no hospital e não passa direto por uma avaliação? O que é isso? Isso é mesmo uma emergência? Escândalo feito (não por mim, dessa vez) e problema resolvido.

Ruma para fazer o eletro. Quem opera essas coisas dentro de um hospital é um técnico de enfermagem, incapaz ou desautorizado a dar qualquer informação. Fica sem saber se tá tudo bem ou não. Mesmo assim, com uma cópia daquelas cobrinhas desenhadas no papel, que diz muito pouco ou quase nada para nós, leigos, podendo ser o seu coração ou o terremoto que rolou no Equador, espera para ser chamado pelo médico.

O que não demora. Procedimento normal com o médico, eletro normal, pressão idem. Fui bem atendido por esse médico que conversou comigo, me examinou. Tudo certo. Explico a minha história, cheia de antepassados com problemas cardíacos. Ele, então, por conta disso me manda fazer o exame de sangue para verificar a tal da enzima cardíaca, para se certificar de que está realmente tudo bem.

Sangue colhido, toma um AAS protocolar e vai para a sala de espera. 40 minutos vendo a Fátima Bernardes na TV depois, com o saco cheio da sala de espera, resolvo esperar do lado de fora, onde minha mãe me aguardava.

Não pode.

Volta para a sala, dessa vez, pelo menos com o tablet em mãos para ler alguma coisa enquanto espero. Na TV, a globo mostra a olimpíada, dentro de seus 352 programas com gente branca, magra e bem vestida. A leitura estava boa, quando o celular, já quase sem bateria, toca. Do outro lado da linha, minha mãe quer saber porque está demorando tanto, pois já se passara mais uma hora desde que eu voltei.

Então já eram 1h40, pelo menos, de espera pelo resultado do exame.

Fala com a atendente, reclama, você é o próximo. Mais 40min e nada de ser o próximo.

Pronto, pra mim chega: vou embora dessa merda. Saio gritando e encontro com a minha mãe do lado de fora, que prontamente  tenta, e consegue, acalmar a situação e negociar e, 2h e tanto depois, sou finalmente atendido.

Então, o Dr. explica: não fui atendido antes, ele acha, porque meu exame estava muitíssimo alterado e eles não sabiam como proceder e foram chamar um médico mais experiente, disse ele apontando para os cabelos brancos.

Como?!

2h e tanto esperando e o cara me diz isso? Ótimo começo pra atender um hipertenso. PQP não to infartando, mas tenho algo muuuuuito grave. Se não vou morrer agora, talvez daqui a uns meses, ou semanas… Nesse momento é possível que minha pressão, que já tinha baixado, tenha voltado ao patamar anterior que me levou aquele conto do Kafka. Para não dizer o mesmo da minha mãe, que assistia a cena.

O Dr., mais uma vez, explica: o INR estava absurdamente alto. Descobri então que esse índice mede a taxa de coagulação do sangue, tendo sua faixa de normalidade ente 0,qq coisa e 1, enquanto o meu estava em 20! Embora esse índice, mais uma vez nas palavras dele, seja incompatível com a vida e isso provavelmente fosse um erro da coleta,  vamos fazer mais alguns exames para tirar qualquer dúvida de qualquer doença que possa estar associada a alteração nessa coisa de INR aí.

Essa parte, pelo menos, foi mais normal e tudo correu dentro dos tempos aceitáveis em “instituições desse tipo”.  Raio-x, novo exame de sangue, espera resultado, novamente atendido pelo médico e liberado, com tudo em dia e com a saúde como antes, ao final de 6h dentro do que é considerado um dos melhores hospitais do Rio.

Resultado: pico de pressão resolvido e um stress causado pelo atendimento que poderia, tranquilamente, ter sido resolvido com o mínimo de atenção ao paciente, uma conversa e, de repente uma repetição do exame.

OK, stress mil, mas nada que um ansiolítico não resolva.

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